Autoconhecimento

Dependência afetiva. Você tem?

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Oque não falta neste mundo é vício. Na compulsão alimentar, o indivíduo é movido pela ansiedade. A comida preenche as lacunas da sua alma. O compulsivo come “com os olhos”. Ele ataca a geladeira de madrugada, longe dos olhos dos familiares ou cônjuge. O prazer sentido logo dá lugar a vergonha. Vergonha pela impotência por ser uma pessoa frustrada. Vergonha por ser impotente.

Vivendo em uma era tão consumista, comprar é visto como sinal de status. Porém, as coisas podem sair de controle. Na compulsão por compras, o cartão de crédito é a cura. Mesmo não gozando de plenitude financeira, a pessoa compra como se não houvesse amanhã. Privações na infância ou problemas emocionais estão por trás desta doença. A satisfação vai pelo ralo quando chegam as faturas. Ter o nome incluído na lista de maus pagadores e perder bens são algumas das consequências.

Os viciados em jogos não medem esforços para obterem satisfação. Apostam joias, carros e imóveis. Nos casos mais bizarros apostam até mesmo pessoas da família. Atualmente, os inocentes jogos de celular e computador tiram as pessoas da realidade. Elas passam dias e noites acordadas para conseguirem “vidas” e ultrapassarem fases. Aliás, o nome de um famoso lanche foi inspirado no vício por jogos. No século 18, Sandwich era o nome do distrito no município de Kent. John Montagu, o conde de Sandwich adorava jogos de carta. Para não ser interrompido, ele ordenava aos cozinheiros que servissem fatias de carne entre duas fatias de pão torrado.

O sexo também pode ser uma compulsão.
A doença atinge, em 95% dos casos, homens a partir dos 30 anos. O compulsivo sexual satisfaz seus instintos custe o que custar. O doente se masturba incontáveis vezes por dia, sai em busca de parceiros em qualquer lugar e recorre a prostituição. Não raro, se expõe a doenças sexualmente transmissíveis. Com isso, sua vida social, pessoal e familiar é prejudicada. Entretanto, a sociedade costuma ver com bons olhos o homem que tem alta rotatividade sexual. Já as mulheres compulsivas são tachadas de “sem vergonha”.

Antigamente, fumar era muito charmoso. Os astros e estrelas do cinema hollywoodiano fumavam. Nos filmes e na vida real. O rebelde James Dean aparece fumando em vários filmes. As musas Brigitte Bardot e Audrey Hepburn também. As propagandas de cigarros eram associadas à virilidade, ao esporte e a sofisticação. Existiam eventos musicais atrelados as marcas. Três garotos propaganda de uma das maiores fabricantes morreram em decorrência de doenças pulmonares. Hoje, o fumo é condenado. Muitas cidades brasileiras possuem leis antitabaco. Em alguns distritos de Tóquio não pode fumar nas ruas. Várias praias californianas o fumo é vetado.

Os médicos recomendam uma taça de vinho diariamente. Uma caipirinha de vez em quando não faz mal. Porém, a bebida pode acabar com a vida. Muitos alcoólatras começam a “beber socialmente” ainda adolescentes e logo perdem o controle. Nos casos mais graves, o dependente bebe perfume, desodorante, álcool etílico e até mesmo urina, pois, a bebida é eliminada através dela. O alcoolismo provoca atrofia cerebral, destrói o fígado. Assim as propagandas de bebidas são atreladas a um estilo de vida jovem e descolado.

Os dependentes químicos às vezes têm o primeiro contato ainda na infância. Geralmente, a primeira droga é a maconha. Em pouco tempo, o viciado parte para drogas mais violentas. No intuito de sustentar o vício, o doente furta objetos dos familiares e amigos. É comum vermos histórias de quem se prostitui para conseguir mais drogas. Perda dentária, comprometimento do sistema respiratório e morte dos neurônios integram a infinita lista dos malefícios físicos. Não há distinção entre cor, classe social ou idade. Qualquer pessoa, qualquer pessoa mesmo pode tornar-se um dependente químico.

Viciados em amor
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Para muitos, o amor é uma droga.

