Autoconhecimento Comportamento

Conheça a ‘‘Síndrome do Imperador’’

Criança usando coroa de rei com os braços cruzados
Jose Manuel Gelpi / Canva
Vanderlei Tenório
Escrito por Vanderlei Tenório

No artigo deste mês convido-os a discutirmos sobre um conceito que tem ganhado força nos últimos anos. Para tal vamos nos basear em uma entrevista de Leo Fraiman, psicoterapeuta, supervisor clínico e diretor da clínica Leo Fraiman de Psicoterapia e Gestão de Carreiras, concedida a Ronnie Von em 2018, em uma matéria de Francesc Miralles para o El País e na entrevista da psicóloga Lilian Zolet para Gazeta do Povo. Na entrevista, Fraiman aponta quanto aos riscos que a chamada ‘‘síndrome do imperador’’ apresenta ao desenvolvimento saudável de nossos filhos.

A psicóloga Lilian Zolet define o conceito da seguinte forma: esta síndrome é resultado de uma série de fatores, incluindo as mudanças socioculturais da última década, que levaram os pais a terem menos tempo para ficar com os filhos e, por isso, ficam mais propensos a aceitar as birras e a superproteger, compensando, assim, a ausência. Outro condicionante é o modelo de educação autoritária ao qual os pais foram submetidos, ou seja, ambientes de muita repressão, mágoas e culpa. Para fugir dessa matriz e não a replicar, muitos pais acabam afrouxando as rédeas e tornam-se reféns emocionais dos filhos ao serem lenientes com caprichos e birras deles.

De acordo com Fraiman, a frustração em graus toleráveis faz parte do processo educacional. A criança não pode ter tudo o que quer, precisa também saber ouvir nãos, suportar o que a desagrada. Também nós, adultos, precisamos dessa aprendizagem assim como os adolescentes. Afinal, a vida não responde sempre de forma positiva ou amigável aos nossos desejos. E ter maturidade emocional é saber aceitar as frustrações e adquirir meios de lidar com elas.

O psicólogo Javier Urra afirma que nenhuma criança nasce sendo um tirano, mas que existem pais que não agem como adultos educadores, já que “fazem todo o tipo de concessões para não ter problemas e no final o que causam é um problema”. O juiz de menores Emilio Calatayud, muito conhecido por suas sentenças educadoras a jovens conflitivos, resumiu assim essa complicada situação em uma entrevista publicada no El País em 2006: “Demos a eles muitos direitos, mas não lhes confiamos deveres. Perdemos o princípio da autoridade. Quisemos ser amigos dos nossos filhos!”.

Garota brava usando uma coroa de rainha
Mypurgatoryyears / Getty Images Signature / Canva

Fraiman destaca que muitos estudiosos concordam que essa síndrome, muito comum de ser encontrada nos nossos dias, tem origem no fato de que os pais têm menos tempo de estar com seus filhos devido às exigências profissionais e tentam compensar essa ausência cedendo aos desejos das crianças para não as desagradar ou criar desavenças nos momentos de convivência. Acreditam que têm que “fazê-los felizes a todo custo”, sendo criadas situações indevidas para evitar que as crianças sofram frustrações, julgando que é o melhor a fazer. Acabam por criar crianças teimosas, prepotentes, mandonas, intolerantes, mimadas e sem empatia, isto é, que não conseguem se colocar no lugar do outro.

A síndrome do imperador é resultado de uma visão distorcida dos pais e outros responsáveis pelas crianças que deixam de estabelecer limites, falta esta que pode gerar graves problemas na sua formação. Como observa Leo Fraiman, quem não sabe viver a frustração corre o risco de entrar em depressão porque é alguém que não sabe ir atrás do que deseja, que não sabe ser grato ao que a vida lhe oferece. O psicólogo enfatiza que é uma atitude narcísica dos pais o que gera tal situação, embora estes não tenham conhecimento disso.

É claro que nós sempre fazemos o que consideramos o melhor para nossos filhos, ninguém com clareza dos riscos a que a criança é exposta o faria. Fraiman observa que, sobretudo em um mundo em que as relações estão bastante difíceis, os pais ou outros responsáveis pela criança querem ser amados, querem que os filhos sejam seus amigos, que não se aborreçam com eles. Segundo ele, isso se repete no seu consultório inúmeras vezes: os pais querem resolver as dificuldades, mas não querem que os filhos se zanguem, não querem se indispor com eles.

