Nos últimos meses, um fenômeno tem ganhado força nas redes sociais brasileiras: pessoas compartilhando publicamente experiências negativas com seus psicólogos. Um vídeo recente no TikTok acumulou 50,8 mil curtidas e 3.228 comentários. O relato? Uma mulher que descobriu, após sete anos de terapia, que sua psicóloga mantinha contato secreto com seus pais e havia compartilhado informações confidenciais sobre suas sessões sem autorização.
Nos comentários, uma enxurrada de histórias similares. “A minha ex psico simplesmente chamou minha mãe na sala e começou a falar mal de mim. EU TINHA 25 ANOS”, escreveu uma usuária. Outra relatou: “Sou autista e fui atrás de uma psicóloga para me ajudar nessa parte. Na primeira consulta, ela me falou ‘vocês tem que esquecer que é autista e agir normal como as outras pessoas’. Nunca mais voltei.” Este comentário recebeu 912 curtidas.
Trabalho com marketing para terapeutas desde 2015. Ao longo desses dez anos, atendi dezenas de psicólogas e psicólogos, criando estratégias de conteúdo, gerenciando redes sociais e desenvolvendo posicionamento de marca. A experiência me colocou em uma posição peculiar: observar de perto como esses profissionais se comportam nos bastidores, longe dos olhos de seus pacientes.
O que percebi gera inquietação.
Direto ao ponto
A observação repetida
Existe um padrão que se repete com frequência notável. Profissionais que passam o dia orientando pacientes sobre flexibilidade cognitiva, escuta ativa e regulação emocional frequentemente demonstram rigidez extrema quando o assunto é o próprio trabalho. Qualquer sugestão de mudança em abordagem de conteúdo é recebida como ataque pessoal. Feedbacks sobre estratégias são interpretados como desvalorização de sua expertise. Propostas que exigem sair da zona de conforto esbarram em um “isso não está alinhado com meus valores”, frase que, na prática, funciona como bloqueio para qualquer transformação.
A ironia é evidente. As mesmas pessoas que cobram de pacientes a capacidade de lidar com frustrações, aceitar críticas construtivas e desenvolver autoconhecimento parecem incapazes de aplicar isso em suas próprias vidas profissionais.
Nem todos os profissionais agem assim. Existem terapeutas excepcionais, éticos e comprometidos. Mas os casos problemáticos são numerosos o suficiente para formar um padrão reconhecível e barulhentos o suficiente para marcar a percepção geral.
O que a pesquisa mostra
A literatura acadêmica confirma parte dessas observações. David Burns, psiquiatra da Universidade de Stanford e figura central no desenvolvimento da Terapia Cognitivo-Comportamental, conduziu pesquisas que revelaram um dado desconfortável: as percepções dos terapeutas sobre como seus pacientes se sentem e como os pacientes avaliam o terapeuta têm menos de 10% de acesso à realidade. Em outras palavras, a maioria dos terapeutas acredita estar ajudando muito mais do que efetivamente está.
Burns não sugere que a terapia seja inútil. Pelo contrário, ele é otimista sobre o potencial terapêutico. Mas alerta para um problema específico: o ego do terapeuta frequentemente sabota o processo. Conhecimento sobre mecanismos de defesa pode virar apenas mais uma camada de proteção. “Ah, sei que estou projetando aqui”, “Isso é minha sombra”, “Reconheço minha resistência”, o reconhecimento intelectual não necessariamente leva à transformação.
Um artigo publicado no site Chris Lindsay Counselling discute como terapeutas podem cair na armadilha da arrogância profissional, usando jargões desnecessários e assumindo uma postura de detentor exclusivo do conhecimento. Quando alguém passa tanto tempo no papel de quem escuta, acolhe e orienta, desenvolve dificuldade em processar questionamentos ou críticas. A pessoa está acostumada a ser a detentora do saber naquela relação. Quando essa dinâmica se inverte, o ego frequentemente não suporta.