Assim como o jogador que passa noites em claro e o alcoólatra que bebe perfume, viciado em amor faz tudo para viver este sentimento. Já parou para pensar na sua amiga que continua com um namorado que só a joga para baixo? Na pessoa que faz tudo para ter atenção dos amigos? Indivíduos assim são emocionalmente instáveis. São incapazes de enxergar qualquer qualidade pessoal. Dependem dos outros para rigorosamente tudo. Submissos, vivem pelo e para o outro.  Quem não suporta ficar sozinho e topa qualquer negócio por uma companhia é um dependente afetivo. A este quadro chamamos dependência afetiva.

Dependência afetiva: origens

O que recebemos na infância reflete em nosso futuro. Crianças que foram respeitadas e amadas tornam-se adultos confiantes. Os pais precisam prestar muita atenção ao que dizem e fazem. Pedir mais empenho do filho na escola é uma coisa. Pegar o boletim e falar que o filho é burro é uma violência. Distinção entre filhos é igualmente agressivo. Ser carinhoso com um filho e frio com o outro causa danos emocionais gravíssimos.

Estas crianças procuram nos amigos o que não encontram em casa. Porém, por serem extremamente tímidas e complexadas, não conseguem se enturmar. Elas são vistas como esquisitas pelos colegas que começam a expor esta criança já tão fragilizada ao ridículo. O emocional delas está comprometido a tal ponto, que elas aceitam as gozações para sentirem-se dentro de um grupo.

Características de um dependente emocional

  • Sente enorme desconforto em quando estão sozinhos
  • Dificuldades em tomar decisões sozinho
  • Dificuldade para discordar do outro
  • Não conseguem iniciar projetos por medo da desaprovação
  • Quando seus relacionamentos amorosos terminam, não sossegam ate encontrar outra pessoa
  • O medo de ficar sozinho tira o sono
  • São capazes de loucuras para não perderem a companhia
A vida adulta de um dependente afetivo

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Ao analisarmos um dependente afetivo, veremos pelo menos uma dessas situações. A pessoa passa a vida perseguindo o amor e a amizade para compensar a solidão. Por acreditar que é inadequada, ela aceita migalhas para compensar o vazio que vem desde a infância. A falta de amor próprio coloca o dependente afetivo em situações de abuso. Quem identifica este comportamento, aproveita-se dele para obter vantagens. O dependente é capaz de assumir o lugar do outro em tarefas chatas do cotidiano para ser “recompensado” com a amizade do seu abusador.

Quando o dependente afetivo tem filhos, ele quer fazer tudo diferente. Nisso, torna-se extremamente protetor. Não mede esforços para o bem-estar da criança. Fala que ama a cada cinco minutos, faz todas as vontades, mesmo que comprometa o orçamento e trava uma guerra com quem ousar falar mal. O resultado não é bom. A criança fica muito mimada, voluntariosa e passiva. Exige que seus desejos sejam prontamente atendidos, arma um escândalo se isso não acontecer e não consegue dar um passo sozinha. A tentativa de ser uma mãe ou pai melhor sai pela culatra. É o embrião de outro adulto frustrado.

Mulheres que amam demais

O problema afeta muito mais as mulheres. Elas também não receberam atenção e amor na infância. Não conseguiram encontrar alento nas amizades. O tiro de misericórdia foi encontrar o príncipe encantado. Os relacionamentos amorosos são marcados pelo medo de ficarem sozinhas. Quando levam um “pé na bunda” entram em pânico e grudam em qualquer pessoa que demonstre um pouco de atenção.

Entretanto, o grau da dependência pode atingir níveis ainda mais patológicos. A novela Mulheres Apaixonadas, exibida em 2003 abordou o assunto. A personagem Heloísa, vivida pela atriz Giulia Gam submeteu-se a uma laqueadura para não dividir o amor do marido com uma criança. O ciúme chegou às raias da violência. Ela esfaqueou o marido após uma discussão. As irmãs convenceram Heloísa a frequentar o grupo MADA (Mulheres que amam demais anônimas). O grupo surgiu no Rio de Janeiro e está presente em São Paulo, Curitiba e Taguatinga (Brasília).

O MADA funciona como os “alcoólicos anônimos”. As participantes reúnem-se e dividem suas experiências. Um dos princípios do grupo é “admitimos que éramos impotentes perante os relacionamentos e que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”. Para incentivar as mulheres a continuarem a frequentar as reuniões, são dadas fitas conforme o tempo de participação. As novatas recebem uma fita branca. Quem está no MADA há 15 anos ganha uma fita amarela clara.

