Na manhã quente de uma terça-feira, em uma escola pública da periferia de Manaus, a sala de aula já estava cheia antes mesmo do sinal tocar. O barulho dos alunos se misturava ao som das motos na rua e ao vento tímido que entrava pelas janelas abertas.
O professor entrou com passos tranquilos, carregando apenas um caderno. Sem dizer nada, escreveu no quadro: “Para que serve a escola?” Os alunos copiaram, alguns com curiosidade, outros com desinteresse.
— Hoje, vocês vão me ajudar a responder isso — disse ele, virando-se para a turma.
Um silêncio leve tomou conta da sala.
— Antes, quero compartilhar com vocês uma frase de um grande pensador brasileiro — continuou, escrevendo logo abaixo:
— “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.” (Paulo Freire)
Os alunos olharam para o quadro. Alguns reconheceram o nome, outros não.
— O que vocês acham que isso significa? — perguntou o professor.
— Que ensinar não é fácil? — arriscou João.
— Que precisa gostar das pessoas — disse Ana.
— E também tem que ter muita paciência – disse Fábio.
O professor concordou. E, caminhando entre as carteiras, indagou:
— O que vocês esperam do futuro?
As respostas vieram aos poucos:
— Eu quero ser policial — disse João, com os olhos firmes.
— Eu quero ser médica — falou Ana, sorrindo tímida.
— Eu só quero trabalhar e ajudar minha mãe — murmurou Fábio, olhando para o chão.
Outros falaram de dinheiro, de sair do bairro, de “ser alguém na vida”. O professor ouvia tudo em silêncio, como quem recolhe pequenas confissões.
De repente, no fundo da sala, uma voz que ninguém esperava:
— Eu não espero nada, professor!
Era Lucas. Sempre quieto, sempre no canto. Ninguém lembrava da última vez que ele havia levantado a mão.
— Como assim, Lucas? — perguntou o professor, aproximando-se.
O menino deu de ombros.
— Nada dá certo mesmo.
A frase caiu na sala como um copo quebrado.
O professor ficou alguns segundos em silêncio. Depois voltou ao quadro, apagou tudo com a mão e escreveu apenas uma palavra:
“Esperança”.
— A escola serve pra isso — disse, com uma calma estranha. — Para a gente aprender a não desistir da vida.
O sinal tocou. Os alunos começaram a sair, ainda comentando a aula. Alguns riam, outros discutiam seus sonhos como se fossem possíveis.
Lucas foi o último a sair. Parou na porta. Olhou para o professor. Parecia que ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Saiu.
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Naquele mesmo dia, à noite, a escola apareceu no noticiário local. Um aluno havia sido encontrado morto, vítima de um acerto de contas no bairro.
O nome dele?
Lucas.
Depois do luto, o professor voltou à sala. Olhou para o quadro, respirou fundo e, com a mão trêmula, reforçou a palavra que nunca deveria desaparecer da vida daqueles jovens:
— Esperança.
