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Na minha época não era bullying, era “zoação”

Imagem de uma criança sozinha, segurando uma mochila escolar nas costas. A foto não mostra o rosto da criança.
SAC de sacphotography / Canva
Escrito por Giselli Duarte

Quando a crueldade é chamada de brincadeira, suas consequências podem permanecer por muitos anos. Reconhecer o bullying, acolher quem sofre e responsabilizar quem agride são passos essenciais para proteger a autoestima e construir relações mais respeitosas desde a infância.

Na época em que eu era pré-adolescente, não me lembro de ouvir a palavra bullying. Quando alguém humilhava outra pessoa, inventava apelidos ofensivos, ridicularizava sua aparência ou a perseguia repetidamente, a explicação costumava ser bastante simples: “Ah, eu só estou zoando”. E, com essa justificativa, comportamentos profundamente cruéis eram tratados como brincadeiras, enquanto quem sofria precisava aprender a conviver com aquilo.

Durante uma parte da minha pré-adolescência, morei em uma região de São Paulo onde descobri, pela primeira vez, que eu era considerada feia. Não havia chegado àquela conclusão olhando para o espelho. Foram outras pessoas que fizeram questão de me comunicar isso, repetidas vezes, de maneiras que ainda consigo recordar. Antes de morar naquele lugar, eu não havia vivido experiências semelhantes. Depois que saí de lá, também não voltei a enfrentar aquele tipo de perseguição. Foi um período delimitado da minha vida, embora suas consequências tenham ultrapassado, e muito, o tempo em que permaneci naquela região.

Uma das coisas que mais me chamavam a atenção naquele ambiente era a importância atribuída à aparência. Tratava-se de uma região com poder aquisitivo relativamente baixo, onde, pela minha experiência, havia uma preocupação intensa em avaliar e comentar as características físicas dos outros. Naturalmente, isso não descreve todas as pessoas que viviam ali, tampouco estabelece qualquer relação necessária entre condição econômica e comportamento. Estou falando do ambiente que encontrei e das experiências que tive com determinados grupos.

No condomínio onde eu morava, os meninos me ridicularizavam, inventavam apelidos horríveis e encontravam diferentes maneiras de me constranger. Na escola, a situação era praticamente a mesma. Algumas meninas não falavam comigo. Outras chegavam a me bater. Havia dias em que eu saía correndo para voltar para casa, com medo de ser agredida na saída. Eu não revidava, não discutia, não encontrava palavras para me defender. Eu tinha medo.

Às vezes, parecia que as pessoas dos dois ambientes haviam combinado como deveriam me tratar. Eu saía de um lugar onde era humilhada e encontrava, no outro, comportamentos semelhantes. A escola e o condomínio, que deveriam fazer parte da rotina de uma menina daquela idade, tornaram-se ambientes nos quais eu precisava estar constantemente preocupada com o que alguém poderia fazer ou dizer.

É difícil explicar o que acontece com a percepção que uma criança tem de si mesma quando passa a ser ridicularizada repetidamente. Nessa fase, ainda estamos construindo referências sobre nossa identidade, nosso corpo, nossas relações e o lugar que ocupamos entre outras pessoas. A opinião dos colegas pode adquirir uma importância desproporcional, especialmente quando não temos recursos emocionais para compreender que a crueldade de alguém não constitui uma descrição confiável de quem somos.

Eu não tinha essa compreensão naquela época.

Quando tantas pessoas insistem em apontar supostos defeitos na sua aparência, chega um momento em que você começa a se observar a partir dos olhos delas. Aquilo que inicialmente era uma ofensa passa a interferir na maneira como você se enxerga. Você começa a questionar características que antes sequer considerava problemáticas. Aprende a antecipar julgamentos, teme determinadas situações e desenvolve uma preocupação constante com a possibilidade de ser novamente rejeitada ou humilhada.

Foi assim que minha autoestima sofreu danos profundos.

E quando falo em autoestima, estou me referindo a algo muito maior do que gostar ou não da própria aparência. Estou falando da relação que desenvolvemos com nós mesmos, da confiança para estabelecer vínculos, da maneira como recebemos elogios, enfrentamos críticas e interpretamos a opinião de outras pessoas. Estou falando da dificuldade de reconhecer o próprio valor depois de passar anos ouvindo mensagens que apontavam justamente na direção contrária.

