Dançaterapia Saúde Integral

A dança da Alma

Silvana Jara Faciole

A dança que nasce por caminhos diversos do corpo e que nos faz aprender que o movimento fala por si só. Todos, sem exceção, são capazes de expressar através do corpo o que sentem. Não há barreiras, apesar de deficiências físicas ou mentais.  A paralisia cerebral ou o autismo não impedem ninguém de sentir e expressar-se, mesmo que hajam comprometimentos físicos ou sensoriais. Para cada um há uma diferente possibilidade de sentir, mesmo que seja por alguns segundos.

A Dançaterapia é levada até eles de forma natural, como uma fonte de possibilidades que está ao alcance de todos, independentemente das condições físicas ou intelectuais em que se encontram naquele momento.

Não há impedimento, dificuldade ou diagnóstico que faça o dançaterapeuta desacreditar que cada um, a seu tempo, pode sentir e responder aos estímulos.  Às vezes a resposta ocorre instantaneamente, outras demoram dias, meses e até anos para nos presentear com fragmentos do movimento e segundos de clareza corpórea.

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Acreditar no ritmo interior e na capacidade de sentir faz da dançaterapia um caminho especial. Compreender que o “áspero” e o “suave” não se resumem a uma definição semântica que não permite mudança. Muitos, por exemplo, sentem o “suave” como “aspereza”, o “áspero” como “carícia”, porém todos sentem.  Por isso respeitamos as respostas de cada um compreendendo que o universo interior pode ser sentido de maneiras nem sempre convencionais.  Muitos são os momentos divinos de revelações do ser humano que se esconde ali.

Certo dia, propus um estímulo sobre crescimento, mostrando com a plenitude do meu corpo em movimento o que poderia ser “crescer”… parecia tudo tão claro e completo, porém as experiências que vivemos como dançaterapeuta todos os dias nos fazem perceber que os limites da expressão não estão nos condicionamentos que criamos e que a compreensão do que vivemos independe de um corpo físico perfeito ou de uma situação ideal.   

Pedi então a uma menina que fazia parte do grupo, com paralisia cerebral e restrição de movimentos que me mostrasse com seu corpo a proposta de crescimento. Senti no seu olhar uma aflição que me indagava: como? Eu então lhe disse: mostre da forma que puder. E foi assim que ao som da música escolhida para o estímulo ela cerrou seus olhos e muito lentamente os foi abrindo num movimento lento e crescente até que eles desabrocharam. Foi um dos movimentos de crescimentos mais verdadeiros e profundos que pude observar. Naquele momento ela se transformou em minha mestra.

Não é incrível que quando nos dispomos a compreender o outro somos capazes de ver respostas tão verdadeiras e profundas, que passariam despercebidas por outros? 

Um outro rapaz que está sempre presente às conduções, aparentemente sempre adormecido, quase sempre sob efeito de medicação.  No entanto, eu sempre faço intervenções falando com ele e partilhando os estímulos e de repente tudo o que consigo naquele momento é um sorriso e um piscar de olhos como se acordasse de um sonho.

Entretanto, apesar dele parecer absorto, qual não foi a surpresa de todos nós que acompanhávamos a condução, quando de repente ele sai deste estado de aparente inércia pega a vara de bambu que estava no seu colo, apoiado na cadeira de rodas e se movimenta elevando a vara e acompanhando a proposta por alguns instantes. Esses curtos momentos de explosão do ritmo interior e da consciência do movimento que transcende as definições elitistas de “conseguir” nos faz acreditar na incrível capacidade que todos temos de simplesmente “ser”.

Em jovens autistas, a música e a dança chegam como mistério. Não sabemos em que momento suas portas interiores se abrirão e até mesmo se isso ocorrerá, mas sabemos que quando isto acontece, podemos ver e sentir em seu movimento uma partilha de vida e de sentimentos que se liberam de um mundo pessoal e criam indícios de cumplicidade.

Todas as experiências aqui relatadas só ratificam o que a mestra Maria Fux nos apresentou em seu livro “Dança, Experiência de vida”, sobre a importância da mobilização, tanto com crianças como com adultos, confirmando que “ a expressão e a criação no nível do corpo são próprias do ser humano. Qualquer que seja seu estágio cultural ou qualquer que seja sua condição física. A necessidade de mover-se é parte da pessoa e quanto mais seja ajudada a expressar-se, mais benefícios obterá para o resto de suas atividades em sua vida privada e social”.

A grande enfermidade seria “não reconhecer” no corpo, sua possibilidade expressiva e não compreender que somente desenvolvendo as potencialidades internas e físicas que poderemos encontrar o equilíbrio e buscar a integração como seres humanos.

Sobre o autor

Silvana Jara Faciole

Silvana Jara Faciole

Silvana Jara Faciole se formou em Dançaterapia, método Maria Fux, em julho de 2011, pelo Centro Internacional Dançaterapia Maria Fux, em Goiás, GO, associado a Si. Danza Scuola Internazionale di Danzaterapia da Itália, com os mestres: Maria Fux e Pio Campo.

Como Dançaterapeuta atua em Instituições nas áreas de educação, saúde e bem
estar; assim como na Educação Especial e ações de inclusão de pessoas com síndrome de down, surdocegos, com limitações físicas e intelectuais. O Projeto Dançaterapia foi aprovado pela SECULT (Secretaria de Cultura de São Caetano do Sul) nos últimos 3 anos, sendo que em 2015 está em plena atividade no município, abrangendo a terceira idade, educação especial e instituição sócio assistencial infantil.

Cursos de atualização: Seminários Intensivos Anuais no Brasil, Itália e Espanha com Pio Campo e também em 2013 participou do Seminário Internacional de Dançaterapia no “Centro Creativo de Danzaterapia” em Buenos Aires, Argentina com Maria Fux.

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