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Pais violentos: como o relacionamento abusivo marca a vida

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Por mais quieta que seja a criança, em algum momento ela vai cometer alguma travessura. Mexer nos objetos dos pais. Pintar as paredes de casa com giz de cera. Jogar futebol dentro de casa e quebrar um vaso. Quebrar a janela do vizinho. Esses são meros exemplos das traquinagens que tiram os pais do sério. Tais atitudes merecem ser punidas, pois, do contrário, as crianças nunca terão limites, tornando-se assim adolescentes e adultos irresponsáveis que acreditam ter o direito de fazer o que bem entender. Porém, há limites para essa punição.

Pais e mães sensatos vão conversar com o filho, explicar por que estão bravos, e, sobretudo, mostrar que o mau comportamento causou transtornos para os atingidos. O castigo deve ser aplicado logo após a falta, mas, não diante de outras pessoas. Fale olhando nos olhos da criança, deixando claro que você está chateado com o comportamento, e não com ela. Para o pequeno refletir sobre o que fez, uma alternativa é deixá-lo sentado em um local da casa com pouco barulho. Acrescente um minuto a cada ano de vida. Os pais também podem cortar privilégios. Impedir que assista televisão ou sair para brincar.

Tapas, puxões de orelhas e beliscões jamais devem ser métodos de castigo.
De acordo com Carl Pickhardt, autor do livro “The everything parent’s guide to positive discipline” (Guia geral da disciplina positiva para pais), essas agressões transmitem a criança que quem é maior pode bater nas pessoas mais fracas. Sal Sevevre, autor do livro How to behave so your children will, too!”(Como se comportar para que seus filhos também se comportem) relata que palmadas e surras causam insegurança, tornando as crianças tímidas e agressivas.

Origens dos castigos físicos

Segundo Cristiano da Silveira Longo, doutor em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) os indígenas não batiam nas crianças, sequer gritavam com elas. Os castigos físicos foram introduzidos no Brasil no século 16 pelos jesuítas. Um dos castigos mais usados era impor às crianças desobedientes que ajoelhassem no milho.

Por que alguns pais partem para a violência?
  • Educação recebida: Padrões violentos se repetem. A tendência é que pais que receberam castigos físicos usem tais recursos para educar seus filhos;
  • Aliviar a violência sofrida na infância: Quem foi vítima de violência parental tendem a agredir seus filhos, a fim de obter o controle;
  • Estresse: Os inúmeros compromissos profissionais e as outras dificuldades cotidianas podem tirar o bom senso dos pais. Depois de um longo dia de trabalho, pais e mães não aguentam a pressão e perdem a cabeça diante as travessuras dos filhos;
  • Drogas: Muitos agressores justifiquem suas atitudes ao uso de bebidas e drogas ilícitas. Entretanto, é pequeno o número de pessoas que agem violentamente devido ao uso de drogas. Alucinógenos e estimulantes podem desencadear casos psicóticos e agirem para “se defender”.
Quem apanha mais?

As psicólogas Maria Amélia Azevedo e Viviane Nogueira de Azevedo Guerra entrevistaram 894 crianças de todas as classes sociais. A pesquisa apontou que mais de 50% das crianças já apanharam em casa. Outra constatação é que os meninos pobres são os que mais apanham, 75% deles revelaram ter sofrido castigos físicos. Os resultados foram apresentados no livro Mania de Bater.

Palmada: há quem defenda

Longo defendeu uma tese na Universidade de São Paulo (USP) sobre punição corporal doméstica em crianças. O psicólogo constatou que pelo menos 99% das crianças brasileiras já levaram pelo menos uma palmada na vida.

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Em pesquisa realizada em 2003 no site da revista Crescer, 52% dos pais afirmaram que apelavam para as palmadas, somente quando não obtiam resultados com o diálogo.

Outros 35% colocavam os filhos de castigo quando a conversa não surtia efeito. A porcentagem dos pais que não castigavam nem batiam ficou na casa dos 12;7%. A palmada continuou a ser um recurso bastante utilizado em 2008, ano em que a Lei da Palmada foi instituída no Brasil, com a finalidade de reduzir e punir a violência doméstica contra crianças e adolescentes.  Enquete publicada pelo site UOL Gravidez e Filhos constatou que 75% dos internautas eram contrários a lei. Ao site, pais e mães declararam que “tapinha é uma coisa, espancar é outra coisa”.