Durante muito tempo, precisei lidar com consequências emocionais daquelas experiências. Algumas questões foram sendo compreendidas e trabalhadas ao longo da vida. Outras ainda exigem atenção. Hoje, adulta, consigo identificar pensamentos e comportamentos que foram influenciados por aquele período, embora nem sempre seja simples impedir que antigas inseguranças reapareçam.

O mais impressionante é perceber que tudo aquilo aconteceu há tantos anos e ainda merece ser elaborado.

E as pessoas que fizeram aquilo comigo?

Imagem de uma criança sozinha, sentada em um banco de madeira, dentro do ambiente escolar.
Drazen Zigic / Getty Images Signature / Canva

Não sei como estão hoje. Imagino que tenham seguido suas vidas, estudado, trabalhado, construído relacionamentos, formado famílias. Não sei se lembram dos apelidos, das agressões ou das situações que provocaram. Também não sei se, em algum momento, compreenderam o impacto de seus comportamentos.

Há uma frase conhecida que diz que quem bate esquece, enquanto quem apanha se lembra. Embora não seja possível afirmar que isso aconteça em todas as situações, reconheço algo da minha experiência nessa ideia. Quem participa de uma humilhação pode guardar a lembrança de uma brincadeira passageira. Quem foi humilhado pode carregar por décadas as consequências daquele episódio.

O que dura alguns segundos para uma pessoa pode interferir durante anos na vida de outra.

É justamente por isso que me incomoda quando o bullying é tratado como uma experiência comum da infância, uma etapa inevitável do crescimento ou uma maneira de preparar crianças para as dificuldades da vida. O sofrimento provocado por humilhações repetidas não deveria ser considerado um exercício de amadurecimento. Crianças e adolescentes já enfrentam desafios suficientes enquanto desenvolvem sua identidade e aprendem a conviver socialmente.

Também precisamos abandonar a ideia de que a ausência de reação demonstra que a situação não é tão grave. Eu permanecia calada porque sentia medo. Outras crianças podem se calar por vergonha, por acreditar que ninguém irá ajudá-las, por receio de sofrer represálias ou porque ainda não conseguem compreender e comunicar o que estão vivendo.

O silêncio de uma criança não deveria ser interpretado como consentimento.

E há uma responsabilidade coletiva que frequentemente deixamos de discutir. O bullying não envolve apenas quem agride e quem sofre. Há pessoas que assistem, riem, incentivam, reproduzem apelidos ou simplesmente se afastam para evitar que a perseguição se volte contra elas. Há adultos que minimizam os acontecimentos e instituições que deixam de intervir adequadamente.

Quantas situações poderiam ser interrompidas se fossem reconhecidas desde o início? Quantas crianças poderiam receber ajuda antes que a humilhação começasse a comprometer sua relação consigo mesmas?

Hoje temos mais informações sobre o bullying, suas diferentes manifestações e suas possíveis consequências psicológicas. Sabemos que experiências repetidas de intimidação e violência entre pares podem estar associadas a ansiedade, depressão, isolamento social, dificuldades escolares e problemas de autoestima. Em situações graves, o sofrimento pode envolver riscos ainda maiores à saúde mental.

Conhecer essas consequências deveria modificar a maneira como respondemos quando alguém relata estar sendo perseguido ou humilhado.

Ainda assim, continuamos encontrando pessoas que relativizam essas experiências. Algumas afirmam que, antigamente, todos eram alvo de brincadeiras e ninguém ficava traumatizado. Outras acreditam que as crianças precisam aprender a se defender sozinhas. Há também quem responsabilize a vítima por ser sensível demais ou por não conseguir reagir.

Eu gostaria de perguntar a essas pessoas: como vocês sabem que ninguém ficou traumatizado? Quantas pessoas daquela época tiveram a oportunidade de contar o que viveram? Quantas permaneceram caladas, como eu permaneci durante tanto tempo?

O fato de alguém ter conseguido estudar, trabalhar, construir relacionamentos e seguir vivendo não permite concluir que determinadas experiências tenham sido emocionalmente inofensivas.

Uma pessoa pode desenvolver uma vida inteira enquanto continua lidando com marcas de acontecimentos antigos.

