Praticar Yoga na maturidade tem um aspecto concreto: as posturas e a respiração aparecem como ferramentas para cuidar do corpo. Mas há também um aspecto ético, que pede acompanhamento fora da aula. Ahimsa, a orientação que nos lembra de não causar dano, pode parecer simples na teoria e difícil na vida social, onde comentários, julgamentos e pequenos ataques acontecem com frequência. Como conciliar o que se aprende no mat com as atitudes do dia a dia?
O primeiro movimento é reconhecer que muitos gestos que chamamos de “ciência social” não são neutros. Um comentário depreciativo sobre outra mulher, uma fofoca contada com riso, a indiferença diante do sofrimento animal, tudo isso desenha um padrão de comportamento que contraria a intenção de cuidado. Diante disso, a prática pede honestidade: é preciso olhar para os próprios hábitos sem teatralizar culpa, apenas para entender como as palavras e escolhas afetam quem está perto e quem não está.
Comunicação não-violenta oferece um caminho prático. Antes de falar, vale verificar o que você quer expressar: é raiva, medo, desejo de controle, ou uma necessidade legítima que precisa ser atendida? Nomear o que se sente reduz a probabilidade de atacar. Falar com intenção não anula o incômodo que o outro possa sentir, mas muda o tom da conversa. E quando a conversa fere, é possível reconhecer e reparar. Pedir desculpas com simplicidade é um gesto frequentemente esquecido, mas profundo na sua consequência.
Ahimsa envolve também escolhas concretas. Cuidar dos animais, por exemplo, passa por atitudes que não precisam ser grandiosas. Reduzir a indiferença diante de maus-tratos, apoiar iniciativas locais ou rever hábitos de consumo que contribuem para o sofrimento animal são meios de alinhar prática e vida. A coerência ética não exige perfeição, exige atenção contínua e pequenas correções de curso.
Outra dimensão importante é o autocuidado do olhar. Muitas vezes, a crítica aos outros esconde um mal-estar próprio. Antes de apontar, vale perguntar: qual desejo não atendido me faz reagir assim? A psicanálise traz ferramentas para investigar esses disparos emocionais. Conhecer as próprias fragilidades diminui a necessidade de depreciar o outro, porque a comparação perde a força como mecanismo de defesa.
A disciplina no mat ajuda nesse processo. Respirar profundamente antes de falar, estabelecer um intervalo menor entre emoção e ação, praticar posturas que desafiem a paciência e a tolerância — tudo isso transforma o reflexo automático em gesto intencional. A repetição de práticas simples cria um tipo de presença que permite escolher a palavra e a ação com mais consciência.
Por fim, vale cultivar círculos que provoquem crescimento e não apenas reafirmação. Reunir-se com mulheres que desejam alinhar fala e comportamento facilita o processo de autocrítica e mudança. Em encontros onde se fala sem humilhar, onde se ouve sem minimizar, a prática ética se torna mais palpável. Assim, o que se aprende no tapete deixa de ser teoria e passa a orientar decisões cotidianas.
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Manter coerência entre o que se busca na prática e o que se faz fora dela é um exercício que pede atenção e gentileza consigo mesma. Não se trata de alcançar um ideal inatingível, mas de responder com responsabilidade às pequenas escolhas de cada dia. Quando isso acontece, a presença de uma mulher madura transforma não por aparência, mas pela consistência das suas atitudes.
Se quiser trocar sobre como integrar essas práticas no seu dia a dia, estou à disposição.
Com carinho,
Sandra Pintaudi Lebrão
Psicóloga | Psicanalista | Professora de Yoga
