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Pais violentos: como o relacionamento abusivo marca a vida

criança deprimida e sozinha com o rosto sobre os joelhos
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Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Em um comercial brasileiro dos anos 1990 do papel higiênico Camélia, havia um trecho que dizia “bumbum de criança sofre mais ainda. Lugar de injeção é aqui [no bumbum]. Palmada e chinelada não têm lugar melhor!”. Naquela época, ainda era naturalizada a agressão aos filhos praticada pelos familiares.

Nos dias atuais, dificilmente veríamos uma propaganda afirmando que dar palmadas e chineladas em uma criança é um comportamento correto. Com o passar do tempo, compreendemos que ninguém deve apanhar quando erra, muito menos alguém que ainda está em fase de formação e de aprendizado.

Ainda que esse seja um posicionamento bastante disseminado na sociedade, não podemos cometer a ingenuidade de acreditar que ele seja comum a todos. Os familiares violentos ainda são uma realidade no Brasil e no mundo, e as consequências desse tipo de comportamento podem ser permanentes para os pequenos.

Para se aprofundar nessa questão e ter certeza de que a violência não é uma maneira de educar, continue lendo o artigo que preparamos. Saiba por que nós devemos combater essas práticas e se atente para as formas corretas de ensinar a diferença entre o certo e o errado.

Origens dos castigos físicos e psicológicos

Menina de castigo sentada no canto no quarto
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Como o Brasil foi invadido por portugueses, muitos dos hábitos que reproduzimos até os dias de hoje são provenientes de sua cultura, visto que foram impostos aos nativos. O nome desse processo é aculturação, que se baseia na crença de que há uma cultura superior que deve substituir culturas inferiores.

Nesse contexto, a cultura portuguesa seria superior à cultura indígena, que deveria ser apagada. Essa missão caberia aos jesuítas, responsáveis não só por catequizar os indígenas, mas também por recusar a existência das crenças deles. Mas o que isso tem a ver com os castigos físicos e psicológicos para crianças?

Segundo o livro “Ordem médica e norma familiar”, de Jurandir Costa, durante o processo de escravização dos indígenas, era comum que os jesuítas aplicassem castigos físicos aos pequenos como uma forma de puni-los pelos supostos pecados que cometiam. Então, o simples medo de sofrer essa violência já provocava efeitos psicológicos negativos. Infelizmente, esse hábito europeu tornou-se parte da cultura brasileira.

Por que alguns pais partem para a violência?

Criança sendo repreendida com puxão de orelha
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Os motivos que levam uma pessoa a praticar violência física ou verbal contra outra são muitos. Eles são definidos a partir da educação que se recebeu, do contexto social no qual se vive e até mesmo do estado de consciência no qual se encontra.

Não é possível dizer que um familiar bateu em uma criança por determinado motivo sem conhecê-lo, mas podemos analisar alguns dos fatores que levam a isso. É importante ressaltar que nenhum deles deve servir como justificativa para agredir os pequenos, e sim devem ser trabalhados com auxílio psicológico.

Ter crescido em um contexto de violência, ter recebido punições físicas dos pais durante a infância e ingerir álcool e outras drogas de forma constante e exagerada, por exemplo, podem resultar em comportamentos agressivos com os filhos. Além disso, a incompreensão, a impaciência e o sentimento de posse sobre as crianças são determinantes para esse hábito.

Em nenhuma circunstância podemos dizer que a culpa da agressão é da própria criança. Por maior que seja o erro que ela tenha cometido, nada deveria ser repreendido com uma palmada, com uma chinelada ou com xingamentos. Isso porque os jovens, assim como os adultos, estão em um constante processo de aprendizagem.

Palmada: há quem defenda

menina sendo reprendida no sofá pela mãe
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Talvez você conheça uma pessoa que acredita que uma palmada não fará mal para os filhos, que é só um jeito de educar. Por incrível que pareça, ainda existem indivíduos que realmente defendem a prática da violência no processo educativo de um ser em formação.

No entanto, de acordo com um estudo publicado em 2020 na revista JAMA Pediatrics, observa-se que os familiares das gerações Y e X tendem a não bater nos filhos. Ou seja, quanto mais novos os pais ou as mães, menores as chances de praticarem violência contra as crianças.

Além disso, a pesquisa comparou dados de 1993 com dados de 2017. Enquanto nos anos 1990 50% dos familiares afirmavam bater nos filhos, com o passar do tempo essa porcentagem caiu para 35%. Por mais que seja um passo importante para o fim desse hábito, ainda há um longo caminho a percorrer.

Uma evidência disso é que, em 2019, o Projeto de Lei n. 4275/19 tinha como objetivo revogar a Lei da Palmada, de 2014, alegando que ela representou “uma indevida intromissão do Estado ‘em matérias reservadas à família’”.

Segundo o autor do projeto, Delegado Waldir, do PSL-GO, “independentemente de questões ideológicas, critica-se a razoabilidade da lei, que coíbe até mesmo os castigos físicos moderados, equiparando uma simples palmada a tratamento cruel ou degradante”.

Castigos físicos: quem recrimina

Criança com medo no canto da sala
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A Lei da Palmada foi criada em junho de 2014 para “estabelecer o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante”.

