Autoconhecimento

Id, ego e superego: as “vozes” dentro de nossas mentes

Mulher se olhando no espelho
Min An/Pexels
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Uma das mais interessantes áreas de estudo se refere à mente humana. Médicos psiquiatras, neurocientistas, psicólogos e outros profissionais tentam desvendar os mistérios envolvidos no pensamento, no comportamento e, ainda, nos distúrbios psíquicos que levam a conflitos e à inadaptação social.

O trio mais famoso, id, ego e superego, apresentado por Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista e psiquiatra, criador da psicanálise, trouxe uma luz sobre o assunto. Contudo, desde então, muitas pesquisas vêm sendo feitas para elucidar cada vez mais o que se passa na mente das pessoas quando, por exemplo, elas precisam decidir sobre algo, apresentar determinados comportamentos ou conviver em sociedade.

Apesar disso, a teoria de Freud é muito válida, e, embora boa parte de nós se refira ao ego nem sempre com uma conotação positiva, ele faz parte da personalidade de qualquer pessoa e caracteriza a forma de ser de cada um. Então, com o objetivo de elucidar o que são esses aspectos do sistema psíquico e da personalidade, que parecem vozes falando em nossas cabeças, elaboramos este artigo, que esperamos cessar a dúvida. Continue a leitura!

O que são id, ego e superego?

Freud tem uma teoria vasta, importante e rica sobre a psique humana, que influenciou muitos estudos e pesquisas ao redor do mundo, ao mesmo tempo que criou muitas discordâncias, inclusive em alguns de seus contemporâneos, como Carl Gustav Jung. Inicialmente Freud apresentou os conceitos de consciente, pré-consciente e inconsciente. Porém, entre 1920 e 1923, ele ainda trouxe conceitos a respeito do que nomeou como id, ego e superego, que podem ser entendidos como “isso” (id = ich, em alemão), eu (ego = es) e supereu (superego = überich).

Homem em meio a folhagem
Spencerselover / Pexels

Essas três partes da mente são entendidas da seguinte forma: id se relaciona aos múltiplos impulsos da libido, sempre dirigidos ao prazer; já o ego é a parte que se relaciona com a consciência; o superego se refere à consciência moral do indivíduo, seus princípios sociais e suas proibições e regras aprendidas nos primeiros anos, que o acompanham durante a vida inteira de forma inconsciente. Parece complexo? Siga o detalhamento!

Id — isso

Totalmente inconsciente e relacionado aos instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes, o id representa a busca constante do prazer, pois é a fonte da libido, entendida como a energia psíquica. Desconhece os valores morais e éticos, a lógica e a razão. Tudo é urgente, não espera, não planeja, busca soluções imediatas para situações tensas e estressantes. Não aceita bem frustrações e não se inibe. Não tem contato com a realidade. Impulsivo, cego e antissocial. Não distingue certo e errado, consequências, tempo e espaço. Nele estão também os impulsos sexuais. É aquela voz na nossa cabeça que diz: “Se tem vontade, faça!”.

Assim, o caráter do id é volátil. É por conta dele que, eventualmente, adotamos comportamentos sem razão e descompensados, nos quais nos perdemos. Ele não considera limites, respeito e empatia. Contudo concentra toda a força do indivíduo para que os desejos aconteçam. Porém ele é inconsequente e gera vulnerabilidade, podendo levar a consequências sérias. É nesse ponto que o equilíbrio se faz essencial. As três partes precisam funcionar juntas para que não haja excessos ou ausências.

É importante destacar que essas três partes se entrelaçam numa variedade de funções e processos dinâmicos do indivíduo. Portanto, mesmo estando no nível inconsciente, o id pode vir à tona, pois há certa flexibilidade e uma movimentação entre os níveis mentais.