O ambiente protegido e suas consequências
O espaço terapêutico oferece condições que podem alimentar essa dinâmica. O terapeuta tem controle total da sala, do tempo, da estrutura da conversa. Não existe réplica imediata, não existe confronto direto no sentido tradicional. Essa configuração, embora necessária para o trabalho terapêutico, pode criar uma bolha onde o profissional não desenvolve tolerância à frustração ou capacidade de lidar com discordâncias.
Muitos profissionais entraram nessa área, ao menos em parte, para trabalhar as próprias feridas emocionais. Isso não é um problema em si. Torna-se problemático quando não há trabalho pessoal contínuo e honesto. As feridas não resolvidas viram pontos cegos enormes. A pessoa se torna especialista em diagnosticar os outros, mas não consegue enxergar as próprias rigidezes.
O que está acontecendo nas redes sociais
O TikTok e o Instagram se tornaram espaços onde ex-pacientes compartilham experiências que antes ficavam restritas a conversas privadas. Os relatos vão além de insatisfações vagas. São denúncias de condutas objetivamente antiéticas:
Psicóloga que perdeu a ficha do paciente na segunda consulta e o fez repetir toda a história do zero. Psicóloga que, ao ouvir sobre o diagnóstico de câncer no gato da paciente, estava tirando esmalte da unha com cara de paisagem. Profissional que passou uma sessão de terapia de casal inteira validando apenas um dos lados. Terapeuta que convidou a paciente para morar junto. Psicóloga que, ao ser interrompida pelo paciente, soltava “eu ainda não terminei de falar” e seguia falando exclusivamente sobre a própria vida.
Um comentário com 235 curtidas: “Eu desisti da minha porque mudei de cidade, passei a ficar online e percebi que ela não estava prestando mais atenção, até que uma vez vi pelo reflexo do óculos dela que ela estava no Instagram.”
Outro, com 1.994 curtidas: “Eu estava com problemas no trabalho, fui contar para a minha psicóloga e ela soltou: sou muito amiga do seu gerente, não acho que ele seria capaz disso. Ele é uma pessoa maravilhosa! Saí da terapia e da empresa. Dois anos depois, ele foi demitido por justa causa pelos motivos que me adoeciam.”
Um dos comentários mais reveladores recebeu 1.676 curtidas: “Eu não confio em psicólogo nenhum, sei lá.”
Por que isso não aparece nos canais formais
Esses relatos raramente chegam aos Conselhos Regionais de Psicologia como denúncias formais. Existem várias razões para isso. Muitas pessoas sentem vergonha, acreditam que não serão levadas a sério ou temem retaliação. Outras simplesmente desistem da terapia e seguem em frente, guardando a experiência ruim para si.
O processo de denúncia formal exige documentação, coragem para formalizar por escrito e disposição para enfrentar um procedimento burocrático. É mais fácil compartilhar anonimamente nas redes sociais e encontrar validação imediata de dezenas ou centenas de pessoas que viveram situações parecidas.
Esse movimento nas redes não é apenas desabafo. Representa uma mudança na relação de poder entre terapeuta e paciente. A figura do profissional como autoridade inquestionável está sendo desafiada. As pessoas estão comparando experiências, identificando padrões e concluindo que certos comportamentos não são aceitáveis, independentemente do diploma na parede.
O lado positivo da exposição
A Dra. Nicole Arcuri-Sanders, em artigo publicado no site Psychotherapy.net, admite algo raro: “Quanto mais reflito sobre minhas reações, mais percebo que elas têm mais a ver com meu próprio ego do que com os pacientes e seu progresso. Cada vez que encontro um paciente que busca ajuda, mas a rejeita, quero ouvir que ele usou as habilidades oferecidas e sua vida melhorou por causa delas. Quero isso não apenas porque desejo que vivam vidas mais felizes e autênticas, mas também porque significaria que fui bem-sucedida de alguma forma.”
Essa honestidade é importante. Reconhecer que o ego do terapeuta interfere no processo é o primeiro passo para lidar com o problema.
