Autoconhecimento Comportamento

Ganhar o mundo é ganhar a si mesmo

Mulher sorrindo enquanto olha seu reflexo no espelho
123RF/citalliance
Alline Neto
Escrito por Alline Neto

Olhando pro meu passado, eu posso dizer que falhei em vários pontos e escolhas da minha vida. Sim, tive várias conquistas também, mas o foco desse texto é a seguinte reflexão:

Faz diferença se alcançamos nosso propósito externo? Se fomos bem sucedidos ou se fracassamos?

“Ganhar o mundo e perder a alma” será o melhor caminho?

E se eu falhar no meu propósito externo e tiver pleno sucesso em meu propósito interno?

Eu tenho muita gratidão pelos meus pais, eles são incríveis e fizeram tudo pra que eu fosse uma pessoa de sucesso, me incentivaram, me apoiaram, e, falando francamente, me bancaram por 26 anos, isso mesmo. Eu sai de casa com 26 anos de idade pra morar fora do país. Com essa idade eu senti o peso de ter “fracassado” na minha carreira, foi duro de aceitar e assimilar. Na verdade, eu só consegui olhar pra essa questão depois que comecei a fazer terapia. Eu descobri várias coisas sobre mim, inclusive que eu não gosto de Turismo (meu curso de graduação), agências, vendas, competição, então como eu poderia me formar me algo que engloba tudo isso? Hoje está bem claro que eu jamais ia ter sucesso nessa área, porque simplesmente eu não tenho nenhuma afinidade com ela. Não gosto da ideia de ser empregada e nem de ser chefe de ninguém, lidar com ambiente de empresas, cumprir horários, passar o dia todo trancada em um escritório, enfim, tenho uma lista de coisas. Eu não me encaixo nesse mundo engessado de trabalho, principalmente porque essa engrenagem não desperta aquilo que temos de mais precioso, o Ser e não o Ter.

Mulher sentada em uma mesa de trabalho, com expressão triste e apoiando a cabeça sobre os braços.
Foto de Andrea Piacquadio no Pexels

Cheguei em Londres em 2007, com a intenção de ficar dois anos, trabalhar, comprar um imóvel e voltar para o Brasil. Fiz outra escolha errada, não a de ter vindo pra Londres, mas de ter investido meu tempo, meu suor (fiz muita faxina por aqui) vivendo no piloto automático, trabalhando em função de um “sonho” que não exatamente iria me trazer felicidade e satisfação. Talvez trouxesse “segurança” de alguma forma. Não vejo esse objetivo como foco de uma vida toda, a essa altura eu nem sabia quem eu era, o que me fazia bem, me apoiava em pessoas, nunca em mim mesma.

No ano de 2010, de volta ao Brasil, tive que vender o que eu já tinha pago nesse apartamento e voltei à estaca zero. Na verdade, foi pior ainda, porque a essa altura eu estava com 30 anos, sem experiência na área do Turismo, ou em qualquer outra, sem grana e desmotivada.

Voltei pra Londres em 2012 para sofrer um pouquinho mais até aprender. Isso mesmo, o Universo vai te testar até você aprender a lição. Obrigada, Deus, porque meu aprendizado, minhas quedas e superações foram e são muito leves comparadas às pessoas que passam por tragédias, problemas de saúde ou perdas dolorosas.

Mais uma vez entrei no ciclo vicioso de trabalhar sem motivação, apenas como meta o dinheiro no final da semana. Com essa atitude eu só reafirmei meu fracasso financeiro. Mas nem tudo foi ruim, consegui me bancar e ser independente, consegui viver a montanha russa de emoções que é morar longe do seu país de origem, convivi com pessoas que me ensinaram aquilo que eu não quero ser, conheci a solidão em muitas ocasiões, e aprendi a lidar com ela, mas também vivi intensamente.

Encontrei um companheiro que conseguiu tirar de mim o meu melhor e meu pior lado, passei a enxergar minha sombra, meu ego, minhas máscaras, minhas dores e também minha natureza suave e radiante, com toda minha sabedoria interna.

Nasceu a flor de lótus em meio à lama.

E hoje agradeço ao meu “fracasso externo”, pois foi atravessando, observando, acolhendo todas essas sensações não muito agradáveis que pude falar em transformação, renascimento… e tenho agora a sensação de que estou começando a viver a melhor versão de mim mesma. Não que esteja tudo resolvido, a verdade é que nunca estará, é apenas o início de uma nova etapa, jornada em que vou acompanhar pessoas, despertar nelas a sabedoria interna que por experiência própria eu sei que existe.

Mulher de costas em frente à London Bridge,em Londres.
Foto de Maël BALLAND no Pexels

Na Terapia Transpessoal o terapeuta é um paciente profundo. A terapia nunca vai cessar para mim. Estou em constante análise dos meus próprios processos internos.

O ponto de conclusão sobre fracassar ou não, ser bem sucedido ou não é.

