Energia em Equilíbrio Yoga

Você sabe parar?

Pedro Kupfer
Escrito por Pedro Kupfer



Você tem a sensação de estar sempre fazendo demais? Ou então, de que o seu dia não tem horas suficientes para todas as tarefas que tem para realizar? Você se sente muito cansado, como se estivesse carregando um fardo muito pesado para suas próprias forças? A vida poderia ser mais gratificante e significativa para você?

Se sua resposta foi sim para algumas dessas perguntas acima, ou então, para todas, provavelmente precisa dar uma parada!

Os Yogis sabem que a Kali Yuga, este ciclo do tempo que vivemos, é a era do conflito e da escuridão. Porém, ainda não é consenso geral que esta é também a era da velocidade, na qual tudo acontece rápido demais.

Nosso tempo não existe. Não temos tempo para pensar em nada. A vida nos engole com suas pressões: da sociedade, do trabalho e da família. Ou nos adaptamos às necessidades, ou então enlouquecemos.

Adaptar-se é aprender a parar.

Relembre os primeiros anos da sua vida: você e sua família não possuíam computadores em casa. As brincadeiras eram na rua, diferente de hoje em dia, com seus filhos. E a violência presente nos videogames é muito diferente da presenciada hoje pelos seus filhos.

As crianças que fomos são simplórias quando comparadas à geração atual. De fato, as crianças de hoje não são nem mesmo chamadas de crianças: são pré-teens.

O tempo passou. Você cresceu e sem perceber, entrou na montanha russa que vive hoje. O ritmo do dia a dia está acelerado e hoje, provavelmente, está mais rápido do que você gostaria. A escritora Emily Dickinson disse que “viver é algo tão espantoso que sobra pouco tempo para qualquer outra coisa”.

Essa montanha russa que vivemos é chamada samsara em sânscrito, que significa literalmente “fluir” ou então, “andar em círculos” e é um fluxo constante de eventos, que não pode ser detido, e que portanto, não nos traz paz ou segurança.

Samsara é a terra do sofrimento.

Isso nunca tinha passado pela sua mente? Então reconheça o samsara e segure-se, pois entraremos numa montanha russa em queda livre.

Mesmo que tenhamos aprendido muitas coisas importantes na escola, nunca aprendemos a parar.

Parar é uma forma de refletir, uma forma de assimilar tudo aquilo que aprendemos, nos tornando mais abertos para avaliar positivamente e com justiça qualquer iniciativa que a nós seja proposta.

Parar é o que vem antes do samadhi, para os Yogis. Parar é a realidade luminosa para além do samsara.

Se você ama a si mesmo e se respeita, você irá parar. Parar é também um ato de generosidade com aqueles que nos rodeiam, pois quando estamos em harmonia com nós mesmos, refletimos esse sentimento em quem está ao nosso lado.

Viver a jornada da vida, essa aventura cheia de descobertas, é aprender a cultivar com consciência o ato de parar. Quando não sabemos parar com consciência, nosso corpo acaba parando sozinho através de situações extraordinárias, como uma doença ou acidente.

Para manter a sanidade e a felicidade parar é essencial! Todos procuramos a felicidade, alguns buscam até a imortalidade, mas é difícil encontrar alguém que saiba o que fazer num sábado chuvoso.

A arte de viver fica enterrada sob as pressões impostas pela sociedade. Como disse H. D. Thoreau: “a vida se mede, não pelo número de anos que passamos na Terra, mas pelo que usufruímos”.

Parar se relaciona, da mesma maneira, com os nossos valores mais profundos e internos. Quando não sabemos parar, nos tornamos presas fáceis para o consumismo. Quando não sabemos parar, nossa mente nos leva a crer que aquela marca de roupa é o que precisamos para encontrar a felicidade, ou então, que usar o cartão de crédito irá resolver todos os nossos problemas emocionais.

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Em seu livro ‘A Essencial Arte de Parar’ (1999, Ed. Sextante, Rio), o Dr. David Kundtz, diz que existem algumas dicas valiosas para aprender a parar:

Pausas breves

Essas pausas duram algumas respirações, ou algumas horas, e devem ser feitas todos os dias, principalmente antes de tomas decisões importantes, por exemplo. Se for o seu desejo, antes de continuar a ler este artigo, faça algumas respirações conscientes, feche seus olhos e apenas observe a si mesmo. Percebe tudo aquilo que acontece à sua volta. Pronto. Você entendeu!

Escalas de viagem

Estes períodos de tempo são reservadas para não se fazer nada. Eles podem durar algumas horas ou até semanas e ajudam a limpar a mente, recuperando a objetividade. Os fins de semana, ou então férias sem nenhuma tarefa marcada são bons exemplos de escalas de viagem, na qual você poderá recarregar suas energias e reencontrar o equilíbrio interior que lhe falta.

Paradas gerais

Estas paradas são momentos cruciais na vida, momentos em que a escolha perfeita é se afastar de tudo, de todos… É o momento para reencontrar o rumo da vida para o futuro que chega, que podem durar alguns meses ou até um ano, reservando esse tempo para fazer viagens ou retiros.

Para o Yogi, parar não é praticar Yoga ou meditar. Parar é diferente dos momentos de meditação e, mesmo que envolva o pensamento aplicado yogika, tem mais a ver com dedicar alguns momentos à arte, a atividades físicas, ou simplesmente estar perto da natureza.

No meu caso, percebi que minhas paradas, sejam do tipo que forem, se relacionam muito com o estreitamento dos meus vínculos com a natureza, especialmente com o mar. De tal forma, quando faço minhas pausas breves, reservo momentos do dia para praticar o surf, mesmo se as condições de vento e ondulação não forem as ideias.

Quando não tiver tempo de ir ao mar, dou uma caminhada breve pelo mato, ou faço um pequena sessão de “cachorroterapia”: me deito no chão e deixo que minhas cadelas me lambam, me cheiram, façam carinho em mim. O instinto animais faz com que elas saibam o que estou precisando.

O meu tempo de escalas de viagem, quase sempre são viagens de surf, com meus amigos yogis, meu tapete para praticar Yoga e alguns instrumentos para tocar mantras. Também já fiz uma parada geral: fiquei viajando por seis meses, praticando surf na Indonésia.

Parar tem muito a ver com respirar conscientemente, com desfrutar o presente, com a simplicidade do ser.

Para manter o bom senso vital é preciso que paremos. Aliás, você já deu sua parada de hoje?

Sobre o autor

Pedro Kupfer

Pedro Kupfer

Pedro vive de vegetais, praia e surf. É casado com Ângela Sundari, com quem viaja com frequência para surfar, estudar, ensinar e compartilhar momentos bons com os seres humanos, plantas e animais deste belo planeta. Ensina Yoga há 30 anos. Move-se entre Portugal, Brasil, Índia, Indonésia e Chile, lugares que ama por diferentes motivos, sendo o mais importante de todos, as pessoas que conhece neles.

Oṁ Gaṁ Gaṇapataye namaḥ!

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