Durante muitos anos, poucas pessoas souberam o que aconteceu comigo. Não era um assunto que eu costumava compartilhar. Escrever sobre isso agora exige revisitar lembranças que pertencem a uma fase particularmente difícil da minha história, incluindo a sensação de vulnerabilidade de uma menina que tinha medo de voltar para casa depois da escola.

E, ao recordar aquela menina, penso também em quantas crianças estão vivendo situações semelhantes neste exato momento.

Quantas estão recebendo apelidos que detestam? Quantas têm medo de frequentar a escola? Quantas estão sendo excluídas de grupos, ridicularizadas pela aparência ou agredidas por colegas? Quantas chegam em casa e respondem que o dia foi normal porque não conseguem explicar aos pais o que aconteceu?

E quantos adultos ainda estão tentando compreender por que sentem tanta dificuldade para gostar de si mesmos?

A crueldade praticada durante a infância e a adolescência merece ser levada a sério, inclusive porque quem agride também está em processo de desenvolvimento e precisa ser responsabilizado, orientado e acompanhado. Não se trata de estabelecer que uma criança será eternamente definida pelo comportamento que apresentou aos doze ou treze anos. Trata-se de reconhecer que suas atitudes têm consequências e que a intervenção dos adultos é indispensável.

Imagem de uma criança sozinha, triste, com a cabeça baixa, sentada no chão do corredor de um ambiente escolar.
Getty Images / Canva

A responsabilidade pela prevenção também envolve famílias, escolas e comunidades. Crianças precisam aprender a reconhecer a violência, respeitar diferenças e compreender que o sofrimento de outra pessoa não deve servir de entretenimento. Precisam encontrar adultos dispostos a escutar seus relatos sem ridicularizá-los ou diminuir sua importância.

E nós, adultos, precisamos examinar os exemplos que oferecemos. Afinal, como exigir que crianças respeitem características físicas, diferenças e vulnerabilidades se convivem com pessoas que fazem comentários depreciativos sobre corpos, aparências e escolhas alheias?

A maneira como tratamos os outros também educa.

Hoje, quando olho para minha história, compreendo que as pessoas que me humilhavam não tinham autoridade para definir minha beleza, meu valor ou quem eu poderia me tornar. Essa compreensão, entretanto, foi construída ao longo de muitos anos. Não chegou a tempo de impedir que aquela menina sofresse.

E é por ela, e por tantas outras crianças e adolescentes, que considero importante falar sobre isso.

Se você passou por experiências semelhantes, sabe que algumas lembranças permanecem mesmo quando a vida segue. Se nunca passou, procure escutar quem passou antes de concluir que foi apenas uma brincadeira.

Eu gostaria que aquela menina tivesse encontrado mais pessoas dispostas a defendê-la. Que alguém tivesse interrompido os apelidos, questionado as agressões e explicado que ela não precisava aceitar aquilo como parte da convivência.

Não posso modificar o que aconteceu naquela época. Posso, hoje, contar minha história e participar de uma conversa que durante muito tempo foi evitada.

Porque, na minha época, chamavam de “zoação”.

E eu levei muitos anos para compreender a dimensão do que haviam feito comigo.

  • Giselli Duarte

    Giselli Duarte

    Fundadora da Terapeutas Digitais | Estrategista de Negócios
    [email protected][email protected][email protected](12) 99629-2906@giselliduarte_@app.terapeutas.digitaisgiselliduarte.comgiselliduarte.com/ensaios@nocaminhodoautoconhecimento@terapeutasdigitais@giselliduarte_1linkedin.com/in/giselliduartegiselliduarteeeeTerapeutasDigitais@Terap_Digitaisopen.spotify.com/show/1rpsi8CvX8mM6Fa1R3e2Hy?si=LCFtTezQQWSGWBo8HB3cJg&utm_source=whatsapp

    Giselli Duarte atua na interseção entre negócios, inovação, comportamento humano e comunicação estratégica, apoiando profissionais e empresas na construção de posicionamentos consistentes, no desenvolvimento de processos e na tomada de decisões relacionadas ao crescimento de seus negócios.

    É fundadora da Terapeutas Digitais®, empresa dedicada ao desenvolvimento de soluções para psicólogas e terapeutas. Ao longo dos anos, o projeto evoluiu e ampliou sua atuação, reunindo estratégia, comunicação, marketing, gestão, tecnologia, produtos digitais, mentorias, consultorias e outras soluções desenvolvidas especificamente para esse mercado.

