Autoconhecimento

MINDFULNESS – A experiência de Patrícia

Ilustração de mulher meditando.
Roberto Guelfi
Escrito por Roberto Guelfi
Por mais que tentasse, Patrícia não conseguia. Tinha que ter palavras. Eram tão fundamentais que, sem elas, sua mente ficava oca. Estivera com Prestus no dia anterior. Havia algum tempo que o elegera seu mestre, pelo seu elevado grau de espiritualidade e pela afinidade crescente que brotava desse relacionamento. Cada sessão era uma surpresa; cada surpresa um aprendizado. Prestus lhe ensinava a meditar. Neste último encontro, dissera que um modo seguro para entrar em estado de meditação era pensar sem palavras. Pediu que voltasse quando conseguisse.

Em casa, recolheu-se para o exercício. Resolveu formular em sua mente, sem palavras, sua rotina ao levantar-se no dia seguinte. Tentou por um bom tempo, insistiu, mas não conseguiu. Sem palavras, não havia jeito. Seu plano não passava da intenção de ser formulado. Não se materializava. Em paralelo, seus pensamentos fervilhavam, brigando contra a sua incapacidade de alcançar sua meta. Sim, muitos pensamentos fluíam à sua mente com muita facilidade, menos o seu plano. As restrições impostas a ele o haviam travado. Parecia que, no meio de uma floresta de pensamentos permitidos, havia uma clareira onde os pensamentos não podiam entrar por falta de recursos com que pudessem ser representados: as palavras.

Então, Patrícia teve uma ideia: “o que acontecerá, se eu negar recursos, as palavras, não só ao meu plano de ação de amanhã mas também a qualquer pensamento que me vier à mente?” Tentou. O vazio se ampliou, a clareira se expandiu à totalidade de sua mente, a floresta desapareceu. Nenhum pensamento encontrava qualquer veículo com que pudesse se materializar. E não se materializava.

Era difícil acreditar! Tinha conseguido agora o que nunca antes lhe fora possível: esvaziar completamente sua mente. Ouvira várias vezes de Prestus e lera em vários livros que o objetivo fundamental da meditação era esvaziar a mente. Quantas vezes tentara, sem sucesso! Quanto mais buscava expulsar seus pensamentos, mais eles teimavam em permanecer. “Não quero pensar… não quero pensar… não quero pensar…” Dava-se conta agora de que os pensamentos que invocava para afastar seus pensamentos eram eles mesmos que deveriam ser afastados.

Metade do corpo de uma mulher meditando.

Mas agora era diferente. Bastava negar palavras aos pensamentos e eles não apareciam. Esta era a chave. Esta era a lição que Prestus lhe queria ensinar!

Aos poucos, Patrícia percebeu que, para que mantivesse o controle constante de seus pensamentos, tinha que permanecer todo o tempo vigilante. Qualquer distração a que se permitisse, as palavras, os sons e as imagens surgiam em sua mente, dando forma a pensamentos vagos e descontrolados. A vigilância deveria ser permanente.

Surpresa, deu-se conta de que a vigilância não era feita de pensamentos. Não requeria o recurso das palavras. Era apenas a sua atenção consciente e permanente, com foco na mente, como quem vigia a porta, impedindo a entrada de pessoas não autorizadas. Era uma entidade nova que, embora tivesse estado sempre à sua disposição, somente agora Patrícia tomava consciência dela.

Percebeu que utilizar-se do vigilante era ver a si própria de uma outra perspectiva, era abandonar sua identificação com seus pensamentos para identificar-se com o “vigilante”: “eu percebo e controlo meus pensamentos, portanto não sou meus pensamentos”. Agora, ela era o próprio vigilante. Sua consciência plasmou-se nele. Era dona de sua mente. Enxergava de um novo patamar. Desvinculava-se de seus próprios pensamentos.

