Convivendo

Brain Damage (Pink Floyd) e o autoconhecimento

Capa do álbum do Pink Floyd
Divulgação/ Youtube
Pedro Paschuetto
Escrito por Pedro Paschuetto

O álbum The dark side of the moon, lançado em 1973 pela banda Pink Floyd, é um dos mais vendidos do mundo. O disco começa com um som representando as batidas do coração e por um grito (como no nascimento), terminando com as batidas do coração ficando cada vez mais baixas (como na morte). Este trabalho é um tratado simbolizando a saga da jornada humana sobre o orbe terrestre. Seria possível até mesmo criar uma religião em cima das mensagens das músicas. É um trabalho genial e atemporal. A consciência impregnada nas letras, junto com toda a musicalidade, fazem desta obra um marco ímpar na história.

Vamos à música:

Brain damage (dano cerebral)

1º parte: A manipulação da mídia

The lunatic is on the grass

The lunatic is on the grass

Remembering games and daisy chains and laughs

Got to keep the loonies on the path

The lunatic is in the hall

The lunatics are in my hall

The paper holds their folded faces to the floor

And every day the paperboy brings more

O lunático está no gramado

O lunático está no gramado

Lembrando-se de jogos, correntes de margaridas e gargalhadas

Temos que manter os loucos na linha

O lunático está no corredor

Os lunáticos estão no meu corredor

O jornal mantém suas caras dobradas no chão

E cada dia o entregador de jornal traz mais

O lunático está na gramado / … / Tendo que manter os doidos no caminho / … / O jornal mantém suas caras dobradas no chão / E todo dia o jornaleiro traz mais

Podemos dizer que ele se refere à manipulação das massas por meio da mídia. O jornaleiro é encarregado de disseminar diariamente as notícias sensacionalistas que levam o medo e terror à população. Entenda “jornaleiro” como os diversos meios de propaganda: outdoor, TVs, sites, redes sociais, rádio, etc. Raul Seixas cita em sua composição S.O.S.:

Televisão sendo apoiando em um rádio antigo
Diego Gonzales em Unsplash

Hoje é domingo / Missa e praia / Céu de anil / Tem sangue no jornal /….

Informações meticulosamente deformadas com a intenção de provocar a curiosidade de quem as recebe, fomentando emoções variadas, sem filtrar sua qualidade. Se não tem sangue no jornal, as vendas caem, não dá IBOPE. Há uma parte do veículo humano que se alimenta da desgraça alheia, uma parte animalesca. Quando lemos “Chuva faz 16 vítimas em morro no Rio de Janeiro”, inicialmente surge uma comoção natural perante a notícia e as vítimas. Uma reflexão um pouco mais atenta, no entanto, pode revelar muito mais. Qual o papel da chuva? Cair das nuvens sobre a superfície da Terra: é basicamente isso que ela faz desde que a chuva é chuva e a Terra é Terra. Então a questão é: se as supostas vítimas tivessem projetado suas casas em um local longe do morro, mais seguro e livre do perigo de deslizamento, será que teriam sido vítimas? A chuva não faz outra coisa senão cair do céu, mas a forma como notícia é estruturada e divulgada faz com que chame a atenção de pessoas emocionalmente frágeis, reforçando seu estado de ignorância de si mesmas.

Toda a mídia se alimenta da dualidade entre um algoz e uma vítima. Esse princípio básico é utilizado para escalar volume de vendas no mundo: criar um (suposto) absurdo para chocar as pessoas em seus pontos fracos, seja medo da morte, do desemprego, do abandono, dos impostos exorbitantes, das tragédias etc. Segundo a música, é isso que mantém os loucos na linha, com medo da mudança, com medo de um olhar interior que os liberte. É isso que mantém os rostos grudados no chão, vidrados nos absurdos que chegam até nós, manipulados, em forma de notícias.

Homem de frente para um fundo escuro olhando para o lado
Andrew Neel em Unsplash

2º parte: Cada qual em seu tempo de despertar

And if the dam breaks open many years too soon

And if there is no room upon the hill

And if your head explodes with dark forebodings too

I’ll see you on the dark side of the moon

E se a represa romper-se muito antes do tempo

E se não houver nenhum espaço em cima da colina

E se sua cabeça também explodir com maus pressentimentos

Eu te verei no lado escuro da lua

Pode-se ler essa estrofe como uma alusão ao momento em que alguém começa a tomar consciência sobre si. Inicia-se um processo de rupturas muito bruscas de crenças profundamente enraizadas, é o rompimento da represa. Podemos fazer um paralelo com o Mito da Caverna do filósofo Platão: a pessoa não pode sair de uma vez da caverna que representa sua ignorância, porque não estaria preparada para receber uma carga muito grande de consciência. A dosagem da abertura é concedida aos poucos, pela natureza, de forma segura, sabendo o que cada um pode suportar. Note como existem padrões de pensamentos, sentimentos e hábitos tão difíceis de serem conscientizados em você. Passo a passo, as respostas aos padrões vão sendo iluminadas no caminho de autoconhecimento.

