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Por que algumas feridas antigas continuam influenciando decisões atuais?

Imagem de uma janela de ferro e vidro quebrado, trazendo como simbolismo os vestígios do passado.
Jannick Tessier / Getty Images / Canva
Escrito por Sandra Lebrão

Experiências vividas na infância e ao longo da vida podem continuar influenciando pensamentos, emoções e decisões sem que percebamos. Refletir sobre essas marcas é um caminho para compreender padrões repetitivos, ampliar a consciência e construir escolhas mais livres no presente.

Existe uma ideia muito difundida de que o passado fica para trás. Na prática, a experiência humana costuma funcionar de outro jeito. O que vivemos deixa marcas. Algumas se tornam lembranças conscientes. Outras passam a atuar de forma mais discreta, influenciando a maneira como interpretamos situações, construímos relações e fazemos escolhas.

Uma criança que cresceu ouvindo críticas frequentes pode chegar à vida adulta extremamente cuidadosa com a opinião dos outros. Nem sempre ela percebe a ligação entre uma coisa e outra. Ainda assim, pode passar anos evitando exposição, recusando oportunidades ou duvidando da própria capacidade.

Algo parecido acontece com quem viveu rejeições importantes. A experiência termina, o tempo passa, a vida segue. Mesmo assim, a pessoa pode continuar esperando abandono onde ele ainda não existe. Pode se afastar antes que alguém a deixe, evitar vínculos mais profundos ou desconfiar de demonstrações de afeto.

A psicanálise dedicou grande parte de sua história a compreender esse fenômeno. Sigmund Freud observou que experiências emocionais intensas não desaparecem simplesmente porque envelhecem. Muitas continuam presentes na forma de medos, comportamentos repetitivos e conflitos que parecem surgir sem explicação.

Carl Jung ampliou essa discussão ao mostrar que nem tudo o que nos move está acessível à consciência. Existem conteúdos que permanecem fora do campo da percepção imediata e que, ainda assim, participam das nossas decisões. Em muitos casos, a pessoa acredita estar escolhendo livremente, quando parte da escolha está sendo influenciada por experiências antigas que nunca foram suficientemente elaboradas.

Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas permanecem em relacionamentos que as fazem sofrer, repetem padrões familiares que juraram nunca reproduzir ou enfrentam dificuldades recorrentes em áreas específicas da vida. Não se trata de falta de inteligência, força de vontade ou maturidade. Existe uma lógica emocional por trás dessas repetições.

Outro aspecto importante é que a mente humana aprende por associação. Quando uma experiência provoca dor, humilhação, abandono ou medo, o cérebro tenta evitar que aquilo aconteça novamente. O problema é que esse mecanismo nem sempre distingue o passado do presente.

Uma mulher que foi constantemente desvalorizada durante a infância pode interpretar críticas construtivas como ataques pessoais. Um homem que cresceu em um ambiente imprevisível pode sentir necessidade de controlar tudo ao redor para reduzir a ansiedade. Em ambos os casos, existe uma tentativa de proteção construída há muito tempo.

Essas estratégias costumam funcionar em determinado momento da vida. O que antes ajudava a sobreviver pode acabar limitando o crescimento anos depois. A dificuldade está justamente em perceber quando uma defesa antiga continua ativa mesmo depois que as circunstâncias mudaram.

Imagem em tons de cinza de uma pessoa se abraçando, simbolizando o conceito de acolhimento interno, desvalorização pessoal.
Alexander Krivitskiy / Pexels / Canva

Por isso, compreender a própria história não tem relação com procurar culpados ou permanecer preso ao passado. O objetivo é reconhecer conexões que costumam passar despercebidas. Quanto mais consciência existe sobre essas influências, maior a possibilidade de fazer escolhas menos automáticas.

Muitas vezes, a pergunta mais importante não é “o que aconteceu comigo?”, e sim “de que maneira aquilo continua participando das minhas decisões hoje?”.

A resposta surge raramente de uma vez. Ela costuma aparecer aos poucos, nas relações, nos conflitos recorrentes, nas escolhas que se repetem e nas situações que despertam reações desproporcionais.

Conhecer a própria história não muda o que aconteceu. Muda a relação que temos com aquilo que aconteceu. E essa diferença pode alterar profundamente a forma como conduzimos a vida daqui para frente.

Sobre o autor

Sandra Lebrão

Desde cedo, me movi pela busca de sentido e pela vontade de compreender a alma humana. A maternidade me trouxe ainda mais sensibilidade, e os desafios da vida, incluindo separações e recomeços, ensinaram-me a força da escuta e da transformação interior.

Minha formação em Psicologia e minha prática no Yoga foram caminhos que se encontraram, dando forma ao meu trabalho: ajudar pessoas a reencontrarem o próprio centro, resgatarem sua força e viverem com mais clareza, leveza e presença.

Ao longo dos anos, construí uma trajetória que une ciência e espiritualidade, teoria e prática, sempre guiada pelo desejo de que cada pessoa possa se reconhecer em sua história e abrir espaço para novos capítulos. Hoje, meu trabalho é acompanhar quem deseja atravessar crises, acolher dores e redescobrir a alegria de viver, seja pelo consultório, pelo tapete de yoga ou pelas conexões que a vida nos oferece.

Acredito que cada encontro é uma oportunidade de transformação. É com essa convicção que sigo caminhando, pronta para acolher a sua história.

Meu propósito é estar ao lado de quem busca atravessar suas próprias crises, resgatar sua força e se abrir para novas possibilidades de viver. Sei, pela minha própria história, que sempre é tempo de recomeçar.

Se você chegou até aqui, saiba que este espaço é também para você. Para acolher sua história, sua dor, sua força e sua transformação.

FORMAÇÃO:

Professora de Ballet Clássico: Escola de Ballet “Manon Freire Giorgio”
Magistério: Instituto Coração de Jesus
Psicologia: UNIMESP – Universidade Metodista de São Paulo (SP)
Pós em Psicologia Clínica: Universidade São Marcos – SP
Especialização em Psicodrama: Potenciar – SP
Psicologia do Esporte: Instituto Ricardo Cozac – SP
Pós em Educação Infantil: USP – SP
Formação de professores em yoga: IEPY – SP
Yogaterapia: IEPY – SP
Yogaterapia Hormonal: Profa. Dinah Rodrigues – SP
Anatomia para o Yoga: UNIFESP – SP
Yoga, Educação e Saúde Integral: FAFE – SP
Curso de Especialização em Yoga Props: Profa. Samira Kohn

Ballet Clássico: Despertou a consciência corporal e a determinação em sempre buscar a melhor "forma". A estética que se constrói.

Magistério: A arte de transmitir conhecimento com método e planejamento.

Psicologia: O manejo do inconsciente que se manifesta no real. "Me fez livre para a escuta e compreensão"