A partir dessa medida, perante a lei e perante toda a sociedade, aplicar castigos físicos em crianças tornou-se uma atitude recriminável, que não deveria ser reproduzida ou defendida. Então, apoiar ou não os castigos físicos não é uma questão de opinião.

Quem apoia as palmadas, as chineladas e os xingamentos são pessoas que precisam de acesso à informação para compreender que esse tipo de atitude não será revertido em uma boa educação. Todos nós devemos recriminar os castigos físicos e instruir aqueles que ainda não o fazem.

Círculo vicioso da violência

Uma das justificativas para aplicar o castigo físico é que somente por meio dele uma criança irá aprender a diferença entre o que ela pode e o que não pode fazer. Mas será que isso é mesmo verdade? Vamos analisar atentamente quais são os efeitos que essa estratégia pode provocar.

Imagine o seguinte cenário: uma criança não quer comer determinado alimento e está chorando por causa disso; então, um familiar decide lhe dar uma palmada. Imediatamente, a criança se sente reprimida e obrigada a fazer algo que ela não quer, visto que poderia apanhar novamente se contrariasse a ordem.

Essa suposta educação baseada no medo ensinará para a criança que ela pode conseguir aquilo que deseja se utilizar a violência. Ela não precisa tentar compreender a outra pessoa, não precisa ter paciência; pode simplesmente usar a força para resolver um conflito. Assim, cria-se um círculo vicioso da violência.

Crianças sentem-se culpadas pela violência

Mãe brigando com a filha
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Na maioria dos casos de agressão, a vítima acredita que é culpada por aquilo que sofreu. E isso não acontece só porque ela imagina, mas também porque a pessoa que a agrediu pode reforçar isso. Esse padrão também se repete no caso das crianças vítimas de violência doméstica.

Um familiar que, ao bater na criança, diz algo como “se você tivesse feito aquilo, não teria apanhado” ou “faça aquilo, senão você vai apanhar” está contribuindo para a culpabilização da vítima. Isso porque a criança irá condicionar a violência ao que ela fez ou deixou de fazer, e não a uma irresponsabilidade de quem bateu nela.

Com essa culpabilização da vítima, dificilmente os pequenos irão procurar ajuda. Em primeiro lugar, porque os familiares é que deveriam fornecer esse suporte emocional. Em segundo lugar, porque acreditam que estão errados e que não deveriam se opor a uma atitude de quem está em uma posição de autoridade.

Aos poucos, elas podem se tornar tímidas, retraídas e amedrontadas, acreditando que qualquer comportamento que tenham e que desagradem os familiares irá resultar em uma agressão dolorida e difícil de superar.

Consequências da violência

Tão importante quanto identificar as causas da violência em crianças é analisar as consequências disso para os adultos que estão se formando. A seguir, aprenda mais sobre isso e se conscientize!

Castigos físicos e desenvolvimento de transtornos psicológicos

Criança deprimida e sozinha com o rosto sobre os joelhos
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Diferentemente do que familiares que praticam agressões em crianças imaginam, a violência não é uma ferramenta de ensino ou de educação. Na verdade, ela é uma ferramenta de repressão, que pode prejudicar a integridade física e a saúde mental de um indivíduo.

Dependendo da força aplicada ao dar uma palmada, uma chinelada ou um tapa, por exemplo, a criança, que ainda está em desenvolvimento, pode apresentar hematomas, dores pelo corpo e, em casos mais graves, quebra de ossos ou torções. Essas consequências irão surgir no mesmo instante da agressão.

Por outro lado, o desenvolvimento de transtornos psicológicos pode ser lento e perceptível de forma integral apenas na adolescência ou na vida adulta. Alguns desses transtornos incluem ansiedade, depressão, baixa autoestima, desempenho negativo na escola e no trabalho, constante busca por aprovação de terceiros, reprodução de comportamentos violentos e dificuldade para viver em sociedade.

Esse tipo de trauma pode até ser ocultado por algum tempo, mas, quando a criança envelhecer, é provável que ela se recorde de qual foi a verdadeira causa dos machucados inexplicáveis. Ou poderá, por meio da terapia, identificar que os próprios familiares estão por trás dos problemas que consomem a saúde mental dela.

Papel das escolas em casos de violência em crianças

Identificar que uma criança está sofrendo violência doméstica é mais fácil para quem passa a maior parte do tempo com ela. É por isso que professores e colegas acabam detectando machucados e mudanças de comportamento repentinas em alguns estudantes, o que acende um sinal de alerta.

Nesse sentido, a equipe escolar deve se mostrar disposta a ouvir a criança que está nutrindo esse sofrimento, além de promover palestras de conscientização sobre os riscos futuros dessas agressões.

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Uma vez que a violência doméstica for identificada, as escolas devem entrar em contato com os familiares para dialogar sobre o problema e, se for necessário, acionar o Conselho Tutelar. Afinal, viver com uma família agressiva só irá prejudicar esse jovem.

Considerando cada informação apresentada, concluímos que a agressão contra as crianças por parte dos familiares não irá render bons frutos. Pelo contrário, ela está por trás do desenvolvimento de transtornos emocionais, de prejuízos à saúde física e da construção de um círculo vicioso de violência. Portanto, faça a sua parte e se posicione contra esse mal!

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