A crescente exposição nas redes sociais pode, paradoxalmente, melhorar a qualidade do atendimento terapêutico. Quando os profissionais sabem que pacientes têm plataformas para compartilhar experiências, a pressão por comportamento ético aumenta. O medo de ver o próprio nome (mesmo que velado) em um vídeo viral pode funcionar como controle social que os conselhos de classe, sozinhos, não conseguem exercer.
O que os profissionais podem fazer
Primeiro, reconhecer que ter conhecimento teórico sobre psicologia não torna ninguém imune a padrões disfuncionais. Intelectualizar um problema não é o mesmo que transformá-lo.
Segundo, buscar supervisão constante e terapia pessoal não como formalidade, mas como necessidade concreta. Se um terapeuta não consegue receber feedback sobre seu trabalho sem entrar em modo defensivo, esse é exatamente o ponto que precisa ser trabalhado em terapia.
Terceiro, desenvolver humildade profissional de fato. Pesquisas indicam que terapeutas com algum nível de dúvida sobre suas próprias limitações são mais eficazes do que aqueles excessivamente confiantes. Especialistas em qualquer área podem cair na armadilha do “overclaiming”, achar que sabem mais do que realmente sabem.
Quarto, entender que pacientes agora têm voz amplificada. A dinâmica mudou. O espaço terapêutico continua sendo um ambiente protegido durante a sessão, mas o que acontece ali pode (e será) avaliado publicamente depois. Isso não deveria ser visto como ameaça, mas como estímulo à excelência.
O que os pacientes podem fazer
Desenvolver senso crítico sobre o processo terapêutico. A terapia não é milagrosa, não tem prazo curto para questões complexas e não deve prometer resultados garantidos. Desconfie de profissionais que oferecem soluções rápidas para problemas profundos.
Observe sinais de alerta: terapeuta que fala excessivamente da própria vida, que quebra sigilo profissional compartilhando histórias de outros pacientes (mesmo sem nomes), que demonstra julgamento moral sobre suas escolhas, que fica no celular durante a sessão, que tenta estabelecer relações de amizade fora do contexto terapêutico, que invalida suas emoções ou experiências.
Se vivenciar conduta antiética grave, considere denúncia formal ao Conselho Regional de Psicologia. Sim, o processo é trabalhoso. Mas é o mecanismo que pode efetivamente levar a consequências profissionais.
E lembre-se: insatisfação com a abordagem terapêutica ou falta de conexão com o profissional não é, necessariamente, falta ética. Às vezes é só incompatibilidade. Nesses casos, trocar de terapeuta é legítimo e até recomendado. Você não deve satisfação a ninguém sobre isso.
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A transformação já começou
O movimento de exposição nas redes sociais não é passageiro. Representa uma mudança cultural mais ampla sobre como a sociedade lida com figuras de autoridade. Médicos, professores, líderes religiosos, terapeutas, todos estão sendo observados com olhar mais crítico.
Para a psicologia como campo, isso pode ser desconfortável no curto prazo, mas saudável no longo. Profissões que resistem à crítica externa tendem a desenvolver vícios corporativos. A entrada de vozes externas, mesmo quando essas vozes são de pessoas feridas e frustradas, funciona como oxigenação necessária.
Terapeutas que reagem a esse fenômeno com mais defensividade estão perdendo a oportunidade de aprender algo sobre si mesmos. Aqueles que conseguem ouvir as críticas, mesmo as mal formuladas ou exageradas, e extrair dali pontos de reflexão séria, estão fazendo exatamente o que pedem de seus pacientes: crescer com o desconforto.
O paradoxo permanece: profissionais da mente que estudam resistência, projeção, transferência e mecanismos de defesa continuam sendo surpreendentemente resistentes, projetivos e defensivos quando o assunto é o próprio trabalho. Mas, pela primeira vez, esse paradoxo está sendo nomeado publicamente, em escala, por pessoas que não têm medo de falar.
E talvez seja isso, afinal, que fará a diferença.