Sintomas de mulheres que amam demais

  • Desejam exageradamente ter um parceiro
  • O término de um relacionamento é um trauma
  • Não sossegam até encontrar um novo parceiro
  • Esquece os elogios que recebem e super valorizam as críticas
  • A vida é baseada exclusivamente em fatores externos
  • Passa a vida esperando pelo homem dos sonhos e pela amiga perfeita
  • Tem picos depressivos, ira, culpa e ressentimentos
  • Ataques de violência contra si e contra os outros
  • Sente ódio de si mesma e consegue justificá-los
Encontrar-se consigo

Não saber nosso papel no mundo. A sombra ao nosso redor barra a luz. Um coração vazio aprisiona. Uma mente distorcida amordaça. Uma essência pisoteada pelo desamor faz rastejar. Quando a alma está doente e o amor torna um vício, a terapia é o caminho para um grande encontro: você com você. O psicólogo trabalha os seguintes conceitos:

1) Assumir a dependência

O primeiro passo para qualquer dependente é assumir o vício. Dessa forma, fica mais fácil aderir ao tratamento.

2) Identificação das qualidades

Aqui o psicólogo resgata as conquistas do paciente. O dependente enxerga suas qualidades. Este encontro promove a autoestima. As limitações começam a ser vistas como pontos a melhorar e não como uma sentença do destino.

3) Assumir as rédeas da vida

O paciente toma para si o controle da sua vida. Assume responsabilidades pelos seus atos. Aprende a falar não e encerrar comportamentos destrutivos. A pessoa trilha um caminho e o segue com a cabeça erguida.

4) Consciência da personalidade

Cada indivíduo possui uma personalidade. Cada pessoa é um universo diferente. Algumas pessoas são mais expansivas. Outras são mais introspectivas. Dentro dessas variantes, os relacionamentos possuem nuances distintas. Não importa o número de amigos, nem de namorados. Se é extrovertido ou tímido. Cultivar uma rede de relacionamentos é importante para a saúde mental e física.

5) Estabeleça metas

Todos nós precisamos de metas. Quem é viciado em amor tem como objetivo encontrar sua essência. Quando temos objetivos a cumprir, ganhamos força para acordar e andar com a cabeça erguida.

6) Desintoxicação

Aqui, a pessoa aprende a viver a própria vida. As pessoas ao redor perdem o ar de “essenciais para existência” e ganham o status de “companheiros de jornada”.

Conversar com alguém de fora ajuda a clarear as ideias. O profissional resgata as pendências que tornaram o indivíduo um dependente afetivo. Neste processo, o paciente descobre suas qualidades, aprende a superar as limitações e cuidar das feridas. A pessoa interrompe comportamentos destrutivos e impede abusos de pessoas manipuladoras.

É difícil encontrar quem não tenha expectativas irreais sobre o outro. Mesmo quem não apresenta os sintomas citados, vez ou outra espera por pessoas mágicas que as livrará de todo o mal. Podemos nos decepcionar por não sermos correspondidos. Não é pecado querermos ter amigos ou viver relacionamentos amorosos. Redes de relacionamentos, como já dissemos é ótimo para a saúde psicológica e física. Entretanto, cada um é responsável pela sua felicidade.

Não implore por amizade. Não se rasteje por amor. Nenhum ser humano merece se humilhar para não ficar sozinho.
Não nascemos para viver na sombra de ninguém. Vivemos para caminharmos sob e para a luz. Amizades e relacionamentos amorosos são naturais. Uma energia promove encontros e os mantém. O verdadeiro amor é troca. Não precisamos dar outra coisa, além de amor. Nunca se esqueçam disso.

A Oração da Serenidade, cuja primeira versão é creditada ao filósofo romano Boecio (480-524), autor do livro Os consolos da filosofia é utilizado no MADA e em vários grupos de apoio a dependentes químicos. Até mesmo quem não possui vícios pode adotá-la como um lema de vida. Se você conhece esta oração, passe-a adiante. Você fará muito bem a pessoa. A Oração da Serenidade,  é uma bela reflexão.  

Oração da Serenidade

Concedei-nos, Senhor,
a serenidade necessária para aceitar
as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos e
Sabedoria para distinguir umas das outras.
Só por hoje!


  • Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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