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Sobre corpo, sobre Terra

Homem sentado de olhos fechados no meio de um campo, meditando
Spencer Selover / Pexels / Canva
Escrito por Priscilla Herrerias

Sempre me chamou a atenção como nossa linguagem tende a nos separar do corpo. Nosso discurso e o modo como articulamos nossas ideias sobre o corpo muitas vezes afasta-o de nós mesmos, tornando-o objeto.

“Meu corpo”, “meu pé”, “meu estômago”… Quando escuto ou quando eu mesma digo essas expressões, ”imediatamente me pergunto: Quem possui? Quem é o dono?

E sinto como se a cabeça, a mente ou o ser racional tivesse uma relação hierárquica de posse, comando, autoridade sobre essa entidade biológica de músculos, ossos, órgãos, ribossomos, plasma.

Dessa forma, esquecemo-nos, frequentemente, de que essa entidade biológica mesma é o próprio trono do mistério.

Acredito que nós não temos um corpo, nós somos o corpo. Não tenho um pulmão, um coração, um calcanhar; sou pulmão, coração, calcanhar.

Também não acredito que o corpo seja somente o veículo do sagrado; sinto que o corpo é o próprio sagrado feito matéria, é milagre vivo.

Mulher de costas para a câmera com a cabeça apoiada em seu próprio ombro
Automnenoble Bogomolov / Pexels / Canva

Sangue, cálcio, vísceras, calcanhares e tantas outras coisas animadas pelo sopro divino nos completam, por isso me pergunto: O que pode ser mais espiritual do que o simples ato de respirar, de estar vivo em um corpo? Um corpo que não é possuído, mas um corpo que simplesmente é.

Sendo assim, sinto que o modo como nos relacionamos com o corpo diz muito de nossa relação com a própria Terra. O corpo humano está intimamente ligado ao corpo da Terra. Ambos são corpos casas. A atitude de “possuir” um corpo se transfere para a atitude devastadora com a qual se explora o planeta. A desconexão do próprio corpo é um espelho da desconexão com a natureza.

Quanto conhecemos do próprio corpo? O quanto ignoramos seus chamados, abusando de analgésicos, ansiolíticos e outros para dar conta de viver em uma sociedade cada vez mais veloz, mais “produtiva” e absolutamente mais injusta?

Da mesma maneira, “possuir” a Terra se traduz na exploração cruel de seus recursos, contaminando-a, ignorando-a, na ingênua crença de ser “superior” a ela. O abuso do corpo e da natureza provém da mesma mentalidade. O desconhecimento de um e de outro é o mesmo e essa fantasia equivocada nos trouxe até aqui. Ao incluir nisso pandemia e câmbios climáticos, a natureza obviamente nos chama para a consciência e para a tomada de responsabilidade.

Respiro.

Menina de olhos fechados, respirando
Cometary / Getty Images Signature / Canva

Sigo acreditando que há esperança, como me ensina o mito de Pandora, ainda que ela esteja no fundo da caixa, na corda bamba, de sombrinha, como me diz a canção.

Porque, no fundo, sei que a humanidade pode acordar e mudar o paradigma de ter um corpo para ser um corpo, de dominar a Terra para participar na dança da vida da qual inevitavelmente fazemos parte. Abandonar o produzir doentio para cuidar de si e do outro no aqui agora.

Esse é o convite que sinto estar sendo feito.

Sair da mente e habitar verdadeiramente e amorosamente o corpo. Habitar amorosamente a Terra.

Respiro. Também sou diafragma.

Hoje, alguém me disse que um pequeno gesto de cuidado para consigo mesmo é um gesto de cuidado para com o todo.

Achei bonito e importante. Também sinto o mesmo. É tempo de acolher delicadezas e compreender suas potências.

E essa grande força delicada que é o corpo pode ser nosso grande mestre.

Há tanto para se descobrir com ele, tantas novas paisagens por onde podemos caminhar… Há tantas inteligências diferentes que podemos acessar… e se somarmos à inteligência da cabeça, por exemplo, a inteligência das mãos, do ventre e a inteligência do coração? Como é viver pela inteligência do coração?

Esse é um caminho que me interessa e sei que não estou sozinha, porque percebo que essa inteligência pode nos ensinar uma nova maneira de estar no mundo. Uma inteligência que já está em nós. Que somos nós.

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Uma nova maneira de estar no mundo em que somos corpo e somos Terra, em que falemos mais baixo para não afastarmos os pássaros.

Um mundo novo feito de uma nova maneira de habitá-lo. Se fecho os olhos e percebo a respiração e se sinto os pés no chão, posso imaginá-lo, você também pode, querido leitor, querida leitora?

Ainda que não o vejamos nessa vida, podemos saber com a certeza do osso que ele já está a caminho e, na inteligência de sua hora, vai chegar. Obrigada, querido leitor, querida leitora, por chegar até aqui. Obrigada por estarmos juntos.

Priscilla Herrerias

Sobre o autor

Priscilla Herrerias

Sou formada em artes cênicas, pesquisadora das artes do corpo e do movimento. Seguindo esse caminho, comecei a me aproximar das terapias corporais. Sou formada em Myofascial Energetic Release (Liberação Miofascial Energética), uma terapia de toque profundo e consciente, pelo criador da técnica, Satyarthi Peloquin. Atualmente atendo em São Paulo, na Vila Mariana.

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