A pedagoga e terapeuta infantil Denise Dias, autora do livro “Tapa na Bunda: Como Impor Limites e Estabelecer um Relacionamento Sadio com as Crianças em Tempos Politicamente Corretos” (Editora Urbana),diz “ser alérgica a hipocrisia”  e que “a falta de tapa na bunda quando o filho ainda é pequeno está fazendo com que muitos pais levem tapa na cara quando os filhos se tornam grandes”. A pedagoga reforça que pessoas equilibradas sabem diferenciar palmada e espancamento.

Agora, quem colocou ainda mais fogo nessa fogueira foi o pastor Silas Malafaia. Formado em psicologia, Malafaia considera a Lei da Palmada como “mais uma palhaçada”. Segundo ele os pais podem bater nos filhos, porque eles são recomendados pela bíblia e usa a seguinte passagem para justificar “Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno”. Ainda de acordo com o pastor, os pais podem bater, mas, não matar.

Castigos físicos: quem recrimina

É enorme a legião de quem recrimina os castigos físicos. O psicólogo Cristiano Longo declara que o castigo físico deseduca. Ele defende o pensamento do educador suíço Jean Piaget que a punição mais eficaz não é a expiatória, e sim a reparatória. Enquanto a punição expiatória pune a natureza da ação (uma criança que leva um beliscão por ter quebrado o vidro do vizinho), a punição reparatória faz a criança ganhar consciência que fez algo que prejudicou o outro, nesse caso, o castigo é ter a mesada descontada para pagar o conserto.

Círculo vicioso da violência

O castigo físico é incoerente, pois, a criança apanha para aprender que bater é errado, frisa Cristiano Longo. Filhos de pais violentos repetem o comportamento com seus irmãos e colegas de escola. Pais e mães que batem perdem o respeito dos filhos. Essa falta de respeito faz os pais aumentarem a dose da agressão.

Crianças sentem-se culpadas pela violência

As crianças vítimas de castigos físicos sofrem a dor da violência e ainda sentem-se culpadas, revela o estudo feito pela historiadora Mirian Botelho Sagim para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (FFCLRP). Miriam também concluiu que a mãe é quem mais aplica os castigos físicos.

Consequências da violência

A violência não educa e causa diversos males físicos e emocionais a longo prazo. Segundo estudo realizado entre 2004 e 2005 pelos pesquisadores da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, no Canadá analisaram dados de 34 mil adultos. A pesquisa comprovou que das pessoas que sofreram castigos físicos estavam mais propensos a desenvolver obesidade, artrite e doenças cardíacas. A pediatra Teresa Uras ressalta que a criança agredida fisicamente não entende porque apanhou. O estresse provoca angústia e depressão.

Outra consequência da violência é que a criança associa agressão ao cumprimento de ordens, sem o castigo físico, ela não sabe mais até onde pode ir. Pais violentos também saem perdendo, eles perdem o respeito dos filhos.  Além de mostra que podem agir assim com qualquer pessoa que fizer algo inadequado.

10 motivos para não bater nos filhos
  • Covardia: Você é maior e mais forte;
  • Dói: A dor física é acompanhada pela dor da alma;
  • Eles perderão a confiança: Seus filhos não conseguirão contar nada para você. Se algo sério acontecer, você será a última pessoa a saber;
  • O exemplo vem de casa: Você não terá moral para recriminar seu filho por ele ter batido em um colega de escola;
  • Eles poderão se tornar pessoas frágeis: Crianças que apanham dos pais têm baixa estima, consequentemente, dificuldades para reagir;
  • Você vai envelhecer: Crianças crescem, ficam fortes e podem bater nos pais.
Papel da escola em casos de violência em crianças

Quando os professores percebem que a criança é vítima de violência dos pais, eles devem aproximar-se da família, identificar quais os problemas e, em casos mais graves, acionar o Conselho Tutelar.  Os sinais são claros, isolamento, desconfiança, falar pouco ou fechar-se em uma concha. Também pode acontecer o contrário, indisciplina, desrespeito às regras, desinteresse pela escola e atitudes agressivas com professores e colegas. Pais e filhos comparecem ao Conselho Tutelar  órgão responsável por zelar pelos direitos das crianças e adolescentes. O conselheiro que conversar com a família vai orientar sobre a melhor forma de criar os filhos. Porém, é bom salientar que o Conselho Tutelar não pune, mas, tem poder de enviar à autoridade judiciária os casos de sua competência.

