Autoconhecimento

Crianças com comportamento agressivo

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Como lidar com este tipo de sofrimento psíquico.

Aquele bebê bonzinho e sorridente, que encanta a todos com suas gracinhas, de repente transforma-se e os pais não reconhecem mais o filho. Por volta dos dois ou três anos, meninos e meninas começam a apresentar comportamentos inadequados. O comportamento agressivo é um sofrimento psíquico. Os transtornos mentais podem ter início ainda na infância. Como a criança ainda não possui elementos básicos de comunicação, vocabulário e capacidade de encandear ideias, ela enxerga na agressividade uma linguagem para expressar suas necessidades, muitas vezes imperceptíveis pelos adultos. É um pedido de socorro, esclarece a psicóloga Eliana de Barros Santos.

A agressividade infantil tem várias explicações. Com a separação dos pais, a criança pode sentir que perderá o afeto de ambos. A chegada de um irmão também reforça esse sentimento. Crianças sem limites ficam desconcertadas ao receberem um não, e recorrem à violência para expressar seu descontentamento. No futuro, as rédeas frouxas na criação terão como resultado adolescentes e adultos arrogantes e inseguros. Outro fator a ser observado é o comportamento de pais e cuidadores. Expor a criança a situações de estresse como ataques de raiva e agressões físicas e verbais transmite a sensação que eles são normais, e que devem ser utilizados sempre que houver necessidade.

Crianças que são submetidas a maus tratos físicos, psicológicos e sexuais provocam traumas muitas vezes irreparáveis. Elas enxergam na agressividade a única forma de pedir socorro e expressar que algo está errado.

Outros fatores

A psicóloga Ginette Dionne, da Universidade Laval (Québec, Canadá) destaca que 60 a 80% das crianças em idade pré-escolar e escolar, cujo desenvolvimento da fala foi lento apresentam traços de agressividade. A incapacidade de comunicação, enquanto seus pares se desenvolvem como o esperado causa frustração, e a maneira encontrada para se defender das eventuais gozações dos colegas é a agressão.

O comportamento da mãe ainda na gestação também influencia. Em estudo publicado em 2008, o psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal (Canadá) relata que os casos de agressão protagonizados por 1745 crianças entre 17 e 42 meses tem um ponto em comum, as mães fumaram 10 ou mais cigarros por dia durante a gravidez. Tremblay relaciona o tabagismo ao desenvolvimento cerebral do feto. Os efeitos do fumo são potencializados se a família tiver baixa renda ou se mãe apresentar histórico de comportamento antissocial.

Refrigerantes também estão associados ao comportamento agressivo. Segundo estudo realizado pelos pesquisadores Universidade de Columbia, Vermont e Harvard com 2929 crianças de cinco anos, 43% das mães confirmaram que os filhos consumiam um copo de refrigerante por dia e 4% relataram consumo superior a quatro copos. Igualmente aos efeitos do fumo, o efeito dos refrigerantes é potencializado se a situação socioeconômica da família for vulnerável. Vale ressaltar que os pesquisadores não excluem os refrigerantes diets.

Televisão, videogame e computador

Televisão não provoca comportamentos agressivos, contudo, palavrões e cenas de violência podem contribuir para crianças que ainda estão em fase de desenvolvimento. A exposição exagerada a esses dois veículos afetam a capacidade de concentração das crianças. De acordo com estudo realizado sob supervisão de Bob Hancox, da Universidade de Otago (Nova Zelândia), as crianças que assistem televisão por menos de duas horas não correm riscos de sofrerem transtornos de atenção na adolescência. Porém, o risco aumenta para 44% naquelas que passam três ou mais horas diante da televisão. O estudo concluiu que os constantes estímulos da televisão transmitem as crianças que a vida pareça monótona.

A pesquisa realizada pela Universidade de Otago não avaliou os efeitos dos videogames e computadores. Mas, a instituição acredita que sejam os mesmos, pois, ambos apresentam as mesmas imagens estimulantes. Segundo os pesquisadores, o limite aceitável de duas horas para o “ócio audiovisual” deve incluir todas as formas. Se jogar videogame por uma hora, não é recomendável que assista televisão por mais de uma hora.