Patrícia deleitava-se com o exercício. Descobrira uma entidade dentro de si mesma que lhe dava uma nova perspectiva de si própria. Persistindo no exercício, Patrícia notou uma coisa curiosa: agora, mesmo quando permitia palavras, sons e imagens vagas em sua mente, o vigilante ainda permanecia consciente de si mesmo. Ele “via” os pensamentos fluindo na mente (“olha só o que eu estou pensando!”) e, quando se concentrava neles, apenas observando-os, sem neles interferir, eles desapareciam. Percebeu que, na realidade, a vigilância não requeria esforço. Bastava o vigilante observar para que os pensamentos sumissem. Mas, sem a observação do vigilante, os pensamentos eram desconexos, vagos, muitas vezes sob a forma de devaneios e fantasias.

Aos poucos, Patrícia adquiria versatilidade no uso da vigilância.
 Se quisesse pensar de forma controlada, interrompia o fluxo das fantasias, selecionava as ideias que queria liberar na mente e permitia o fluxo das palavras. Assim, os pensamentos emergiam de acordo com sua vontade, com o vigilante atento sem interferir. Entendeu que poderia modular sua consciência entre os pensamentos e o vigilante. Sentia uma elevação de estatura espiritual, quando sua consciência ancorava-se no vigilante.

Assim, Patrícia tornou-se mais seletiva em relação a seus pensamentos, e sua meditação era muito mais eficaz. A prática continuada da vigilância passou a se refletir em seu estado emocional, agora muito mais equilibrado. O controle da mente permitia que selecionasse pensamentos positivos, causadores de bons sentimentos, alegria e paz, e rejeitasse pensamentos negativos, que só lhe traziam desequilíbrio. Programas de TV, livros, notícias, conversas… tudo passou a ser objeto de censura prévia. “Porcaria não entra!” Sabia que disso dependia seu equilíbrio e sua paz.

Finalmente, Patrícia sentiu-se pronta para visitar seu mestre. No dia marcado, na sala de Prestus, contou, em detalhes, toda a sua experiência. Segura de si, tinha a certeza de que estava conseguindo trilhar o caminho por si própria. Prestus assumiu a palavra:

“Antes de serem manifestados na mente consciente, os pensamentos preexistem em forma de energia mental não consciente e indefinida. Neste ponto, eles ainda não têm uma forma, uma estrutura que lhes possa atribuir qualquer lógica humana. Essa estrutura e esse formato lhes são fornecidos pelas motivações pessoais, como interesses, paixões, medos, preocupações, mágoas etc., ou seja, pelos sentidos e pelos sentimentos.

“Quando não há interferência do ‘vigilante’, como você o chama, nosso corpo emocional, desgovernado, estimulado pelas experiências que vivemos a cada instante, busca em nosso arcabouço de referenciais o material necessário para representar mentalmente o estado emocional do momento.

“Quando estamos preocupados, formatamos pensamentos que se identificam com nossas preocupações. Se temos mágoa, nossos pensamentos são estruturados de forma a representar essa mágoa em nossa mente consciente.

Ilustração de cérebro em paz.

“Se dermos liberdade às nossas emoções inferiores, a energia mental coletada no reservatório será transformada em pensamentos negativos, que reforçarão as emoções inferiores. Já que o sistema é recorrente, é retroalimentado. Pensamentos negativos… emoções negativas; emoções negativas… pensamentos negativos; e assim indefinidamente, numa espiral crescente que acaba levando às doenças físicas e mentais.

“O segredo do equilíbrio emocional é estabelecer-se o círculo virtuoso: pensamentos positivos… emoções positivas; emoções positivas… pensamentos positivos. Para isso, a figura do vigilante é fundamental, como você mesma já descobriu.

“Nos momentos de desequilíbrio emocional, a atuação da vigilância é fundamental. Quando existe um processo de degeneração emocional, a vigilância deve ser exercida sobre as emoções, impedindo-as de recorrerem aos referenciais da mente. Observar nossa raiva, mágoas e ansiedades, nossos medos e frustrações, sem julgamento e sem censura, realmente apenas observar, é vigiar as emoções.

“As emoções somente acessam o ‘reservatório’ de referências mentais quando detêm o controle sobre si mesmas. Ou seja, quando conseguem fluir como bem quiserem, como uma criança travessa, de forma descontrolada, mas autônoma. Quando o foco de atenção do vigilante estiver sobre uma emoção qualquer, como um pai que vigia o filho, ela perde a autonomia que a permitiria acessar o reservatório mental e realimentar-se.