Para Lilian Zolet, psicóloga, psicoterapeuta especialista em terapia cognitivo-comportamental e autora do livro “Síndrome do Imperador: Entendendo a Mente das Crianças Mandonas e Autoritárias”, impor limites não é simples e errar nas tentativas é comum.

“Quando os pais não conseguem orientar ou dar limite aos comportamentos inadequados da criança, estão na verdade reforçando a atitude errada delas. Com isso, o filho aprende que pode ter tudo o que deseja, no seu tempo e a seu modo, e que as pessoas irão servi-lo, tornando-se um ‘imperador doméstico’”, explica a especialista, que conversou com o Viver Bem da Gazeta do Povo por e-mail sobre essas dificuldades dos pais e como tirar o filho do “trono”.

Garoto sentado com as pernas cruzadas em trono usando uma coroa de rei
Sviatlana Lazarenka / Getty Images / cANVA

Tais crianças mandam em casa e também nas brincadeiras, fazendo com que as demais crianças obedeçam às suas ordens. Elas choram e se atiram no chão, batem a cabeça na parede, jogam os alimentos ou cospem no rosto dos pais e agridem e ameaçam psicologicamente os progenitores quando seus caprichos não são atendidos. Lilian conta que quando os pais são excessivamente críticos, rígidos e não conseguem expressar seus sentimentos ou auscultar as emoções do filho, a criança tem a propensão de desenvolver pensamentos autoderrotistas – “ninguém me ama”, “eu sou um estorvo”, “sou inadequado”, “sou um fracasso”, “sou defeituoso”, “nunca vou dar orgulho aos meus pais”.

Como consequência, a criança terá acentuados prejuízos na autoestima e nos relacionamentos interpessoais que poderão ser perpetuados na adultidade. O primordial é equilibrar dois fatores: o reconhecimento pelo bom comportamento e a aplicação de limites realistas pelo comportamento indesejado, tudo isso dentro de um ambiente terno e carinhoso. Ainda para ela, grande parte dos pais comete erros na educação de seus filhos porque reforçam os comportamentos inadequados da criança, muitas vezes de maneira inconsciente, na tentativa de dar proteção e afeto. Um exemplo disso é quando a mãe dá o doce que a criança deseja, enquanto a criança se joga no chão e chora compulsivamente.

O que a criança aprendeu com essa atitude da mãe? “É com escândalo que posso ter tudo o que quero”. Outra situação é quando o filho, considerado travesso, um belo dia obedece a seus pais prontamente. Por sua vez, os pais falam “Não fez mais que a obrigação” e ficam bravos pelos comportamentos anteriores. O que a criança aprendeu com essa atitude dos pais? “Não adianta me esforçar, eu nunca vou dar orgulho para os meus pais”. Quando não valorizamos as posturas positivas da criança, ela tende a não repetir os acertos. Quando os pais discutem, brigam e xingam na frente da criança, ela aprende a ter raiva e ansiedade e replica tais impulsos nas relações com os outros. Assim, ela não consegue controlar o desconforto e os impulsos de tais emoções, pelo contrário, a criança aprende a reagir agressivamente.

Convém comentar que muitos pais também foram vítimas de uma educação autoritária e não desejam repetir o que vivenciaram, mantendo um clima de camaradagem com os filhos. Entretanto é importante compreender que estabelecer limites, normas e rotinas domésticas não significa ser autoritário, mas oferecer às crianças o clima necessário que lhes traga segurança e equilíbrio; é assumir a autoridade de quem se responsabiliza por elas e as ama. Essas atitudes indevidas dos responsáveis impedem que as crianças ganhem autonomia. Fraiman observa que tirar a autonomia das crianças, gerando apatia, o seu oposto, é como não desenvolver uma musculatura que dá sustentação ao indivíduo e o aleijar.