Cuidado com as birras


Pais e cuidadores precisam tomar cuidado para não ceder às birras. Isso é reforçar a ideia que força, grito e agressividade são os caminhos para alcançar nossos objetivos. O comportamento na escola também precisa ser observado. É fundamental ir à escola quando o professor, coordenador pedagógico ou diretor relatar condutas inapropriadas. Xingar e bater em colegas jamais  deve ser visto como “coisa de criança”. Tampouco incentive a criança a usar desses artifícios para se defender. Se os responsáveis presenciarem uma briga no ambiente escolar, separe as crianças e explique dar tapas e socos, além de não resolver nada, ainda fará com que alguém saia machucado. Use a mesma tática se a briga for entre irmãos.

Agressividade x energia

É comum os pais e cuidadores de crianças com comportamento agressivo ouvirem “chutar e bater é normal, logo passa”. Não tomar nenhuma atitude em relação a isso é estimular um padrão autodestrutivo. Porém, muitos não sabem diferenciar agressividade de energia. Listamos seis características comuns da agressividade infantil.

  • Aparenta ser desorganizado, porém, sabe o que deveria ter feito e onde estão suas coisas;
  • Fazer promessas e não cumpri-las. Se questionado, foge do assunto ou responde de maneira vaga;
  • Tenta atrapalhar o dia a dia da família;
  • Fica irritado quando alguém se mostra insatisfeito com seu comportamento;
  • Reclama ou coloca em dúvida a autoridade dos pais e/ou cuidadores.
Escala da agressividade infantil
  • Desobediência: A criança ouve a bronca passivamente, ou então, reage fazendo exatamente o contrário do que foi pedido;
  • Mentira: Começa após os três anos. A criança mente para reduzir ou suspender a punição. Ela também mente para obter vantagens, simula doenças para não ir à aula e ser paparicada, por exemplo.
  • Fuga: Crianças de dois ou três anos podem tentar “escapar” de casa para ir a outro lugar. Porém, elas não têm consciência que isso é uma transgressão;
  • Destruição: A agressividade é transferida para os objetos.  Crianças agressivas tendem a quebrar o que veem pela frente;
  • Crueldade: Movida pelo prazer do sofrimento alheio (pessoa ou animal). Quanto mais nova for a criança, mais graves serão as consequências dessa atitude.

Manfred Cierpka, da Universidade de Heidelberg (Alemanha) relata que acessos de raiva fazem parte do desenvolvimento infantil, entretanto, pais e cuidadores precisam ficar atentos a periodicidade. Mais de cinco ataques de raiva por dia, onde os adultos têm enorme dificuldade em acalmar e até mesmo segurar os pequenos pede intervenção profissional. Quando as crianças começam a destruir objetos, ferir a própria pele, bater a cabeça na parede e gerar sofrimento a pessoas e animais é hora de procurar um psicólogo infantil. O ambiente, a forma de falar, o tom de voz e as palavras usadas pelo psicólogo devem transmitir a criança que ela pode expor seus sentimentos.

O treino em autoinstrução foi desenvolvido nos anos 70 por Donald Meichenbaum. É usado no tratamento das crianças agressivas e hiperativas. Nessa técnica, a criança aprende a orientar seu comportamento, tendo o terapeuta como modelo a ser seguido. É realizada uma atividade simples. A metodologia foi criada e usa uma atividade simples, apontar um lápis para funciona da seguinte maneira:

  • O terapeuta aponta o lápis enquanto fala para si mesmo, em voz alta os passos para executar a tarefa corretamente;
  • A criança repete a ação, sob as orientações do terapeuta;
  • A criança torna a apontar o lápis enquanto diz em voz alta como deve realizar a atividade;
  • A criança desenvolve a tarefa e murmura as instruções para si (instruções disfarçadas);
  • A criança guia sua atividade por intermédio de autoinstruções internas (autoinstruções disfarçadas).

As verbalizações têm os seguintes propósitos: definir o problema (o que tenho que fazer?), guia da resposta (como tenho de fazê-lo?), autorreforço (estou fazendo muito bem!) e autocorreção (tudo bem, posso ter errado nisso, mas posso continuar, com calma).

Agressividade x TDAH

Caso o psicólogo encontre sinais de dificuldade para organizar tarefas, dificuldade de manter a atenção, fala em excesso, responde as perguntas antes da conclusão ou veja que a criança se remexe na cadeira ou corre de um lado para o outro, são indícios do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O profissional irá submeter à criança a um questionário. Exames clínicos irão confirmar ou não o diagnóstico.

