Por que tantos terapeutas parecem ter uma vida perfeita nas redes sociais, enquanto, longe das câmeras, enfrentam dificuldades parecidas com as de qualquer outra pessoa?
Essa pergunta costuma gerar desconforto porque toca em uma expectativa muito presente no imaginário coletivo. Muitas pessoas acreditam que quem trabalha ajudando os outros deveria ter resolvido todas as próprias questões. Como se estudar comportamento humano, emoções ou desenvolvimento pessoal eliminasse automaticamente os desafios da vida.
A realidade é bem diferente.
O terapeuta não deixa de ser humano quando termina um atendimento. Continua tendo contas para pagar, relacionamentos para administrar, inseguranças, conflitos familiares, dias difíceis e momentos de dúvida. Continua enfrentando as mesmas incertezas que qualquer pessoa enfrenta.
O problema começa quando as redes sociais entram em cena.
As plataformas digitais recompensam imagens organizadas, frases inspiradoras e narrativas de sucesso. Pouca gente publica as noites mal dormidas, os conflitos internos, os erros cometidos ou os momentos de fragilidade. O que aparece é uma versão editada da vida.
Com o tempo, alguns profissionais começam a acreditar que também precisam sustentar essa imagem. Passam a sentir que precisam parecer equilibrados o tempo todo. Precisam parecer confiantes o tempo todo. Precisam parecer realizados o tempo todo.
Sem perceber, criam uma distância entre a pessoa e o personagem.
Quanto maior essa distância, maior o desgaste.
Existe um fenômeno curioso nesse processo. Muitas vezes, o terapeuta que mais fala sobre equilíbrio está vivendo um período de exaustão. Aquele que publica mensagens sobre autocuidado pode estar negligenciando o próprio descanso. Aquele que ensina sobre limites pode ter dificuldade em colocá-los na própria vida.
Isso não acontece necessariamente por hipocrisia.
Acontece porque conhecimento não elimina automaticamente comportamentos, emoções ou padrões pessoais. Saber algo e conseguir viver esse algo são coisas diferentes.
Nenhum terapeuta está fora da condição humana.
Aliás, muitos entraram nessa profissão justamente porque conheceram de perto o sofrimento, os conflitos internos ou as próprias dificuldades. O contato com a dor costuma despertar interesse pela compreensão da mente, das emoções e dos relacionamentos.
Existe também outro fator pouco discutido. Muitos profissionais passam tantas horas cuidando das questões dos outros que acabam deixando as próprias questões para depois. Escutam, acolhem, orientam e acompanham processos diariamente. Quando percebem, estão emocionalmente cansados e sem energia para olhar para si mesmos com a mesma dedicação.
As redes sociais raramente mostram isso.
Mostram a frase bonita, a foto sorrindo, o curso concluído, a viagem, o resultado.
O que fica de fora são os bastidores.
E é justamente nos bastidores que a vida acontece.
Talvez o problema não esteja no fato de um terapeuta ter dificuldades. O problema está na crença de que ele não deveria tê-las.
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Um bom terapeuta não é alguém que alcançou uma versão perfeita de si mesmo. É alguém disposto a continuar se observando, aprendendo e reconhecendo suas próprias limitações.
A perfeição nunca foi um requisito para ajudar alguém.
A honestidade consigo mesmo, sim.
Porque quando o personagem ocupa todo o cenário, o ser humano desaparece. E quando o ser humano desaparece, aquilo que torna o trabalho terapêutico genuíno também começa a desaparecer junto.