O propósito externo está condenado a fracassar mais cedo ou mais tarde, simplesmente porque está sujeito a impermanência de todas as coisas, ao contrário do propósito interno, que traz satisfação duradoura.

Quando falo de propósito interno, falo de inúmeras coisas, uma delas é me sentir parte de um todo, me sentir conectada com a criação, viver mais no presente, compreender que a morte não existe, olhar o outro com menos julgamentos, ser mais minha amiga, aceitar que fracassei, que errei e erro, estar do meu lado nessas ocasiões, não entrar em jogos de competição e Egos, pois, se não prestamos atenção, somos arrastados invisivelmente. O jogo de quem pode mais, quem é mais, nos convida a entrar, sentar e tomar café e quando você se distrai está pagando uma fortuna por um relógio que faz a mesma função do seu celular, mas, como você aceitou o convite feito pelo Ego, você acaba comprando, e olha que eu não caio nessa há muito tempo.

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O propósito interno faz você perceber que está tudo bem do jeito que está, que você tem recursos pra lidar com qualquer situação que lhe apresente, mesmo que esta seja dolorosa, você flui com o fluxo da vida, e mesmo tendo metas, objetivos e sonhos, não existe pressão interna e nem externa para atingi-los.

Foi através do fracasso externo que voltei pro meu proposito interno. E hoje, construindo outros sonhos, vejo que mesmo que eles não se concretizem o caminho pode ser tão gratificante quanto o fim, não tenho expectativa que algo lá na frente vai me preencher pois estou vivendo conectada com algo maior, os interesses não são mais guiados puramente pelo meu interesse pessoal, não me identifico mais com meu melodrama interno. Ou seja, não dou poder àquela voz que quer me colocar pra baixo, ou que quer ser vítima das situações.

Então, se eu puder dar um conselho seria, invista em si mesmo, olhe de perto quem você é, com suas sombras e suas luzes. Pergunte a si mesmo. Quem eu sou? O que eu quero? O que me move nesse mundo? O que tenho que mudar? Por experiência própria, a resposta virá, o nosso Inconsciente trabalha a nosso favor se soubermos nos conectar a ele, conviva com sua dor, aceite por vezes que a arrogância, a inveja, o egoísmo nem sempre estão fora. Muitas vezes começou em mim aquilo que eu criticava no outro, o problema nunca está no outro, está em mim. Às vezes dói descobrir que eu não sou uma pessoa tão boa quanto achava, tão evoluída, tão espiritualizada, quanto eu achava. Um dos ensinamentos que a terapia transpessoal me trouxe foi: não negue seu Ego, por causa de um ideal de pessoa “amorosa e espiritual”. Quando isso acontece, o que se revela é um “espiritualismo” que nada mais é que um Ego reprimido e disfarçado de santo, isso pode até provocar neuroses e distúrbios. Vemos muitos “mestres espirituais” e “lideres religiosos” que pregam um coisa e fazem outra, porque reprimem aquilo que precisa ser vivido e superado, ou transcendido.

Mulher de cabelos curtos vista de perfil, sorrindo sem mostrar os dentes
Foto de Andrea Piacquadio no Pexels

Mas isso não está só nos mestres, não. Fazemos isso o tempo todo, reprimimos a nossa vontade, não vivemos as experiências que queremos, e apontamos o dedo para o outro que se permite ser e viver da forma que não é “bem vista” pela sociedade

E se você se der conta disso já está começando a se descobrir e a se livrar da dor, do vazio, da angústia, porque eu posso dizer que pelo menos até onde eu cheguei é espetacular, não há dinheiro, nem casa, nem “segurança”, nem viagem pra lugar nenhum que se compare a essa experiência de crescer em sabedoria.

Sobre o autor

Alline Neto

Alline Neto

Meu nome é Alline, sou formada em turismo, e atualmente estudo terapia transpessoal. O termo transpessoal é outra forma de se referir ao “espiritual", porém não se baseia em crenças religiosas, credos ou no seguimento de personalidades supostamente iluminadas. É uma viagem profunda de autoconhecimento e expansão da consciência, levando em conta o ser humano na sua totalidade, mente, corpo e espírito.

É um curso que vem abrindo caminhos internos, antes desconhecidos. Estou trabalhando primeiramente em mim com toda a dedicação, seriedade e profundidade que o curso exige para que eu possa com conhecimento e amorosidade acompanhar pessoas nesta jornada que se chama vida.

A cura está dentro de nós, e o caminho para se chegar a essa cura é o amor, amor consciente, amor que brota da essência do ser. Para despertar esse amor muitas vezes adormecido, precisamos abrir espaço de consciência para que nasça um novo eu. Encontro-me agora num ponto fascinante, traçando minha história, me redescobrindo com muita consciência e leveza, experimentando uma sensação ou missão maravilhosa de partilhar e aprender.

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