Há um paradoxo neuroquímico silencioso que governa as nossas vidas: a fé, tantas vezes celebrada como a virtude máxima da resiliência, pode ser o analgésico mais eficiente para a nossa inércia. Do ponto de vista puramente biológico, a fé funciona como uma espécie de dopamina premeditada. Ao projetarmos no invisível a certeza de que tudo se irá resolver, o nosso cérebro recebe uma descarga imediata de contentamento e alívio. Sentimo-nos saciados antes sequer de nos sentarmos à mesa.
O problema nasce precisamente aí. Sendo o cérebro um órgão biologicamente programado para poupar energia, a esperança passiva atua como um anestésico. Quando nos contentamos com a liberação antecipada dessa química do bem-estar, eliminamos o desconforto que serve de motor para a mudança. A fé que conforta é, não raramente, a mesma que empaca. Faz-nos deixar passar as oportunidades, aceitar o intolerável e esperar que o tempo resolva o que só o suor consegue transformar. A esperança, quando isolada da ação, é apenas uma promessa confortável para manter a vida estagnada.
A vida real, contudo, exige uma mecânica completamente diferente: a química da insatisfação. Para que as coisas realmente aconteçam, o cérebro precisa ser sacudido pela noradrenalina, o neurotransmissor do alerta, do foco e do desconforto saudável. É a noradrenalina que nos arranca da cadeira, que nos obriga a tomar decisões e a assumir os riscos de correr atrás do prejuízo.
O verdadeiro sabor da conquista não está na expectativa, mas no resultado. Quando vamos à luta e arrancamos da realidade o objetivo pretendido, somos recompensados com a dopamina tardia, aquela que é alimentada pela intensidade do esforço e pela materialização do resultado. Esta dopamina de chegada é infinitamente mais poderosa do que a de partida, porque ela não nos aliena; pelo contrário, valida a nossa capacidade de agir. No fim das contas, a fé pode até segurar o teto durante a tempestade, mas é o movimento da tomada de decisão que reconstrói a casa. A vida não quer espera; a vida precisa de movimento.
Você também pode gostar