“No entanto, quando suas emoções são positivas e construtivas, o acesso ao reservatório é altamente desejável, pois a matéria mental nele captada, que tomará forma em sua mente, reforçará as emoções desejáveis, criando um momento criativo de alto valor evolutivo. Neste caso, o vigilante, assim como o pai que observa a atividade criativa do filho, dará liberdade ao processo, ciente de que sua interferência é desnecessária.

“Patrícia, experimente isto! Retorne quando tiver descoberto os resultados por si mesma.”

****

Eram dez e meia da noite e Jorge não aparecia. Patrícia esperava-o, angustiada, à entrada do restaurante. Tinham combinado de encontrar-se ali às nove. Namoravam há cinco anos, mas Jorge ainda não falara em casamento. Os dois tinham bons empregos e poderiam levar, juntos, uma vida modesta, mas digna. O que o prendia não era a questão financeira; era sua mãe, com quem morava.

Viúva, totalmente dependente de Jorge, dona Pilar contraíra uma doença de pulmão há muitos anos. Nas crises frequentes, mal conseguia respirar. Jorge a tratava com os cuidados de um devoto. Preparava-lhe as refeições, dava-lhe os remédios, levava-a aos médicos. Fora das crises, dona Pilar impunha a Jorge uma autoridade incontestável. O pretexto era seu amor pelo filho que tornava a obediência de Jorge inegociável. “Faço isto pelo seu bem”… “Você é tudo o que eu tenho na vida”… “Não suportaria perdê-lo.” Dizia essas coisas a cada imposição de sua vontade sobre a do filho. Jorge a ouvia, calava, consentia e se conformava. “Ela é minha mãe, viúva e doente, se ela morrer de desgosto, minha consciência me crucificará para sempre”… E assim iam vivendo, a vítima (a mãe) e o herói (o filho), cada um no seu papel, o drama de uma vida de apegos e culpas.

Ali, sentada na sala de espera do restaurante, Patrícia sabia qual era a causa da demora.
 A bruxa o havia segurado. Obviamente eram rivais. Para dona Pilar, não poderia haver inimigo pior. Disputava Jorge com Patrícia, como quem disputa a última porção de alimento. Patrícia não odiava a velha, mas não se conformava com a posição assumida por Jorge. Ele não podia desperdiçar sua vida entregando-a aos caprichos da mãe. Se a amasse de verdade, teria a força necessária para desvencilhar-se desse domínio.

Seu ódio aumentava a cada minuto de espera. “Ele é um fraco, não tem vontade própria; vai ter que escolher: ou eu ou ela… eu não aguento mais… vou deixá-lo hoje mesmo!”

Ilustração de uma pessoa meditando em uma montanha.

Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos dirigidos à destruição de sua relação com Jorge. A cada investida redobrada do ódio que, como um punhal, atingia seu coração, sua mente engendrava, com requintes de um mestre, planos cada vez mais sórdidos de vingança. Estava fora de si.

A essa altura, já não mais queria estar com Jorge naquela noite. Saiu do restaurante e tomou o rumo de casa, vagando pelas ruas em desespero. Absorta em seus pensamentos torturantes, sequer percebeu o caminho que percorrera até alcançar a porta de casa. Estacionou o carro, entrou e despencou no sofá.

O que sentia agora era pânico, a impotência absoluta diante do embate entre a repulsiva e angustiante ideia de perder Jorge e o ódio que se instalava cada vez mais forte, ditando a ela implacavelmente os caminhos da separação. Sabia que, para expulsar o ódio, tinha que explodir sobre Jorge todo o seu sentimento de vingança, mas sabia também que no instante seguinte abater-se-ia sobre ela uma tristeza e um sentimento de perda inimagináveis. Então, o que fazer? Como suportar esse ódio crescente sem desabafo? E, se não o suportar, como arcar com a perda de Jorge, tão repudiada? Subitamente, como um raio, as últimas palavras de Prestus invadiram sua mente: “Patrícia, experimente isto! Retorne quando tiver descoberto os resultados por si mesma”.

