Autoconhecimento Comportamento

Uma reverência à dança do universo

Flor circundada por sombras de humanos dançando

Porque a mente quer descobrir, por meio do uso da razão, o que existe no longínquo e infinito espaço, longe dos problemas desse mundo – aquela região onde o intelecto sonha em penetrar onde a mente livre estende seu voo em direção ao desconhecido (Lucrécio 96-55 a.C.).

Imensidão fascinante, elegância misteriosa, suprema harmonia. Mistério.

Se nos permitimos a quietude de apenas contemplar o céu e as estrelas em noites sem luar, podemos, tal como os antigos, surpreendermo-nos com a mágica existência do Universo. Todas as culturas conhecidas registraram o seu assombro com a vida.

Menino olhando pras estrelas pela janela

Na tradição grega, as musas, deusas da memória, das artes e da história, inspiravam ao poeta os cantos que traziam os acontecimentos do tempo sem tempo. Na tradição judaico-cristã, o saber fora revelado a profetas e conservado em livros sagrados que nos contam de um Deus Todo-Poderoso que cria o céu e a terra, o mar e as montanhas e o homem à sua semelhança… Já, para os filósofos da escola Pitagórica, desenvolvida no século VI a.C., a matemática poderia revelar os mistérios do Universo.

Em outro lado do mundo antigo, onde hoje se encontra a Índia, na simbologia Védica, cuja história remonta há mais de 4 mil anos, haveria um eterno movimento de expansão e retração, além do espaço e do tempo. Quando Brahma desperta, Om, o som da criação, inicia o movimento do cosmo até o momento em que Shiva inicia sua dança e tudo inverte a direção.

Os mitos apaziguam o medo do desconhecido. Nas histórias do poeta rapsodo na Grécia antiga ou na África, o mundo povoado de deuses expõe uma relação respeitosa com a natureza, da qual homens e mulheres fazem parte, como todas as outras partículas e espécies do cosmo, compartilhando o mesmo destino, pois estão todos no mesmo barco que navega sobre marés e mares ignotos.

Mas pode o homem responder à grande pergunta sobre a criação? Pode um ser finito entender o infinito? Pergunta filosófica antiga. Para aqueles que têm fé na razão, o método científico permite à humanidade alargar seus horizontes. A ciência moderna se desenvolve a partir desse postulado, da crença que a razão possibilita construir explicações racionais, ou seja, lógico-dedutivas e, assim, entender a organização e o funcionamento do Universo.

A fé na razão para iluminar o mistério e livrar o homem do medo do desconhecido ainda move os pesquisadores na busca de princípios que ordenem esse caos.

Desenho de mulher dançando com mandala

Registros de Einstein

Einstein, o mais famoso cientista do século XX, registrou que “a mais profunda emoção que podemos experimentar é inspirada pelo senso de mistério”. Ciência e religião podem conversar quando do mistério se trata, pois ambos articulam respostas, contudo a ciência constrói teorias submetidas à avaliação da comunidade científica e passíveis de refutação, diversamente da religião, para a qual o dogma – a verdade revelada – não pode ser questionado.

Na história ocidental, homens profundamente religiosos como Galileu, que amava olhar as estrelas, sedimentaram o caminho da ciência.

Certamente a razão permitiu avanços ao questionar dogmas como a postulação da terra no centro do Universo, constituindo-se em uma preciosa ferramenta a partir do iluminismo para promover a liberdade e a autonomia do sujeito, bem como fim das distinções e hierarquias baseadas em crenças, como o poder da nobreza pelo seu sangue azul.

A razão certamente ampliou o nosso conhecimento do mundo, mas solapou outras formas de entendimento, como a intuição e o saber do nosso corpo.

Se no começo era o caos ou uma eterna dança de Shiva, não sabemos, e, talvez, não nos seja dado nunca conhecer, restando-nos a humildade de nos conformarmos ao imperscrutável e viver com sabedoria o nosso efêmero ou eterno momento.

Dança da Shiva

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Este post homenageia Marcelo Gleiser, renomado cientista brasileiro vencedor de muitos prêmios, entre eles, o Prêmio Templeton recebido no final de março, uma homenagem que celebra as “descobertas relacionadas às questões mais profundas que a humanidade enfrenta”, da ética à criatividade, passando pelo sentido da vida. “A ideia de dedicar a minha vida ao estudo dessas “grandes questões” tornou-se uma obsessão. Inspirado pelo “sentimento cósmico-religioso” de Einstein, decidi seguir esse caminho”, escreveu o físico no livro A Dança do Universo. “Nesse sentido, você, eu, Heráclito, Copérnico e Einstein somos todos parceiros da mesma dança, todos dançamos com o Universo”.


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Sobre o autor

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Verónica Aravena Cortes

Psicóloga (Terapia infantil, adultos e familiar, orientação e aconselhamento aos pais).

Graduação em Filosofia/USP e em Jornalismo pela Cásper Líbero, doutorado em Sociologia /USP e mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo.

Trabalhou como professora na Universidade Metodista de São Paulo nos cursos de Psicologia, Jornalismo, Ciências Sociais e Filosofia (1998-2018).

Organizou o livro "Chilena tu eres parte no te quedes aparte".

Edita o blog Saber Plural - Psicologia e afins para mentes curiosas.

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