Convivendo

Quatrodianos

Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo
Qualquer segundo perto do atraso. Linha verde, pessoas e os seus passos apressados e apertados. Rostos inexpressivos e olhares fechados. Afobados ao subir e descer as escadas da estação. Entretidos em seus smartphones. Em suas mentes. Alvoroçados na estação do metrô.

Corro desesperadamente o movimento dos meus olhos para o relógio, percebo que eu só tenho apenas quinze minutos para chegar ao meu destino e nada além dos quinze milésimos minutos. Fecho os meus olhos e inspiro o ar vagarosamente.

Volto a minha atenção à plataforma de embarque e entro no metrô. À minha direita, ouço a voz de dois homens conversando sobre a questão econômica do nosso país, renitentes com a crise e angustiados com o ritmo acelerado de seus trabalhos.

À minha esquerda, observo um grupo de mulheres dialogando sobre emagrecimento, problemas no casamento, declínios de todos os tipos possíveis e uma tremenda baixa autoestima, aparentemente tristes.

Fecho os olhos, expiro e inspiro por um segundo. Ouço vozes. Volto ao meu foco e checo rapidinho o relógio – me restam apenas dez minutos. Corro os meus olhos para a minha frente e vejo um senhor sentado no banco, analiso-o firmemente e tenho a impressão de que ele estava perdidão em alguma galáxia por aí – só não consegui descobrir qual. Peregrino em uma nuvem de emaranhados que formam na minha frente e cogito em olhar o relógio novamente.

Cinco minu… Uma criança encosta a mão sobre o meu braço e me questiona qual a estação mais próxima ao desembarque do lugar x. Olho-a atentamente e respondo-a que a mais próxima do destino x é a estação y. A criança, então, agradece a informação e começa a desenrolar um diálogo comigo no metrô. Distraio por um segundo e me encontro perdida no emaranhado de informações que rodeiam pela minha cabeça e, novamente, percebo o quanto a vida é simples.

Nós quem a complicamos – com os nossos anseios, com os nossos passos apertados pela vida. Com os nossos medos de perdermos a direção, os nossos olhares desconfiados, as nossas caras fechadas, os nossos receios em tropeçarmos nas nossas desilusões e a nossa eterna fuga em nos afogarmos as estranhas no smartphone.

Tristezas viajantes que criamos por estarmos em determinado ciclo mutante e por vezes, não aceitarmos. Nossas descrenças com a nossa vida. Nosso desespero em vigiarmos o outro e camuflarmos o que nós verdadeiramente somos. Flutuantes. Nunca presentes.

Incessante movimento em averiguar o relógio. Desapercebermos-nos com os diferentes tipos de pessoas que cruzam o nosso caminho cotidianamente entre as nossas linhas tênues da vida por entre esses quatros cantos do mundo. E a nossa tenaz ausência de acréscimo em compartilhar uma notícia boa, um sorriso, uma gentileza, ou seja lá o que for de bom, na vida de um desconhecido que cruza o nosso caminho. E, eu até diria que em, talvez, nos dispusermos uns cinco minutos do nosso dia a dia.

Cinco minutos. Apenas. E quando eu levanto o braço para verificar o relógio, o metrô anuncia e eu chego ao desembarque do meu destino.


Notas

Alvoroçados: Agitado ou inquieto.

Vagarosamente: Devagar.

Renitente: Inconformado.

Peregrinar: Viajar.

Incessante: Contínuo.

Tenaz: Constante.

Dispusermos: Arranjarmos.

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Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

Prazer, Jéssica Sojo. Curiosa por entre os quatros cantos do mundo e sempre acompanhada do chá, do papel, do lápis e da internet – dos livros, dos filmes, das séries e por entre a Língua Brasileira de Sinais, a Linguística, e temas voltados à área da Medicina.

Dias desses desenrolei a escrever e cá estou, no Eu Sem Fronteiras, procurando compartilhar um pouquinho do meu conhecimento com temas relacionados a área da medicina, do budismo, do veganismo, do yoga, espiritualidade, etc; com você leitor (a), aí do outro lado, de maneira que possamos convivermos de forma mais harmoniosa possível contribuindo um com o outro, nos tornando nó, um só laço.

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