Castigos físicos e o desenvolvimento de transtornos psicológicos

shutterstock_123174805De acordo com pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos da Criança (LACRI), do Departamento de Psicologia da USP, entre 1998 e 2007, foram identificados 159.754 casos de violência doméstica contra crianças. Porém, apenas 10% deles foram denunciados. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef )revela que aproximadamente 18 mil crianças são espancadas diariamente no Brasil. Os índices de agressões não denunciados, em grande parte é devido a ignorância dos demais familiares, que acreditam que bater é a melhor maneira de educar uma criança.

Estudos apontam que adultos que foram vítimas de violência física na infância têm mais chance de desenvolverem transtornos psicológicos. Eles apresentam mais riscos de apresentarem quadros de transtorno bipolar. As mulheres que sofreram agressões físicas na infância são mais propensas a ter depressão e distimia (irritação frequente). Outra razão para que os pais abandonem de vez os castigos físicos. Crianças que sofrem violência doméstica apresentam os seguintes comportamentos:

  • Ansiedade
  • Choros constantes sem aparente motivo
  • Medo
  • Pesadelos
  • Tentativas de suicídio
  • Marcas de violência no corpo 
  • Ataque de pânico
  • Baixo rendimento escolar
  • Sentimento de inferioridade    


Crianças precisam ter acompanhamento psicológico, os agressores também, visto que, muitas vezes são pessoas que sofreram abusos físicos na infância, e por não terem tido o apoio necessário, transformaram-se em adultos viciados em bebidas e outras drogas. As mães são as que mais aplicam castigos físicos, provavelmente devem ter tido filhos muito cedo e não receberam nenhuma orientação, ou então, receberam orientações erradas.

Falamos aqui sobre as graves consequências trazidas pelos castigos físicos. Problemas psicológicos e a maior probabilidade para desenvolver obesidade e doenças cardíacas. Crianças que apanham dos pais aprendem que o mundo é regido pela lei do mais forte, e têm tudo para transformar-se em um adulto que baterá nos filhos. Elas também poderão ser adultos incapazes de reagir ao menor dos insultos.

Por mais que o estresse do dia a dia consuma a energia, os pais precisam conscientizar-se que tapas, beliscões e demais agressões geram um círculo vicioso de tristeza e solidão. Os pais necessitam colocar-se no lugar dos filhos. Será que gostariam de sofrer violência física?

Pais e mães não sabem como agir em cada idade. Acreditam que as agressões físicas deixam apenas marcas na pele. No entanto, ofender, ridicularizar e dizer coisas do tipo “Eu não esperava outro comportamento de você”, “Você não vai chegar a lugar nenhum desse jeito”, “Você deve ter algum problema sério” fazem com que as crianças não se sintam amadas e responsabilizem-se pela violência sofrida.

Entendemos que seja difícil manter a calma em certos momentos, mas, antes de castigar fisicamente seu filho, procure lembrar como você se sentia quando apanhava dos seus pais.

Para os pais que costumam bater nos filhos, deixamos as seguintes dicas:

  • Não grite, não fale palavrões;
  • Expliquem porque a criança não pode ter determinadas atitudes;
  • Elogie o bom comportamento;
  • Mesmo que as atitudes do seu filho não agradem, jamais sugira que você não gosta do seu filho.

Se você que é pai ou mãe e não consegue controlar sua raiva, e acaba batendo em seus filhos, pode procurar ajuda psicológica, para conseguir conter seus ímpetos e também superar antigos traumas. Aliás, pais e filhos podem recorrer a uma terapia de família, para juntos vencerem esse drama que é a violência familiar. 


  • Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras

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