Autoconhecimento

Nossa caixa-preta

Thiane Avila
Escrito por Thiane Avila
E como faz quando a gente não esquece e quer de novo? Quando a vida dá mais uma daquelas rasteiras de surpresa, provando que temos muito pouco poder sobre tudo. Trata-se, quem sabe, de uma tentativa do universo de liquidar com a nossa arrogância e mostrar que ele é o senhor.

A dificuldade de não ceder, a vontade de não sentir. Todos os pretextos que sucumbem a alma têm como fonte os desejos nunca satisfeitos. As ansiedades nunca sanadas. Somos alegoria da terra e marionetes amantes de uma sátira cujo final todos desconhecem, cujo início é sempre uma relativização do improvável. Ponto de vista e só.

A vida, vez que outra, toca fundo nas preliminares e, quando nos põe à prova, acusa treinamento prévio. Não permite rascunho. A chance é única e a expectativa alarma. Não controlamos sequer um passo, mas, ainda assim, desenhamos o caminho. O sentimento, pois, é o fantoche mal-acabado de quem se nomeou a vitrine dos tempos, empoderando-se das sensações e fazendo promessas ao que não se cumpre. O tempo não se cumpre.

Os dementadores das ruas orquestram a risada triunfal por meio dos tropeços e das fantasias que criamos. A romantização das derrotas talvez seja a autoajuda da qual nunca conseguiremos nos desvencilhar, provando a nós mesmos o quanto a falha subjuga as batalhas. O quanto podem ser mortais as noites de vida inteira.

Ontem, ao despertar depois das três xícaras de café, criei vontades como ornamentos chulos de um roteiro feito em rascunho. Não há certeza sobre nada e, mesmo assim, as escritas à caneta parecem efervescer as apostas para o infinito. Ninguém entende o fim. Ninguém acredita na redenção – mesmo que a energia motriz para se seguir esteja na crença infantil sobre mais uma chance. E mais uma e outra mais.

Esse utilitário de despesas ainda dará o que falar. Essa presunção por confiança, enjaulada em conjunto com a melancolia sobre o nada, apenas traz à tona o entendimento destorcido que subjetiviza todas as resoluções prontas. Não existe nada em definitivo. Aprender a lidar com os nossos monstros está na caixa-preta de cada um. Não tentemos abri-la.

Sobre o autor

Thiane Avila

Thiane Avila

Com experiência na área da educação, Thiane já ministrou aulas particulares de Língua Inglesa e Portuguesa, bem como atuou em escolas de idiomas. Estudante de relações públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também cursa teatro e é colunista de uma Revista em sua cidade natal, Gravataí, além de colaborar com outras plataformas virtuais literárias.

A escrita já rendeu algumas premiações nacionais e participações em coletâneas. Os prêmios recebidos contemplam o 3º lugar no Concurso Literário Icozeiro (julho de 2014), o certificado de Qualidade Literária pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores (maio de 2015) e o reconhecimento pelo Conselho Editorial da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeira pela qualidade literária da obra selecionada para publicação nas edições de maio de 2015.

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Participação nas seguintes coletâneas: “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos” Volume 124 e “Poemas descalços na noite serena” – ambos pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.