Sua primeira reação foi chorar. O ódio dissolveu-se em lágrimas. A lembrança das palavras do mestre trouxe em seu bojo, num átimo, todo o conceito que precisava para se livrar do círculo vicioso em que se metera. O edifício que construíra sobre os alicerces do ódio e da vingança estava prestes a ruir. Passado o primeiro instante de choro convulsivo, deslocou sua consciência para o vigilante.

No início, foi uma sensação incômoda. Sua consciência negava fixar-se no vigilante, como se tivesse contas a acertar no plano da emoção, não podendo, pois, desviar-se dele. Insistia em atirar-se no mar do ódio e da angústia, buscando freneticamente, em sua profundidade, a solução definitiva para seus problemas. Mas não a encontrava. Só o que conseguia era alimentar mais e mais seu ódio e seu sofrimento. Voltava ao vigilante, mas logo em seguida era novamente atraída para o gueto obscuro de seus sentimentos.

Apoiando-se na lembrança do mestre, como se este a estivesse espreitando, Patrícia conseguiu, pouco a pouco, fixar-se no vigilante. De onde estava agora sua consciência, via seus sentimentos de ódio e desespero. Lá estavam eles, insidiosos e torturantes. O vigilante, tomado agora plenamente pela consciência de Patrícia, percorria todo o seu corpo, procurando as sensações que o assediavam. Na cabeça, um turbilhão desconexo de uma energia mental desorientada. No pescoço, uma pressão que a sufocava, quase impedindo a respiração. No coração, um aperto dolorido, uma dor quase física. O estômago queimava, prestes a incendiar-se.

Resolveu começar pela cabeça. Assumindo definitivamente o vigilante, fixou sua atenção no turbilhão mental que dominava sua mente. “Eu não sou minha mente… eu sou o vigilante”… convencia-se, enquanto detectava cada movimento disparatado de seus pensamentos. Podia mesmo sentir os movimentos, como coriscos de uma luz densa que cruzavam sua mente, aos milhares, verdadeiros bólidos, sem controle e sem destino. De seu pedestal, vigiava. Aos poucos, o turbilhão começou a se acalmar. Conseguia pelo menos identificar seus pensamentos e sentimentos: “estou pensando isto”… “estou sentindo aquilo”… Deixava seus pensamentos fluírem, sem querer conduzi-los, controlá-los ou criticá-los. Observava apenas. Esvaziavam-se. Deixavam espaços cada vez mais amplos em sua mente. Até que sumiram por completo.

Em meio a seu drama, Patrícia estava surpresa com os resultados. Sentia-se mais calma.

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O ódio deixara uma ressaca desagradável, mas sua intensidade havia se reduzido. Novamente ancorada no vigilante, percorreu seu corpo mais uma vez em busca das sensações. A pressão no pescoço desaparecera por completo, o coração ainda apertado precisava de alguns cuidados. O estômago ardia ainda com grande intensidade.

Agora era a vez do coração. O vigilante olhou para ele, como um médico examinando um paciente. Auscultou a sensação de aperto e aquela espécie de dor física que o paciente sentia. Não interessava por que doía, se devia doer ou não, ou quem era o responsável por aquela dor. O que interessava era a consciência da dor, era abraçar a dor com a observação do vigilante, não deixando passar nenhum detalhe daquela sensação. Como era o aperto? Onde exatamente? A dor pulsava? Era contínua ou intermitente? Enfim, nada escapava ao vigilante.

E a dor, sem o alimento da mente já calma, sob os olhos complacentes, mas penetrantes e severos do vigilante, acabou abandonando aquele coração… que não ficou vazio. O coração não pode ficar vazio. No lugar da dor, como uma chama branda, expansiva, cálida, aconchegante e cristalina, foi se infiltrando, de mansinho… o Amor. Amor por quem? Apenas o Amor.

Daí a eliminar por completo os sintomas físicos, ou seja, as sensações dolorosas causadas pelos sentimentos negativos de ódio e vingança foi muito fácil. Ao final do processo, Patrícia já não sentia ódio, sentia pena de Jorge: “Pobre homem, totalmente subjugado pela mãe”. Sentia também uma grande tristeza e um sentimento de perda, por saber o quanto a relação doentia que Jorge mantinha com a mãe a afetava. Mas seu ego não mais se sentia ferido. A sensação de “vítima traída e rejeitada” a havia abandonado. Quanto à sua tristeza e à sua incapacidade de conduzir Jorge a uma atitude que a satisfizesse, convenceu-se de que iria assumir uma posição.

