Quando alguém começa a despertar para questões mais profundas, quase sempre escorrega. É um terreno novo, instável, e o ego não desaparece só porque a pessoa começou a meditar, ler filosofia ou falar sobre consciência.
Um dos primeiros escorregões é se achar mais desperto do que os outros. A pessoa muda algumas referências internas e, de repente, passa a olhar o mundo como se tivesse entendido algo que ninguém mais entendeu. Tudo vira superficial, atrasado, inconsciente. Amigos antigos parecem rasos. Conversas comuns passam a incomodar. Surge uma sensação de superioridade que começa a contaminar a forma de olhar para os outros.
Outro tropeço comum é a necessidade de convencer. Quem está nesse início costuma falar demais. Quer explicar sua nova visão de mundo, indicar livros, corrigir comportamentos, dar lição de presença e desapego para quem não pediu. A intenção pode até parecer boa, mas carrega uma ansiedade de validação. Se o outro não concorda, vira resistência. Se discorda, vira ignorância.
O julgamento aparece rápido, quem não medita está perdido, quem não questiona o ego está dormindo, quem vive diferente está errado. A realidade vira um grande teste de consciência onde só existe um jeito certo de viver. E, curiosamente, esse jeito quase sempre coincide com o jeito da própria pessoa.
Também existe a incoerência prática. De manhã, fala em paz, silêncio interior, amorosidade. À tarde, se envolve em conflitos desnecessários, cria tensão, reage com agressividade, alimenta fofoca, entra em disputa. A espiritualidade fica bonita nas palavras, mas não aparece no comportamento. Vai de mantra a confusão em minutos, de presença a reatividade sem perceber.
Esses escorregões não invalidam a busca de ninguém, fazem parte dela. O problema começa quando a pessoa não reconhece que está escorregando. Quando confunde despertar com estar pronto. Quando usa conceitos elevados para justificar atitudes pequenas, quando troca autoconhecimento por identidade espiritual.
Despertar não é se tornar alguém especial. Na maioria das vezes, é perceber o quanto ainda falta olhar, notar contradições, incoerências, impulsos antigos vestidos com palavras novas. É entender que a consciência não impede seus erros, apenas torna mais difícil fingir que eles não existem.
Quem realmente aprofunda começa a falar menos e observar mais. Aprende a conviver com diferenças sem precisar corrigir ninguém. Percebe que viver em coerência dá mais trabalho do que repetir ideias bonitas. E entende que humildade não é um conceito, é uma prática diária, consigo mesmo.
O despertar verdadeiro aproxima as pessoas, em vez de afastá-las. Não gera superioridade, gera responsabilidade. Não transforma ninguém em referência moral, torna a pessoa mais cuidadosa com o próprio impacto no mundo.
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O caminho começa a ficar mais honesto quando a pessoa percebe que ainda erra, ainda julga, ainda reage, e mesmo assim continua olhando para isso sem recorrer a conceitos para evitar o próprio comportamento.
Talvez esse seja um dos sinais mais claros de maturidade nesse processo. Quando a busca deixa de ser sobre parecer consciente e passa a ser sobre viver com mais lucidez, mesmo sendo imperfeito.