Ego — eu

Contrariamente ao id, o ego tem como base o princípio da realidade, sendo esta adquirida no meio sócio-histórico-cultural, pois precisa satisfazer os desejos do id, porém dentro das convenções ou de forma adequada e adaptada. Assim, ele pondera para que não haja constrangimentos, inadequações, violações legais etc. Ainda lida com os impulsos, de modo que a ação seja adequada ao meio no qual o indivíduo está inserido.

Homem enchendo balão com a palavra "ego" escrita
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Porém é o id que possibilita o desenvolvimento do ego. Se no início da vida o indivíduo é mais movido pelos impulsos e pela satisfação das necessidades de prazer, na medida em que toma consciência de sua própria identidade, o ego vai se desenvolvendo e, para permitir que os impulsos sejam eficientes e adequados ao mundo externo, ele introduz a razão, o planejamento e o momento em que o comportamento humano poderá satisfazer os desejos do id com o máximo de prazer e com o mínimo de efeitos negativos.

Assim, o ego é um mediador entre o id e o mundo exterior e obtém energia do próprio id. Ele ainda enfrenta o superego, as variadas memórias e as necessidades físicas do organismo. Ele procura atender e abrandar as exigências constantes do id e a rigidez do superego. Ele possibilita a preservação da saúde, a sanidade e a segurança da psique. Também não é totalmente consciente, uma vez que mecanismos de defesa que o compõem são parte do nível inconsciente.

Além do mais, o ego é responsável pelo lado científico do indivíduo, pela interpretação e pela ação no mundo exterior à mente. É ele que possibilita uma mente atenta, focada e concentrada. Permite ao indivíduo que responda quem ele é, sendo sua personalidade explícita à sociedade. Ele é a voz na cabeça que diz: “Avalie e decida pelo adequado”.

É muito comum as pessoas entenderem o ego como algo egoístico ou voltado a si, egocêntrico. De fato esses termos se relacionam com essa parte do sistema psíquico. Alguns, inclusive, erroneamente acreditam que o ego não deveria existir, pois isso facilitaria a convivência social. Contudo, se ele não existir, não há identidade; o indivíduo não conseguiria diferenciar o que é pertinente a si próprio e o que é o outro ou o que é ele próprio e o que são as coisas, representando um padrão de esquizofrenia.

Entretanto a forma como o ego funciona interfere no comportamento e nos relacionamentos interpessoais. Assim, um ego inflado ou exagerado pode levar o indivíduo a se tornar narcisista, com sentimentos de superioridade, incapacidade de aprender e ouvir suas próprias críticas. Pode ocultar frustrações, traumas e dores, denunciando alguém em condição de sofrimento que ele deseja omitir. Então esse tipo de ego é incapaz de ser espontâneo. Em contrapartida, quando o ego é muito frágil, ele torna o indivíduo submisso, suscetível à exploração e ao bullying, com baixa autoestima e medo de não ser aceito pelo outro ou por um grupo social.

Desse modo, um ego desequilibrado significa uma personalidade mal adaptada e pode resultar em patologia. Se o id, por exemplo, for dominante, o indivíduo será impulsivo e pouco sociável. Se o ego for dominante, ele será apegado demais à realidade, com rigidez e poucas flexibilizações às regras e valores sociais.

Superego — supereu

O superego é o caráter moral da personalidade do indivíduo, responsável por apaziguar o id, ou seja, conter os instintos primitivos com base nos valores morais, históricos e culturais da sociedade em que se vive. Ele compõe a estrutura da personalidade cultural do indivíduo, representando os padrões sociais que ele foi absorvendo no decorrer da vida, ensinados primeiro pela família e depois adquiridos no meio social, que inibem os instintos rudimentares. Inclusive, alguns estudiosos sustentam que o superego atue para aperfeiçoar e civilizar o comportamento do indivíduo, considerando o que seria ideal, e não necessariamente o real. Além disso, segundo Freud, ele começa a ser introjetado a partir dos cinco anos de idade e se forma depois do ego. Ele descende do complexo de Édipo, pois, nele, durante a fase fálica, o indivíduo vai percebendo a autoridade, representada pelo pai, a proibição do incesto, a castração e as regras sociais e de conduta moral, desde as explícitas até as muito tácitas.

