Convivendo

Setembro Amarelo: florescer para não sucumbir

Fundo branco, fita amarela, legenda escrito conscientização do suicídio, com dois dedos cruzados com carinhas sorridentes nas pontas
Alex Gabriel
Escrito por Alex Gabriel
Com setembro vem a primavera, sendo talvez essa a razão pela qual o mês nove foi escolhido como o mês de prevenção ao suicídio e, por conseguinte, o mês de preservação da vida. O chamado Setembro Amarelo começou, mas, como nem tudo são flores – apesar da estação que se aproxima –, foi justamente no sábado que lhe marcou o início, ao sair do trabalho no fim da tarde, que vi um corpo estirado na Av. Augusto de Lima, felizmente já coberto, sob os olhares de militares e curiosos.

Fita amarela em cima de uma mesa preta

Foi então que eu, que em tantos momentos da vida cheguei a romantizar o suicídio, vi-me refletindo sobre o quão dolorosa essa fatal “solução” é para a pessoa, para os seus familiares, amigos e até para os estranhos que, como eu, acabam por presenciar sua última ação.

Desconheço o que perturbava a pessoa que se atirou da janela naquela tarde lá no Barro Preto; ignoro a sua idade, cor e gênero tanto quanto ignoro as suas reflexões decisivas. E, mesmo na minha ignorância, fico a me perguntar se teria essa pessoa apelado para todas as alternativas disponíveis. Teria ela tentado tanto quanto podia? Teriam os seus familiares e pessoas que com ela conviviam percebido que algo lhe afligia ao ponto de ela considerar dar cabo da própria vida?

É por isso que a gente nunca deve diminuir ou mesmo subestimar a dor dos que nos rodeiam, ainda que ela nos pareça inconcebível ou motivada por questões de pouca importância para nós. O outro é sempre um mundo à parte, o que nos incumbe de, pautados na ideia de convivência amorosa e fraterna, o acolhermos com toda a sua bagagem, o que inclui suas aflições e formas de enxergar o mundo. Vale, sobretudo, estarmos atentos aos seus sinais.

Setembro Amarelo

Se a vida lhe está pesando em demasiado, saiba que você ainda não tentou tudo o que podia,
 havendo à sua disposição uma gama de alternativas às quais recorrer para se salvar da dor causada pelos sobressaltos comuns à existência humana. O mais desafortunado dos sofredores guarda no seu íntimo todo o potencial necessário à própria libertação.

Mas, misericordioso como é o Criador, Ele está sempre a lhe colocar no caminho pessoas e situações que muito podem auxiliar para o despertar desse potencial, sendo um deles o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito que pode oferecer apoio tanto por telefone (188) como via e-mail e pessoalmente. Dá um pulinho no site do CVV (https://www.cvv.org.br/) pra saber mais sobre o serviço!

Existem também clínicas sociais de psicoterapia, bem como atendimento terapêutico gratuito ou a custos solidários em universidades e igrejas. Os medicamentos psiquiátricos são também uma possibilidade, apresentando-se como uma benção nas situações em que não conseguimos nos salvar por nós mesmos. Não é vergonha apelar para os medicamentos, mas, dada a quantidade considerável de profissionais que os administram irresponsavelmente, devemos ser nós, os pacientes, a nos analisarmos com cautela antes de considerar a consulta psiquiátrica. Os medicamentos aliviam os sintomas, como se anestesiassem a dor, mas não tratam a causa. Eles apenas nos desanuviam a visão, nos possibilitam pensar com clareza, nos dão o bem-estar necessário à busca da solução – a cura – para aquilo que nos adoece. Qualquer bom psiquiatra vai nos orientar nesse sentido. Antes, porém, um bom psicólogo vai nos orientar quanto à viabilidade de recorrer ao tratamento, bem como nos encaminhará a um bom psiquiatra, se for o caso.

E, por falar em igrejas, a espiritualidade – não importando qual seja a sua crença – é sempre uma alternativa a qual recorrer, seja por meio da confissão com o padre, da conversa com o pastor, do atendimento fraterno na casa espírita ou do atendimento espiritual no terreiro de umbanda. Pouco importa. Importa apenas que você encontre apoio naquele contexto, sendo suficientemente sábio para se retirar do mesmo se perceber que, em lugar de lhe oferecer apoio, aquele ambiente só contribui para lhe chafurdar ainda mais na amargura (às vezes acontece). Nesse mesmo contexto, vale mencionar ainda as terapias alternativas como Reiki, ThetaHealing, Magnified Healing, Deeksha, Johrei, terapia tântrica e afins. Os núcleos dedicados a essas terapias, ditas holísticas, geralmente oferecem atendimentos um tanto dispendiosos. Comumente, porém, dispõem de atendimentos solidários em datas pré-estabelecidas. As terapias alternativas são complementares aos tratamentos convencionais, ditos alopáticos, mas não são raros os casos em que a cura se dá exclusivamente por meio deles.

Para quem gosta de ler, livros de autoajuda são também uma boa alternativa. Embora sejam muitos os pseudointelectuais a subestimar esse tipo de literatura, a grande verdade é que esses livros, em sua maioria, são frutos de experiências pessoais de indivíduos que, mergulhados na dor pelas perdas afetivas, financeiras, profissionais e afins, se reinventaram, se reergueram e se salvaram. Parece-me louvável esse tipo de leitura, pois converte os erros e acertos alheios em uma grande lição para nós.

Há também ajustes simples que, se aplicados à rotina, influem positivamente em nosso organismo e em nosso cérebro, tais como adesão a uma alimentação mais saudável, rica em frutas, verduras e legumes; a dedicação de mais horas ao sono e a realização de exercícios físicos para quem ainda consegue se movimentar, pois sei que, em determinados estágios da depressão, até movimentar-se é algo árduo e doloroso. Vale, no entanto, saber que uma simples caminhada leva o cérebro a liberar dopamina e serotonina, dando-nos maior disposição e bem-estar.

Enfim, são muitas as alternativas às quais apelar como forma de escaparmos da dor que, de tão profunda, nos torna reféns de nossa mente, levando-nos ao desejo de tirar a própria vida. É mister, no entanto, que nos recusemos a ceder às investidas desse inimigo invisível, saindo do lugar de vítimas e assumindo a posição de bravos combatentes que somos. E o bom combatente sabe que pode e deve contar com os seus companheiros de batalha a fim de vencer a guerra que, no final das contas, está dentro de nós mesmos.

Setembro Amarelo

Não desista. Procure ajuda.


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Sobre o autor

Alex Gabriel

Alex Gabriel

Mineiro de Belo Horizonte, Alex Gabriel é graduado em Letras e especialista em Revisão de Textos pela PUC Minas. É poeta, pai adotivo das vira-latas Diva e Nathalie, tem sempre um bom livro a tiracolo, acredita na Educação e vive cheio de fé na humanidade.

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