Autoconhecimento Budismo Convivendo

A vida é em si

Homem subindo escadas entalhadas em uma montanha. Ao lado dele vemos duas torres brancas, e no topo da montanha, um templo sagrado.
Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo

Vida significa viver. A vida não é em si um substantivo, mas é um verbo. Nada é fixo. Nada é permanente. A vida é em si uma constante impermanência. Observe e perceberá que constantemente a vida está se moldando, se engrenando, se modificando. Nada é estático.

Dias desses fui com o meu namorado, o Guilherme, conhecer o Templo Zu Lai, em Cotia, São Paulo. Meu namorado costuma ir com frequência ao templo, mas eu, apesar de ser budista, foi a minha primeira visita.

Imagem do Templo Zu Lai, onde nas laterais vemos corredores elevados, cobertos com telhado e grades brancas laterais, ao fundo o templo com colunas marrons e paredes brancas. Na frente dele, existe uma escada que leva a um espaço gramado com pedaços de piso cimentado.

Embora eu seja budista, fiquei muito encantada com o tamanho aprendizado que vivenciei num único dia. Senti um misto de energia logo que adentrei no templo, não consigo mensurar tamanha sensação em palavras somente. A energia ao contato com a mãe natureza. A recepção e educação das pessoas. Os sons dos mantras. Os sons dos pássaros e os sons da mãe terra, nossa saudosa natureza. A água. O lago. A meditação em conjunto (e também internamente). O cheiro da natureza ao caminhar pela grama e sentir a vibração das árvores junto à brisa do vento. O cheiro do incenso. O cheiro do alimento. SER presente. VI VER. Genuinamente.

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No Budismo Nitiren Daishonin (vertente de que eu sou praticante), aprendemos que a vida é o nosso tesouro mais precioso. E pensando sobre isso eu questiono: quando foi a última vez que nós sentimos a preciosidade da vida? Qual foi a última vez e que de fato houve um sentir muito mais além do que tentarmos entender as eventualidades da vida? Quando é que foi a última vez que nós paramos por um segundo e nos sentimos donos de nós mesmos, hein?! Às vezes – quotidianamente eu me corrijo a dizer – buscamos respostas para algo que não sabemos nem que estávamos procurando e que não estão em nossa alçada compreender. Ficamos confusos e perdemos muito tempo nessa busca acirrada por algo que nem sequer existe, a não ser e somente em nossa cabeça. Corremos contra o tempo, que é também o nosso bem mais precioso após a vida. Aliás, o tempo é a vida.

Monge budista meditando em construção antiga. Ele usa trajes típicos laranja, e seus olhos estão fechados.

De que forma você tem gerido o seu tempo? Tem sido muito bem proveitoso ou desgastante com coisas que não estão na sua alçada em resolver? Tem desfrutado das oportunidades que a vida lhe oferece ou tem fugido do tempo? Sempre tudo muito rápido, não é? É, eu compreendo.

O tempo é também a desculpa de muitas pessoas, já perceberam? Ninguém nunca tem tempo para se apreciar por um segundo. Quem dirá parar um momento e contemplar a natureza ou a vida.

Sinto muito em dizer, mas é notório que é mais preferível desprezarmos o tempo e seguirmos sem rumo e avoados, seguindo o script: “só mais um dia, menos um dia”. Ou seja, nós somente existirmos, não vivermos. Afinal, nós fomos ensinados desde a tenra idade que “o tempo é curto”. “Não temos tempo para nada.” “Faça isso, mas não faça aquilo.” Tá, mais e aí?! A vida vai muito mais além e não se esqueça de que o tempo, assim como a vida, é também impermanência. Se a vida é o nosso bem mais precioso e o estar preSEnte é em si – vivermos a vida – se nós nunca estamos preSEntes, diga-me então qual é o sentido? Senão o de apreciarmos a simplicidade do tempo?

Esqueça aquela história de que algum dia te disseram que não existe tempo. Saiba que o tempo é o agora, e o agora já não será mais o mesmo daqui a um minuto. Você soube aproveitar o segundo atrás? E o agora?!

É costumeiro nós nos estagnarmos e ficarmos avoados e em modo “repouso” ao longo do decorrer da nossa existência. Em conclusão, embora o tempo seja curto, existe sempre o “vamos deixar para o amanhã, não é?” E como eu mencionei anteriormente, não é nenhuma novidade que nós permanecemos sempre avoados, nunca presentes.