À direita, imagem de uma mulher sem os olhos. À esquerda, a parte dos olhos que faltava na imagem.
Geralt / Pixabay / Canva

O superego atua nos três níveis de consciência do indivíduo. Ele é um norteador sobre o que está certo e o que está errado, fornecendo diretrizes para julgamentos, avaliações e críticas. Divide-se em dois subsistemas: o ideal do ego, que determina o bem a ser buscado, e a consciência moral, que estabelece o mal a ser evitado. Ele é a voz na cabeça que diz: “Você não deve fazer isso, pois não é certo”.

Além disso, o superego tem três funções: inibir (com sentimento de culpa ou por punição) qualquer impulso diferente daquele que a consciência moral estabeleceu; forçar o ego a agir de maneira moral; conduzir o indivíduo à perfeição, nos pensamentos, nas palavras ou nos gestos, de acordo com o que estabelece o ideal do ego.

Porém, se estiver em desequilíbrio, quando o id é dominante e o superego muito reduzido, o indivíduo não apresenta remorso ou culpa, portanto não tem consciência moral, o que caracteriza os psicopatas ou sociopatas, como atualizado o termo. Já com um superego dominante ou hiperativo, o indivíduo pode ser extremamente moralista e alienado, incapaz de ceder e excessivamente radical.

Como eles funcionam na prática?

A teoria da personalidade de Freud e seus conceitos sobre o id, o ego e o superego são importantes na medida em que norteiam o entendimento sobre os comportamentos humanos nas diversas circunstâncias do cotidiano, além de serem um dos mais importantes referenciais na identificação e no tratamento de patologias psíquicas.

De qualquer modo, entender como essas vozes nas nossas mentes funcionam no dia a dia pode nos esclarecer o conteúdo exposto anteriormente. Então vamos a um exemplo corriqueiro de como seria o papel do id, do ego e do superego em relação a ele:

Imagine que você esteja em seu carro se dirigindo ao trabalho. Você está na sua mão de direção e na sua faixa, com velocidade dentro do limite permitido, quando, repentinamente, outro veículo o ultrapassa, fechando o seu prosseguimento na via momentaneamente.

O id atuando: você sai em perseguição ao veículo, bloqueia a passagem dele e parte para a discussão com o motorista. Aqui, o que prevalece é o impulso primitivo, a irracionalidade, a desinibição, a solução imediata para uma situação de tensão, sem planejamento. Há o caráter antissocial.

O superego atuando: você entende que as regras de trânsito não foram cumpridas por parte do outro motorista, mas foram seguidas por você. Você é impedido de adotar um comportamento impulsivo, tendo como princípio moral não partir para o revide, o que poderia trazer uma consequência ruim.

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O ego atuando: você lida com a realidade, pois está indo ao trabalho, deseja chegar a tempo, nada aconteceu de fato com você ou com o automóvel e não precisa revidar, porque entende que o outro pode ter se distraído.

Veja que, em equilíbrio, as três partes da psique (mente) geram um comportamento adaptado ao contexto social e adequado à situação e ao momento. Não provoca conflitos internos ou externos. Não são danosos. Contudo, se qualquer uma delas estivesse em primazia, os resultados seriam diferentes, principalmente aqueles relacionados ao id.

Concluindo, as vozes na nossa mente devem estar em sintonia. Elas representam o conteúdo da nossa personalidade e nos fazem ser quem somos. A saúde mental, por sua vez, tanto influencia comportamentos quanto também é influenciada por eles. O autoconhecimento constitui uma ferramenta fundamental para uma vida social mais adequada. Então, muito além desses conceitos, nos quais você pode buscar se aprofundar, conheça e compreenda que a mente é um universo imensamente rico a ser desvendado! Aceite o desafio! Descubra a sua personalidade.

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