Como tratar a agressividade?

shutterstock_279777245Além do psicólogo, é recomendável que a criança com comportamento agressivo também seja acompanhada por um psiquiatra. Em casos que precisarem de remédios, as recomendação para os menores de cinco anos são os remédios fitoterápicos. Os fitoterápicos são remédios industrializados produzidos com suco, cera, óleo e extrato de plantas medicinais. Camomila, lavanda, casca de laranja amarga, melissa, sálvia, calêndula, alcaçuz, hamamélis e funcho são as ervas mais utilizadas na fitoterapia infantil.

As crianças maiores tomam medicações antidepressivas.  Estes são receitados levando em consideração o peso, altura, índice de gordura e também resultados dos seguintes exames: bioquímicos, hemograma, glicemia, dosagem de prolactina, função renal, enzimas pancreáticas e hepáticas, eletrocardiograma e eletroencefalograma. Esses exames devem ser repetidos a cada seis a oito meses.

Os medicamentos mais utilizados são os estabilizadores de humor, substâncias para a manutenção estabilidade do humor, não sendo necessariamente antidepressivos ou sedativos. O carbonato de lítio costuma ser prescrito para crianças com comportamento agressivo. A substância potencializa antidepressivos e também agressividade trata a depressão, transtorno bipolar e alguns tipos de enxaqueca. O carbonato de lítio possui os seguintes efeitos colaterais:

  • Retenção de líquidos, por isso a importância de tomar bastante água e praticar atividades físicas;
  • Tremor, pernas bambas e fraqueza muscular.
  • Diarreias e vômitos;
  • Diminuição da função tireoide é rara, e vem após meses ou anos de tratamento, geralmente ocorre em pacientes que têm casos de hipotireoidismo na família.

Porém, o acompanhamento com psicólogo e psiquiatra não faz milagres. A família possui papel importantíssimo na manutenção e sucesso do tratamento. Veja algumas dicas para lidar com crianças agressivas:

  • Sem desespero: Não aja com desespero, do contrário, você vai brigar com a criança e reforçar o comportamento;
  • Determine regras: Comunique claramente o que não pode ser feito e por quê, diga que bater causa dor. Deixe claro a criança que o não cumprimento das regras trarão consequências imediatas, por exemplo, não deixe ela assistir ao desenho que ela mais gosta no dia da desobediência;
  • Não bata: Palmadas e chineladas aumentam a agressividade da criança, pois, reforça a ideia de que a violência é o caminho para lidar com quem não correspondem as nossas expectativas;
  • Ensine a lidar com a raiva: Mostre a criança que ela pode descarregar a raiva, ou energia acumulada fazendo coisas úteis, como brincar, dançar, ou na prática de qualquer esporte;
  • Elogios: Quando a criança conseguir controlar a raiva, faça elogios. A motivação vai dar força para ela continuar tendo atitudes positivas;
  • Demonstre carinho: O comportamento agressivo é um pedido de socorro. Muitas vezes, a criança sente que não é amada. Demonstre que se preocupa com ela. Não economize abraços e beijos.

Ignorar brigas, agressões verbais, destruições de objetos e autoagressões aumentarão o sofrimento da criança, e acionará mais problemas na vida dela. Quando uma criança apresenta comportamentos agressivos, pais e cuidadores devem procurar o orientador pedagógico da escola, a fim de verificar qual a conduta com colegas e professores. Siga a recomendação e procure um psicólogo. Este vai analisar o comportamento da criança, mas, a família também estará no radar. As atitudes dos pais ou cuidadores podem falar muito sobre a personalidade infantil.

Crianças agressivas podem tornar-se dependentes de drogas. Como elas têm acesso às drogas cada vez mais cedo, bebidas, cigarros e drogas ilícitas, elas serão vistas por esses menores como novas possibilidades de preencher vazios e trazer conforto. O consumo dessas substâncias não resolverá seus conflitos psíquicos e reforçarão a agressividade.

Diálogo e carinho são importantes. Através do diálogo, pais e filhos entram em sintonia e aprendem um com o outro. Pais e cuidadores conversem mais com suas crianças. Falem o quanto vocês se importam. Escute o que elas têm a dizer e caso necessário, oriente. Crianças que enxergam suas casas como um refúgio e seus pais ou responsáveis como protetores dificilmente vão adotar condutas agressivas.

Repense seu comportamento, como você se comporta com as crianças. Não faça discursos vazios, dê bons exemplos. Bons adubos geram plantas saudáveis.


  • Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras

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