No dia seguinte foi ver o mestre. Não podia esperar mais para contar tudo a Prestus.

Foto de um dente-de-leão.

“A experiência foi magnífica”, concluiu Patrícia, “é incrível como funciona. Realmente ocorre um esvaziamento de todos os sentimentos negativos quando a mente não mais os alimenta; e as sensações físicas que os acompanham vão embora também. O vigilante é absolutamente sensacional! É como um jato de luz que varre todo o lixo do nosso astral contaminado pelo germe do ódio. Primeiro ele domina e tranca a mente rebelde, que, inerte, não pode mais acessar a imundície dos pensamentos destrutivos. Depois, um a um, ele balsamiza as áreas físicas infectadas pelas sensações de dor, pressão, aperto, peso, queimações etc. Mestre, és um gênio!”

“Patrícia, isto tudo está aí para quem quiser experimentar. Eu não inventei nada. Apenas experimentei antes de você e, por isso, posso agora transmitir a experiência com a convicção de quem já viveu o que preconiza. O ser humano é muito mais que seu físico. Existimos em muitos corpos e muitos planos. Os exercícios de expansão da consciência, como os que você tem feito, têm a capacidade de nos pôr em contato com esses corpos e planos mais sutis. Nossa noção de impotência e de incapacidade de realizar coisas é apenas decorrência do desconhecimento que temos desses aspectos sutis de nós mesmos.

“Esse instrumento que você descobriu”, continuou Prestus, “é uma conquista fundamental para suas novas etapas de desenvolvimento. Você ganhou um guia permanente, que jamais a abandonará, e estará disponível a você 24 horas por dia, durante toda a sua vida… e certamente depois dela também. Basta que você não o abandone. Invoque-o sempre, em todos os momentos, e, com o tempo, ele assumirá uma consistência cada vez mais perceptível à sua consciência a ponto de você identificá-lo claramente, como contraponto de seu ego. O vigilante é uma entidade viva, que integra o todo do ser humano. É uma ponte que pode levar o ser a cruzar o fosso limitante, infestado de medos, tentações e egoísmos humanos, e conduzi-lo a um mundo de luz e abundância, que jamais coube na imaginação do homem comum. Você teve apenas um pequeno vislumbre disso, Patrícia.”

Patrícia estava atordoada com os ensinamentos do mestre. Percebia que não teria conseguido entender uma palavra, se ela mesma não tivesse vivido a experiência induzida por Prestus. Mas, agora, sua compreensão se ampliava e, embora nada tivesse mudado em sua vida, o Universo ganhava novas cores. Patrícia mudara de óculos. A visão turva do mundo, trazida até ela pelos acontecimentos infelizes em sua vida amorosa, pela insatisfação que sentia em sua atividade profissional, pelas dificuldades financeiras, pelas notícias escabrosas dos jornais, tornava-se agora mais límpida e luminosa. A ideia de planos superiores, a respeito dos quais sempre lera, tornava-se agora uma possibilidade real, que ela começava a experimentar. Planos onde os pequenos problemas da vida desaparecem diante da grandeza da presença da Luz, que, quando adequadamente sintonizada, pode banhar de Poder, Amor e Sabedoria nossa vida.

Neste dia a sessão continuou ainda por várias horas. Prestus queria aproveitar o momentum positivo que se apresentava. Patrícia perguntou a Prestus sobre o Amor que invadiu seu coração no final do exercício. “Como é possível que um sentimento de ódio seja repentinamente substituído por um sentimento de amor, apenas pela vigilância dos sentidos?”

