Autoconhecimento Comportamento

Quem controla a vida? Uma conversa sobre estresse, fobias e ansiedade

Garota deitada em grama com flores roxas sobre seu corpo de cabelo solto

Nestes dias, em meio a um grupo de adolescentes, joguei um divertido jogo de tabuleiro. Nele, cada participante traçava metas para a vida com relação a trabalho, rendimentos e família e desenhava estratégias para alcançá-las. Contudo, avançava-se conforme a sorte nos dados: ao cair na casa X o jogador era contemplado com uma herança, por sua vez, na casa Y perdia tudo e deveria recomeçar o circuito. Fiquei pensando que esses jogos são bons exercícios para a vida, pois na nossa jornada podemos estabelecer metas, trabalhar para alcançá-las, mas existe um quinhão de sorte que pertence ao destino.

Menina vista de frente com rosto tremido olhos fechados e cabelo solto com árvores de fundo e céu claro

Muitos adultos se deparam com dificuldades para lidar com o que a vida lhes coloca, principalmente quando se trata de aceitar que as coisas não ocorrem tal como se deseja. Projetou-se um final de semana romântico na praia, choveu, houve briga com o/a parceiro/a, enfim. O sujeito passou o final de semana estudando, mesmo assim na segunda, foi mal na prova ou quem ganhou a promoção no trabalho foi seu colega e não você. E, particularmente, na seara dos relacionamentos, torna-se difícil aceitar que o outro pode ter razão ou mesmo outra opinião, que você gosta de um rapaz/moça, mas ele/a não está a fim de você, ou meu parceiro/a pode fazer as coisas do jeito que ele/a quer.

Não poucos ficam irados, não suportando, detonam, mas outros tantos passam a vida procurando evitar que algo escape ao controle, antecipando as possibilidades, ficam prevendo o que pode dar errado; não raro, esta antecipação torna-se uma ansiedade que paralisa. Por exemplo, um sujeito pode presumir “não vale a pena estudar, porque irei mal na prova, mesmo”, “não vou casar, porque todo casamento termina em divórcio”, no limite, “não vou sair de casa, porque alguma coisa ruim pode acontecer”.

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Outro tipo de pessoas tenta se prevenir para fugir do imprevisto, daí ingressam na exaustiva tarefa de planejar a vida. Planeja-se toda a rotina diária, sem deixar espaço para o inesperado, mas junto com isso, nada se delega, “deixa que eu lavo a louça”, “deixa que eu arrumo a cama”; este “deixa que eu faço” ocorre porque o outro “não vai fazer as coisas do jeito que eu gosto”. Esta centralização pode ser confortável para quem está próximo, contudo, ela esconde uma falta de confiança e a rigidez do sujeito em questão. Há muitas pessoas com transtornos de ansiedade em diferentes graus em sofrimento porque não temos a vida sob controle.

Mulher em campo com plantas secas usando chapéu e braços abertos e cabelo solto

Essa necessidade de controle leva o indivíduo a viver sob permanente estresse e, tal como uma panela sob pressão, o sujeito pode, certo dia, explodir e irromper o descontrole em um episódio de pânico, por exemplo, ou desenvolver alguma doença (no corpo mesmo).

Muitos chegam ao consultório quando a vida fica paralisada, às vezes, a pessoa já não consegue mais sair de casa, porque algo pode acontecer, mas as práticas de controle obsessivo também trazem sofrimento para o indivíduo e para aqueles que com ele convivem.

O controle, certamente se revela uma tarefa inadequada para lidar com a nossa insegurança com relação à vida, uma insegurança própria do viver, pois somos seres vulneráveis, podemos adoecer, nos machucar e, sem dúvida, vamos morrer. Aceitar que nada está garantido é uma difícil lição para o sujeito. Além disso, em um mundo que cobra força, segurança e rendimento, a vulnerabilidade é percebida como uma fraqueza e na tentativa de aplacá-la, emerge o recurso da busca de escandir o espaço e dominar toda a situação.

É da vida não termos segurança e precisarmos lidar com isso para continuarmos a bem viver.
 O sentimento de segurança precisa ser construído internamente para a pessoa se perceber com recursos para enfrentar o que vier e não depender permanentemente do script previamente desenhado, porque até nos jogos de tabuleiro, um tanto da sorte depende dos dados.

PS: Vale a pena também dar uma passadinha em um profissional da psi, ele existe não só para os loucos, mas para ajudar a lidar com a loucura das exigências do cotidiano e porque a vida, certamente, pode ficar mais suave.


Você pode se interessar por outro texto da mesma autora. Acesse: Uma reverência à dança do universo

Sobre o autor

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Verónica Aravena Cortes

Psicóloga (Terapia infantil, adultos e familiar, orientação e aconselhamento aos pais).

Graduação em Filosofia/USP e em Jornalismo pela Cásper Líbero, doutorado em Sociologia /USP e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo.

Trabalhou como professora na Universidade Metodista de São Paulo nos cursos de Psicologia, Jornalismo, Ciências Sociais e Filosofia (1998-2018).

Organizou o livro "Chilena tu eres parte no te quedes aparte".

Edita o blog Saber Plural - Psicologia e afins para mentes curiosas.

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