3º parte: O início do caminho e a tomada de consciência sobre quem não se é

The lunatic is in my head

The lunatic is in my head

You raise the blade, you make the change

You rearrange me ’til I’m sane

You lock the door and throw away the key

There’s someone in my head, but it’s not me

O lunático está em minha cabeça

O lunático está em minha cabeça

Você ergue a lâmina, você faz a mudança

Você me rearranja até eu ficar são

Você tranca a porta e joga a chave fora

Há alguém em minha cabeça, mas não sou eu

B I N G O! Alguma coisa aqui está tomando consciência de que não é o que pensa ser, iniciando um processo de desidentificação com a personalidade que até então acreditava existir (nome, idade, sexo, profissão, família etc.). O “lunático” representado na letra é justamente o ego, a mente, tendo como principal característica manter o ser humano acreditando que os pensamentos criem uma identidade isolada, separada dos outros, sofrendo pela grande quantidade de meros pensamentos que simplesmente passam pela cabeça.

Mulher com a cabeça abaixada
Volkan Olmez em Unsplash

Lembre-se: o ego tem tanta solidez quanto a fumaça de um incenso.

Buda aponta na frase abaixo o poder que a prática da Meditação possui e os benefícios que a desidentificação com os pensamentos proporciona:

“Vocês, que são escravos do eu, que lhe prestam serviço de sol a sombra, que vivem no medo constante de nascimento, velhice, doença e morte, recebam as boas novas: seu cruel dono não existe.”

Buda

Quando uma pessoa sobe em um prédio bem alto e lá de cima olha para baixo, é possível que passe um pensamento do tipo “Uau! Que altura! Já pensou cair aqui de cima? E se eu me jogar?”. Quem pensou isso foi a mente. Porém, um pensamento desses não torna a pessoa suicida. Somente se ela pular será possível notar que o pensamento aconteceu. Pensamentos repetidos criam crenças, e essas crenças trazem sofrimento, pois são apegos a alguma ideia relacionada ao si mesmo imaginário. A questão é que muitas vezes o próprio ego pune a si mesmo, se julgando como suicida, meramente por ter pensado em pular. Isso acontece frequentemente quando uma vingança ou preconceito passa pela mente, e a pessoa fica então acreditando que é vingativa ou preconceituosa. É preciso se dar conta de que, do pensar ao agir, há um grande caminho a percorrer. A atual situação do mundo corrobora com a punição e com pensamentos nocivos que causam desconforto às pessoas. Daí então mais um dos benefícios da Meditação. Se a pessoa observa a si mesma, enxerga uma vingança passando em forma de pensamento mas que de repente esse pensamento some, ela não precisa se punir ou se culpar, uma distância vai sendo reconhecida entre o EU e o eu.

4º parte: O lado escuro da lua

And if the cloud bursts, thunder in your ear

You shout and no one seems to hear

And if the band you’re in starts playing different tunes

I’ll see you on the dark side of the moon

E se a nuvem explodir, trovejar em seu ouvido

Você grita e ninguém parece ouvir

E se a banda em que você está começar a tocar melodias diferentes

Eu te verei no lado escuro da lua

Quanta perturbação, dúvida e angústia acontecem na nossa cabeça… Vozes em nossos ouvidos… Quantas vezes gritamos por socorro e ninguém parece escutar. O lado escuro da lua é a ignorância de si, é lutar para tentar continuar sendo quem não é, é criar estratégias e galgar planos de carreira para suprir a expectativa de alguém, é estipular metas para alcançar o inalcançável.

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R e l a x e…

Um passo atrás.

Um silêncio antes.

Uma percepção do pensar.

Uma atenção ao sentir.

Dentro de ti, infinitas sensações acontecem a todo momento e você não precisa entrar de cabeça nisso.

Reconheça-se cada vez mais observação, um expectador de si e de toda a trama da vida.

Abuse da atenção para a respiração, ela só pode acontecer agora e te sempre te ancora no aqui.

“Livrai-nos do dano cerebral do pensar-se indivíduo, amém.”

Letra e tradução retiradas de: https://www.letras.mus.br/pink-floyd/63081/traducao.html

Sobre o autor

Pedro Paschuetto

Pedro Paschuetto

Pedro Paschuetto é natural de São Bernardo do Campo, SP. Iniciou sua trajetória em 2010, quando ingressou no curso de filosofia livre na academia, na Escola de Filosofia Livre, onde se formou como professor e orientou aulas de filosofia livre e meditação durante cinco anos.

Em 2011 iniciou sua prática de Tai Chi Chuan pelo Shobu Dojo, arte marcial que ensina desde 2014, ano em que se formou no curso de instrutor de Tai Chi Chuan pelo Espaço Caminho da Luz – professor Laércio Fonseca.

Fortemente identificado com a meditação, experimentou diversas técnicas. Se estabeleceu na Vipassana, tendo concluído seu primeiro curso em 2012.

Admirador das artes orientais, pratica Iaidô (espada japonesa) e Sumi-ê (pintura com tinta preta).

Por sua intensa necessidade de investigação da natureza da mente humana, em 2018 iniciou seus estudos em psicanálise.

CONHECE-TE é um projeto para a extinção do sofrimento por meio de autoconhecimento, consciência e verdade.

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