“O ódio não existe, Patrícia. O Amor existe. Ódio não é o oposto do Amor. É a sua ausência. Assim como as trevas não são o oposto da Luz, mas a ausência de Luz. Se você fizer uma lista dos outros Atributos da Vida, além do Amor e da Luz, você continuará constatando que os aspectos negativos representam a ausência dos Atributos. O feio é a ausência do Belo; a infelicidade é a ausência da Felicidade; A ignorância e o medo são a ausência da Sabedoria. A impotência é a ausência do Poder. A doença é a ausência da Saúde, e assim por diante. Se os Atributos naturais, com os quais somos agraciados ao nascer, hoje não estão mais presentes, é porque nós os afastamos de nossa vida. Portanto, Patrícia, de nada vale lutar contra o ódio, as trevas, o feio, a infelicidade, a ignorância, a impotência ou a doença. Essas coisas representam apenas a ausência dos Atributos da Vida. O que temos que fazer é trazê-los de volta à nossa vida.

“Ao assumir o vigilante, você sintonizou o fluxo dos Atributos. Eles fluem ininterruptamente da Grande Fonte e se individualizam por meio do Eu interior de cada um, do qual o vigilante é um aspecto consciente. Se você está fora do eixo por onde fluem os Atributos do Eu por apego aos apelos do ego, eles não deixarão de se derramar sobre você, mas você não os sintonizará. É aí que os sintomas da ausência deles serão inevitavelmente sofridos. Com a consciência no vigilante, você sintoniza seu Eu interior e consequentemente abre seu coração ao fluxo dos Atributos. Assim, na sua experiência, não foi o ódio que saiu, foi o Amor, que, vindo de seu Eu interior, tendo como guia de sintonia o vigilante, atingiu seu coração. Patrícia, o coração é a sede do Amor. Mas, para que ele lá se instale, é preciso abrir-lhe as portas.”

Já em casa, viu um recado de Jorge na secretária eletrônica: “Querida, estou no hospital. Não se preocupe, é uma crise renal. Tive que operar. Ontem quando estava saindo de casa para me encontrar com você no restaurante, começou uma dor forte. Tive que voltar. Minha mãe ligou para o médico e ele providenciou a internação. Fiquei superpreocupado com você me esperando, mas seu celular dava caixa postal o tempo todo. Estou saindo hoje mesmo. Ligue para mim…”

Era o que faltava para Patrícia completar sua compreensão sobre a experiência que vivera. Felizmente, não fizera maior estrago. Jorge não soubera de sua raiva e da disposição de terminar sua relação com ele. Patrícia ouviu a mensagem e apenas riu. Já não tinha o que perdoar ou do que se arrepender. Já o havia perdoado antes, e o aprendizado por que passara, mais a tranquilidade com que agora encarava a falta de Jorge ao encontro, dispensava o arrependimento.

Ao mesmo tempo que agradecia pela experiência, que lhe rendera um avanço em seu processo de autodesenvolvimento, imaginava quanta irritação, mau humor e negatividade teria evitado se apenas tivesse aceitado a falta de Jorge ao encontro, naturalmente, sem censura prévia, sem basear seu julgamento em uma mera hipótese e sem desencadear em seguida, sobre si mesma, uma torrente de ódio e desespero. Pensou também que o problema da relação de Jorge com a mãe não deixava de existir, só porque, neste caso, ela não tivesse sido a causa da falta de Jorge ao encontro. Mas também reconheceu que o problema sempre existira e que ela aceitava Jorge, desde que o conhecera, apesar do problema. Não podia atribuir cada desencontro, cada desentendimento entre eles à relação de Jorge com a mãe.

Finalmente, com a cabeça organizada, ligou para Jorge. Com sua voz doce de mel, suave de brisa, derramou sobre ele toda a sua pureza e seu carinho: “Queria vê-lo, estar a seu lado… sinto não ter podido compartilhar sua dor no hospital… como está dona Pilar?”

Sobre o autor

Roberto Guelfi

Roberto Guelfi

Espiritualista, escritor, revisor literário, músico amador. Seu trabalho é divulgado na mídia digital e por meio de livros que propaguem a Luz.

De formação profissional na área de gestão de empresas e na área acadêmica, particularmente em finanças, desde muito jovem tem se lançado ao desafio de seguir o roteiro, imposto pela consciência de olhar para cima, para fora do sistema socioeconômico-cultural (a matrix), fazendo do desenvolvimento da consciência seu projeto de vida, o que só parece fazer sentido se compartilhado com quem quer que se coloque na trajetória dessa intenção.

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Livro: Ousar Saber