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Jogos teatrais e a educação para a sustentabilidade

Atores no palco ensaiando
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Escrito por Carolina Rodrigues

A palavra “teatro” originou-se do grego “théatron”, significando “lugar de onde se vê”, contemplando tanto os acontecimentos da Vida quanto o olhar para dentro, “olhar a si mesmo”. Na língua nativa africana não há correspondência para a palavra “teatro”, e sim uma equivalente: “nyogolon” (“nos conhecer”). Ir ao nyogolon significa, para o africano, aclarar a visão, ver o invisível. Nessa perspectiva, experienciar o teatro é se colocar em constante contato consigo mesmo e com o outro, ampliando percepções e a visão de mundo. O teatro torna o homem pleno ao transformá-lo, ao reintegrá-lo a si mesmo. Em suma, podemos ressaltar que a Arte – destacando-se aqui teatro – exige e promove o comprometimento com a Vida, reconectando-nos ao nosso eu interior e, por extensão, ao Universo ao nosso redor.

Viola Spolin ensina que o ser envolto pela Arte teatral se mantém no mundo de percepção, aberto a todos os estímulos que o ambiente oferece, mergulhado e penetrado organicamente nele. Os jogos teatrais são maneiras naturais de permitir essa experiência. Neles, uma unidade do todo se amplia para o todo; o sentido do eu é despertado e transcendido.

Dessa forma, quando pensamos em uma educação voltada para a transformação de nossas relações com o Planeta — uma educação para a sustentabilidade — não poderíamos deixar de recorrer à arte-educadora Viola Spolin, a quem podemos considerar uma educadora ambiental. A autora explica que a aprendizagem ocorre pela experiência que se dá no envolvimento pleno, orgânico, entre o indivíduo e o ambiente que o permeia, principalmente ao nível do intuitivo, da espontaneidade.

Nos jogos teatrais — guiados geralmente por únicas regras simples que orientam o foco dos jogadores — a resolução dos problemas apresentados é conduzida por meio de três questões básicas colocadas aos jogadores: “Quem sou eu?” (papel que represento), “onde estou?” (meu lugar) e “o que estou fazendo?” (minha ação) em relação ao foco de atenção. Saber quem se é, onde se está e o que se está fazendo proporciona uma rica experiência pessoal que conecta o ser ao todo. Na Vida, pensar nessas questões pode não ser tão fácil quanto parece, uma vez que vivemos imersos em ambientes, olhares e corpos fragmentados, o que nos desconecta totalmente de nossa dimensão Natural e ecológica! Buscamos, então, alguns autores que nos auxiliassem nessa construção no que se refere a cada uma das três perguntas trazidas pela arte-educadora em relação à educação para sustentabilidade.

Atores ensaiando em um palco
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A professora Ivana Ribeiro aborda a educação para a sustentabilidade do ponto de vista de “quem sou eu?”. Na tentativa de entender o que motiva as pessoas a buscarem paz e sustentabilidade, concluiu que o primeiro passo desse caminhar é o autoconhecimento, ou “conheça-te a ti mesmo!”, abordando a temática socioambiental a partir do ambiente mais próximo do ser humano: seu corpo&alma.

Encontramos no entendimento da psicóloga Monica Serra a mais amorosa complementação para o “onde estou?”, diretamente relacionada à educação. Saber onde estamos nos situa no mundo, faz-nos sentir pertencentes ao todo. Para Serra, essa noção se dá a partir da expansão da nossa consciência para além do nosso corpo e do miniterritório existente ao seu redor — nossa cinesfera — à unidade com o Todo.

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Finalmente, “o que estou fazendo” nos remete às nossas ações, que devem ser coerentes com o que somos e onde estamos. É do físico Fritjof Capra, que diz que nos nutrimos para alinharmos a terceira questão de Spolin à temática ambiental. Embasado pela filosofia chinesa, criou o conceito de “eco-ação” para designar atividades conscientes e em harmonia com a Natureza. Essas atividades, segundo o autor, estão diretamente relacionadas à intuição, concretizando-se em ações de cooperação, espiritualidade, conservação e integração que complementam as ações no campo da “ego-ação” focada na consciência do eu. A “eco-ação” e a “ego-ação” se complementam no entendimento de uma visão holística de mundo, que o considera em função da interdependência entre todos os fenômenos existentes. As “ego-ações” são evidentemente mais privilegiadas em nossa cultura, o que pode ser considerado a origem dos desequilíbrios ecológicos.

Resgatar essas 3 questões básicas e simples — “quem eu sou?”, “onde estou?” e “o que estou fazendo?” — tanto para si mesmo quanto para seus alunos, seus filhos e companheiros pode orientar e EDUCAR nossa AÇÃO perante a Vida, garantindo a sustentabilidade em nossas relações. Tornar o teatro forma de aprendizagem para a Vida é educar sob a perspectiva do Artístico, algo que já era realizado quando o saber era transmitido pelo contato, pela afetividade, pela prática, pela inteireza. Um saber livre disseminado pela brincadeira e pela roda, que foi se perdendo ao longo de nossa história e que precisa ser valorizado.

Sobre o autor

Carolina Rodrigues

Olá! Sou Carolina, uma sonhadora desde pequena. Pés descalços, no chão, cabeça nas nuvens. Sonhava com um mundo em que todas as pessoas fossem felizes, amigas e borboletantes. Fui crescendo e percebi que a Educação seria esse caminho. Ingressei na faculdade de Ecologia, sedenta por saber mais sobre Educação Ambiental e resgatei aí a possibilidade de tecer a Arte, a dança, a autoeducação como revoluções no mundo!

Deparei me com a Arteterapia, facilitei rodas de Danças Circulares e integrei projetos de formação de educadores pelas vias do autoconhecimento e da arte teatral.

A maternidade me impulsionou ainda mais a colocar meus projetos no mundo.

Com Cauê nasceu o Dá Tua Mão, que foi germinando do conto "A Dança de Um Um Lugar Chamado Flores" até tornar-se um Jardim em Flor.

Hoje me dedico à jardinagem de corações e à partilha daquilo que floresce do meu coração para aqueles que acolherem minhas palavras.

Gratidão!

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