    Também é fundadora da Prana Comunicação, marca por meio da qual atua com empresas de diferentes segmentos, integrando estratégia, comunicação, marketing e desenvolvimento comercial. O trabalho envolve áreas como posicionamento, planejamento, comunicação institucional, presença digital, produção de conteúdo, LinkedIn, e-mail marketing, prospecção B2B, materiais comerciais, sites e apoio ao desenvolvimento de novas oportunidades de negócio.

    Ao acompanhar empreendedoras ao longo dos anos, Giselli percebeu que determinados desafios de comunicação, vendas, posicionamento e gestão continuavam se repetindo mesmo após mudanças de estratégia. A partir dessa observação, criou o Método Origem, metodologia utilizada em suas mentorias, diagnósticos e projetos estratégicos para investigar o contexto em que determinados padrões, comportamentos e decisões foram construídos antes da definição de novas estratégias.

    Sua atuação parte da compreensão de que empresas são construídas por pessoas e que, por isso, determinados desafios empresariais também podem estar relacionados à forma como suas lideranças se comunicam, tomam decisões, estabelecem relações, respondem às mudanças e conduzem o próprio negócio. Essa perspectiva aproxima sua experiência em estratégia e gestão dos estudos desenvolvidos ao longo dos anos sobre comportamento humano.

    Giselli é formada em Marketing, possui MBA em Gestão Estratégica de Negócios e pós-graduações em Design Gráfico, Inteligência Artificial aplicada a Growth Marketing, Psicanálise Clínica, Inteligência Emocional e Constelação Familiar Sistêmica. Também possui extensão em Gestão de Projetos pela PUC-Rio e atualmente cursa Direito.

    Paralelamente à formação acadêmica e empresarial, desenvolveu uma extensa trajetória de estudos ligados ao desenvolvimento humano e às práticas integrativas. É formada em Hatha Yoga e Reiki Master e possui estudos e formações em meditação, atenção plena, técnicas de respiração, práticas contemplativas, Programação Neurolinguística (PNL) e outras abordagens integrativas. Já ministrou aulas de yoga e meditação e criou o projeto Pranayama, que reuniu yoga, meditação e surf.

    Ao longo de sua trajetória profissional, atuou em diferentes setores e contextos, passando por tecnologia, comunicação, marketing, área comercial, empreendedorismo, engenharia e startups. Essa diversidade de experiências contribuiu para uma visão multidisciplinar sobre gestão, posicionamento, inovação, comportamento, processos e desenvolvimento de negócios.

    Giselli também possui uma trajetória consolidada na escrita. É autora de quatro livros e coautora de sete obras, além de participar de outros projetos editoriais. Escreve para o portal Eu Sem Fronteiras desde 2016 e também publica artigos na Revista Statto. Sua produção aborda temas relacionados a comportamento humano, comunicação, empreendedorismo, espiritualidade, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.

    Também atua como instrutora de meditação nas plataformas internacionais Insight Timer e Aura Health, nas quais publica meditações guiadas, práticas de respiração e conteúdos relacionados à atenção, presença, yoga, autoconhecimento e desenvolvimento humano.

    Além da atuação empresarial, Giselli realiza mentorias voltadas a empreendedoras. Os acompanhamentos podem envolver estratégia, posicionamento, comunicação, marketing, vendas, gestão e questões relacionadas ao Método Origem, de acordo com o contexto, os objetivos e as necessidades de cada negócio.

    Também atua como mentora voluntária na Rede Mulher Empreendedora (RME), apoiando mulheres na análise de desafios relacionados à gestão, posicionamento e desenvolvimento de seus negócios.

    Sua trajetória reúne áreas que, à primeira vista, podem parecer distintas, como negócios, comunicação, tecnologia, comportamento humano, psicanálise, pensamento sistêmico, yoga, meditação e terapias integrativas. Em sua atuação, esses conhecimentos funcionam como diferentes perspectivas para compreender pessoas, empresas e os processos envolvidos na construção e no desenvolvimento de um negócio.

    Curso: Meditação para quem não sabe meditar Livros: Conheça meus livros Aplicativos: meditações guiadas disponíveis no Aura Health e Insight Timer