Você também pode gostar

Observa que a neurociência nos mostra que a área do córtex orbitofrontal, atrás da área ocular, é onde se planejam as ações, se criam relações de causa e efeito, se pensam as consequências, é a sede da força de vontade, do freio moral, sendo uma área que se desenvolve pelo treino. O mestre em psicologia educacional e desenvolvimento pela USP enfatiza, ainda, que se a criança não for treinada a esperar, a criar, a negociar, a ceder e a se frustrar está sendo deformada. Alerta que a criança se tornará chata, birrenta, gastadeira e neurótica. Correrá o risco de vir a se drogar, uma vez que não desenvolveu sua autonomia, e vai precisar o tempo todo do outro para o que deseja. Não é difícil entender que a dependência aos vícios funcionará como uma “muleta”.

Se quiserem saber mais, assistam a entrevista do programa “Todo Seu” sobre a síndrome do imperador:

Como indicação de livros, leiam:

Fontes usadas para compor a matéria:

PEREIRA, Lucia Helena Pena. Síndrome do Imperador – o que é isso?. Olá, pais!, 05 de mar. 2021. Disponível em: < http://www.olapais.com.br/blog/2020/02/01/sindrome-do-imperador-o-que-e-isso/>. Acesso em: 05 de mar. 2020.

MILLÉO, Amanda. Sem limites, chatas e mandonas: as crianças que sofrem da Síndrome do Imperador. Gazeta do Povo, 05 de mar. 2021. Disponível em: < https://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/comportamento/descubra-se-seu-filho-tem-a-sindrome-do-imperador/>. Acesso em: 05 de mar. 2021.

MIRALLES, FRANCESC. A ‘síndrome do imperador’, quando seu filho é um tirano. El País, 05 de mar. 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/29/eps/1517241117_174147.html#:~:text=Dedicar%20pouco%20tempo%20a%20sua,para%20a%20%E2%80%9Cs%C3%ADndrome%20do%20imperador%E2%80%9D&text=O%20n%C3%BAmero%20de%20casos%20s%C3%B3,pais%20sem%20a%20menor%20consci%C3%AAncia.>. Acesso em: 05 de mar. 2021.

Sobre o autor

Vanderlei Tenório

Vanderlei Tenório

Faço parte de um grupo formado por 39 perfis de influenciadores de geografia para o Instagram, em que tenho um projeto chamado Cinema e Geografia. Esse projeto é voltado para todos os públicos. Um dos princípios que me levaram a criar esse perfil foi o de iniciar um canal de difusão do olhar geográfico e da educação de forma factual e didática. Criando uma ponte entre os conceitos científicos em contraponto com a parte lúdica das análises de filmes, quando aprendemos por meio do entretenimento, tudo fica mais fácil também. Por meio de histórias, tudo fica mais natural, e não falo apenas das histórias contadas em filmes; grande parte da nossa vida é regida por narrativas desde que nascemos. Mesmo que a gente pegue uma história pela metade, seja na TV, seja por alguém contando, é fácil ser capturado e acabar se interessando por sua continuidade.

É possível que você encontre pessoas que não tenham o costume de assistir filmes rotineiramente, mas é comum encontrar pessoas dispostas a receber alguma indicação, comentário ou relato da história de algum filme de que você tenha gostado, e esse fator tem sido um diferencial importante no projeto. Os filmes nos libertam de situações ruins e chatas ou de quaisquer outros hábitos cotidianos. Principalmente se você assistir no cinema, que é um ambiente voltado para o mergulho. O ato de assistir torna-se uma terapia necessária nos dias atuais.

Minha coluna terá o objetivo de explicitar como o cinema revela um potencial educativo próprio capaz de educar os sentidos e a sensibilidade, mediante um impacto emocional, do qual pode derivar uma reflexão a partir do viés dos conteúdos filosóficos, históricos, psicológicos, sociológicos, políticos, geográficos, antropológicos e científicos, desenvolvendo a inteligência emocional e intelectual, incidindo no nível da intuição e da imaginação. Pretendo esclarecer como a sétima arte funda uma linguagem específica na tentativa de retratar diferentes realidades sob o ponto de vista comportamental e emocional. Outras temáticas sobre as quais discorro em minha coluna são qualidade de vida, cotidiano, saúde, bem-estar, lazer, educação e cultura.

Contato
Email: [email protected]
Sites: 082noticias.com/vanderlei-tenorior l tribunadosertao.com.br/author/vanderley
Facebook: vanderlei.tenoriopereira
Twitter: @VanderleiTenor1
Linkedin: Vanderlei Tenório