Eu sei que a vida é cheia de curvas e passamos por milhões de situações. Embora eu seja budista, também sou ser humano e falho muito, inclusive com o tempo. Costumo dizer que sou uma eterna aprendiz e como aprendiz, no dia em que tive a oportunidade em ir ao Templo Zu Lai, junto com meu namorado, eu me permiti estar preSEnte na experiência e desfrutar de grandiosas emoções, as quais não consigo descrever em palavras. Eu me consenti desde o momento em que pisei até o momento em que saí do templo e ainda após a experiência e tamanha reflexão que eu tive sobre a vida e também sobre o tempo, percebi que aquele mesmo modo “repouso” que nós tanto insistimos em apertar pelas nossas peregrinações na vida, nunca e sequer existiu. Pesado, não? Por essa ninguém esperava, não é mesmo? Mas é isso mesmo, não existe nada em repouso e mesmo quando apertamos a tecla do momento repouso pode perceber que estamos avoados e preocupados entre o ontem e o amanhã. Nunca presentes. Nunca repousando. Nunca no momento presente.

Mulher sentada com as pernas cruzadas em jardim com pequenas pedras brancas e folhas secas. Ela está meditando, e ao fundo muitos bambus plantados e árvores maiores.

Estamos em movimento. Semelhante à vida – a qual não é fixa nem permanente. Semelhante ao tempo, o qual também não é fixo nem permanente. Então, esqueça de uma vez por todas todos aqueles clichês de que o tempo é curto. Pode também esquecer de que no amanhã se faz isso ou aquilo, quem tem a certeza do amanhã? E o agora não importa? Não há razão alguma para se preocupar com algo que não existe, além da nossa cabeça. A vida é VI VER. SER presente. É simples, mas nós é que complicamos. Logo, eu espero do fundo de todo o meu coração que você aí do outro lado esqueça todo esse blá-blá-blá sobre o tempo e tudo o que te disseram até aqui.

Que você pare por infinitas vezes ao longo do seu dia e da sua vida e SInta. Inspire e expire com calma e com a alma. Permita-SE e SInta a vida pulsar em seu SER. Esteja preSEnte. SInta-se, mesmo que só por um instante dono de SI mesmo. VI VA.

Desejo que neste novo descortinar que se inicia você renove a sua presença constantemente e nunca se esqueça de que a vida e o tempo são os bens mais preciosos que nós temos. Saiba apreciar tanto o tempo quanto a vida, assim como todas as impermanências e intempéries que surgirem no decorrer da sua jornada, saiba tirar proveito de todas as curvas que você cruzar e nunca se esqueça de que está tudo bem. Não tenha pressa, VIVA o presente. Não foque tanto nos quês, quás e acolás ou acolés, saiba apreciar a simplicidade e ser genuíno com o tempo e também com a vida – afinal, a vida é em si estar presente. E que você esteja sempre presente.

* Dica: para quem não teve a oportunidade de visitar o templo Zu Lai, eu recomendo que visite e permita-se desfrutar de uma experiência única. Sentir a energia que é impossível descrever – é só SEntir. Clique aqui para mais informações sobre visitação no Templo Zu Lai!

Mulher usando óculos escuros e chapéu, segurando e olhando para um mapa em suas mãos. Ao fundo, os monumentos da cidade de Ayutthaya.

De todo o meu coração e mãos em prece,

Gratidão! E em especial gratidão ao meu namorado, parceiro, professor e amor da vida, Guilherme.

Não se esqueça de viver o presente e de que existe muito amor aqui para todos nós.

Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

É custoso descrever quem sou eu – já que constantemente lapido, modifico e me transformo em um pouco de tudo e muito de cada pouco. Inicialmente posso compartilhar dizendo que sou extremamente curiosa, apaixonada pela comunidade surda, pela língua de sinais e por tudo que envolve a linguística.

Foi na faculdade de medicina e como acadêmica há alguns anos (com a esperança de trabalhar com o ser humano e suas limitações) que eu adentrei para um universo de que eu não fazia ideia que fosse possível existir e que pudesse trazer a bagagem que tenho hoje. Minha busca incessante pelo autoconhecimento e entendimento para muitos dos questionamentos que já tive (e continuo tendo) me fez despertar para o meu atual desígnio.

Minhas tantas outras peregrinações e experiências também contribuíram e muito com o meu desígnio – a começar pelo de compartilhar junto a vocês, leitores do EuSemFronteiras, sobre a primordialidade de enxergarmos para além do que nos visibiliza os olhos e lembrarmo-nos sempre de sermos semelhantes ao sol, mesmo em meio às sombras escarpadas montanhosas da vida.

Com todo o meu carinho e gratidão imensa,

Mãos em prece e um saudoso e caloroso abraço em cada um.

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