Convivendo

Positividade tóxica – porque NÃO somos todos um

Homem pensativo apoiado em superfície de madeira.
Sasa Mihajlovic / 123RF
Escrito por Dulcineia Santos

Sob um certo ponto de vista, sim, estamos todos interligados — é o que o budismo chama de interdependência: viemos da mesma fonte e tudo que eu faço afeta você, uma pessoa lá na China, por exemplo, e o todo.

Por outro lado, o pensamento de que somos todos um pode trazer um grande problema: a relativização do sofrimento. Aqui vão algumas formas de como isso se mostra:

Spiritual bypassing

A expressão spiritual bypassing é traduzida por alguns como “passar pano espiritual”. Essa expressão foi cunhada pelo professor budista John Welwood e refere-se à “tendência a usar ideas e práticas espirituais para se esquivar ou evitar encarar problemas emocionais não resolvidos, feridas psicológicas e tarefas não concluídas”.

Trazendo para o nosso assunto, usar a espiritualidade para deixar de encarar aquilo que não está resolvido em nós: nossa própria intolerância, racismo, homofobia ou seja lá o que nos faça entender “diferentes” do outro. Quando dizemos: “somos todos um”, vamos pelo caminho mais fácil: se somos iguais, não preciso olhar para o outro. E nem para dentro de mim.

Não ver o problema

Quando você acha que somos todos iguais, não vê que as desigualdades existem, e elas são muitas!

O pessoal d´Olugar deu um exemplo muito interessante, referindo-se à pandemia, mas que é uma boa metáfora para a vida: “Não estamos todos no mesmo barco. Estamos, no máximo, no mesmo mar — alguns de canoa, outros de iate, uns com o barco cheio de comida, outros nadando com fome”.

A pessoa cujos pais estudaram e que vai para a faculdade de carro não pode ser comparada ao garoto que usa a luz do poste da rua para estudar. A pessoa que sai para trabalhar e deixa seus filhos com a empregada não pode ser comparada à mãe que dorme no trabalho e quase não está presente para dar amor e educar os seus.

Se eu consegui, você também consegue

Relativizar o sofrimento alheio porque você também já sofreu ou porque você também teve que lutar pelo que teve leva a injustiças, e pior: leva à não correção daquelas que já aconteceram e que ainda afetam, no presente, várias classes de pessoas.

É deste tipo de pensamento que surgem pessoas contra medidas reparadores, como as cotas. As cotas representam uma reparação de uma injustiça histórica. Se você acha que todos deviam ter o mesmo tratamento, vai se colocar contra o levantamento de bandeiras de esclarecimento e correção como essa.

Julgamento

Achar que é só a pessoa se esforçar mais, estudar mais, se espiritualizar mais, pensar mais positivamente e trabalhar mais duramente não é você sendo mais iluminado — é o seu ego ganhando força e fazendo o que ele mais gosta: julgar os outros.

Mão segura em malhete. Conceito de justiça.
EKATERINA BOLOVTSOVA / Pexels

A mesma coisa sobre relativizar a dor alheia: achar que é mimimi, que não foi tão mal assim, que era só uma brincadeira, que não precisa militar ou levantar bandeira. Lembre-se: “Mimimi é a dor que não dói na gente.”

Não se ver como parte do problema

Aquela pessoa racista ou homofóbica extremista e que aponta armas para as pessoas na rua, que ataca homossexuais é a exceção. A intolerância de cada dia vem de pessoas que não se entendem como parte do problema. A pessoa que pergunta: “Você trabalha aqui?” para uma cliente negra numa loja, o homem que continua fazendo piadinha com mulher e com gays, a pessoa que faz blackface em pleno 2021.

Enquanto não entender que todos nós contribuímos para a intolerância no mundo de alguma forma, não vou fazer nada para mudar isto, afinal não é culpa minha.

Não se ver como parte da solução

Depois de se entender como parte do problema, o próximo passo é ter a consciência do que você pode fazer para ajudar. Isso passa por se informar, apoiar medidas corretivas, cuidar da sua linguagem no trato com os outros, apoiar o trabalho das minorias, fazer contribuições de tempo, de energia, de dinheiro, de escuta e do que mais você puder para diminuir as diferenças.

Não adianta esperar que o outro (o governo, as associações, os oprimidos) faça algo: enxergue-se como parte da solução. Pergunte o que você pode fazer.

Nossa maior tarefa, no entanto, é desenvolver compaixão. Compaixão é o desejo de que todos os seres fiquem livres do sofrimento e das causas do sofrimento. É isso que vai fazer com que você se enxergue e se mova em busca da igualdade de todos os seres.

Sobre o autor

Dulcineia Santos

Dulcinéia Santos é terapeuta multidimensional, life coach e praticante certificada das ferramentas MBTI® de tipos psicológicos e Barras de Access®. É também autora do livro: “A Namorada do Dom”, em que conta sobre as lições que aprendeu nos relacionamentos e sua jornada até a Suíça.

Acredita que a vida é cheia de lições, e que se não as aprendemos não passamos pro próximo nível do jogo. Saiu de casa cedo e foi morar no mundo – agora está na Suíça, onde estudou antroposofia por três anos. Gosta de tomar cerveja no boteco enquanto papeia, de aconselhar, da língua portuguesa, de cozinhar, de ficar só e de flexibilidade de horários. É esotérica, mas acha que estamos encarnados para viver as experiências terrenas com o pé no chão – de preferência dançando.

Formações:
Brain Based Coaching Certification
NeuroLeadership Group - Londres

MBTI® - Myers-Briggs Type Indicator - Step I and Step II
Myers-Briggs Foundation - Florida, USA

Antroposofia
Goetheanum - Dornach, Suíça

Terapia Multidimensional
Genebra - Suíça

Access Bars®
Nyon - Suíça

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