Convivendo

Positividade Tóxica: O “novo good vibes”?

Mulher branca num campo de flores.
syd_schumacher / Reshot
Anne Moon
Escrito por Anne Moon

São Paulo, 21 de fevereiro de 2021

Ultimamente, tem sido bastante disseminado a ideia da positividade ou “good vibes”, ou seja, a de ter uma percepção de vida mais otimista, para trazer leveza às nossas vivências.

É uma perspectiva de luz que é muito necessária para todos nós, ainda mais nesses tempos de pandemia e de quarentena, em que muitas informações chegam a todo momento. Algumas vezes, isso deixa-nos com uma ponta de esperança e, em outras, quebra totalmente uma pequena expectativa de melhora que pudéssemos ter na situação.

Já falei em um artigo anterior sobre a positividade, a ditadura da felicidade e o quanto isso pode ser tóxico, mas eu ainda não havia desenvolvido melhor esse assunto.

Uma coisa é fato, quando se fala em positividade, ser “good vibes”, alguns ainda torcem o nariz, o que não dá para tirar parte da razão deles.

Não dá para desconsiderar isso quando há vários com uma mesma aversão, pois é algo a ser debatido. E é para isso que estou escrevendo esses artigos, para fazer essa troca maravilhosa.

Vamos partir do início acerca do que seria “good vibes”, a positividade. Ultimamente, tem sido disseminado a ideia de que devemos policiar nosso inconsciente, nossas emoções e nosso psicológico, por ser esses o conjunto de fatores que vão nortear as nossas atitudes, consciente ou inconscientemente às nossas decisões, sejam coisas boas ou ruins para nós. Dessa forma, temos de ter consciência do que serve ou não para nossas vidas, isto é, separar o que agrega ou não.

Mãos juntas formando um coração.
Oleg Illarionov  / Unsplash

Na vida, existe uma balança que pesa todas as nossas escolhas, pois fazemos escolhas de acordo com o nosso senso e com a nossa visão do mundo. Não estou aqui falando sobre o que é certo ou errado, pois isso é muito subjetivo. Cada ser e cada grupo têm sua concepção, então nem vou entrar nessa discussão.

Enfim, durante nossa vida, fazemos escolhas que possuem consequências, então devemos fazer escolhas inteligentes e é sobre isso que é apresentado no discurso “good vibes”. Isso significa, às vezes, “nadar contra a maré”, abdicar de alguns hábitos que são nocivos, policiar nossas emoções, nosso interno, o que é algo desafiador e nem todo mundo está preparado para fazê-lo, pois não é algo confortável. É daí, portanto, que surge a aversão, porque força o ser a sair “do quentinho”, embora nem todo mundo queira e está tudo bem, pois cada um tem os seus motivos. É, porém, o que acontece.

É igual ao mito da caverna. Assim como nem todos tiveram coragem de sair da caverna para ver o que tinha fora, muitos preferem continuar como estão e não se arriscarem. Quando eu falo em se arriscar, é sobre colocar na balança quais são nossos riscos, os prós e os contras de cada decisão. Esse, inclusive, é outro ponto difícil para a maioria das pessoas. Na maioria das vezes, agimos pela impulsividade e, nesse quesito, eu me incluo, visto que é muito fácil agirmos pelas nossas emoções, ou seja, no automático.

Tiramos a responsabilidade sobre nossas ações, sempre tentamos justificá-la e, muitas vezes, terceirizamos a “culpa” para outras pessoas. Assim, não é à toa que as pessoas que são adversas ao “good vibes” reclamam afirmando que ninguém é feliz e seguro 100% do tempo, o que concordo em partes. Felicidade é um meio, e não um fim e um objetivo, mas, sim, a base. Felicidade é sobre ter gratidão ao olhar o “copo” mesmo estando “meio cheio”. E sobre sentir insegurança, todos nós já passamos por isso, pois é comum, mas não normal.

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Nós somos seres adaptáveis e temos o costume de nos acostumarmos com situações que não nos fazem bem, com a crença de que “é normal” e “é assim mesmo”. Ouvimos esses tipos de frases tantas vezes que vão sendo criadas crenças em cima disso, o que provoca uma programação mental que apresenta ações nossas para comprovar essas crenças.

Temos de ter consciência, refletir o porquê de termos determinadas crenças, o porquê de pensarmos e agirmos de determinada forma se esses sentimentos são realmente nossos.

Se temos de fazer escolhas e ao mesmo tempo abdicarmos de outras, por que não fazer essa autoanálise, exercer essa autorresponsabilidade?

Temos a tendência de nos acostumarmos com situações ruins e, muitas vezes, normalizarmos situações das quais não gostamos.

Já se questionou o porquê?

Sempre me questionei sobre o fato de termos que nos acomodar ao que não gostamos e não queremos, ao mediano e a nos limitar por ser essa situação a “mais confortável”. Até falei sobre isso em um artigo anterior, o qual serve muito bem para este também.

Enfim, reflita sobre isso. Quando focamos algo, atraímos mais do mesmo, ou seja, colocamos na balança o que queremos dar prioridade. Sempre reclamamos da vida, esperando mudanças e movimentações, mas não damos um passo sequer diferente, nem que seja uma mínima coisa. Focamos problemas, dificuldade, sofrimento e não focamos soluções. Não que dê para resolver tudo, pois nem tudo está no nosso controle, mas a questão é que não mudamos nem as coisas que estão ao nosso controle.

Mulher branca de cabelos curtos e castanhos mostrando a língua.
Guillaume Bleyer / Unsplash

A verdade é que preferimos reclamar e nos prestar ao papel de vítima. Coisas ruins acontecem com TODOS nós a todo momento, mas se essas coisas vão nos definir e se esse é o fim das nossas histórias, é você quem decide.

Se na sua casa você não deixa qualquer um entrar, por que você deixa acumular lixo em sua vida? Quando falo em lixo, falo em ressentimento, ódio, tristeza, sentimento de não merecimento ou de arrependimento.

O ódio pode, sim, ser usado como uma alavanca para sairmos de onde estamos, mas se não bem usado, pode ser algo tóxico não para o outro que é o motivo de nossa raiva, mas para nós mesmos. Assim como a tristeza, a vingança e o arrependimento, os quais causam muitos danos a nós mesmos, por isso chegou o momento de “repensar as batalhas” que aceitamos e ressignificá-las, a fim de que nossa vida fique mais leve.

Não há problema nenhum no fato de você querer uma vida mais fácil. Se podemos descomplicar as nossas vidas, vamos usar a sensatez, certo?

Isto que eu vou falar vai soar como um “balde de água fria”, mas é com amor. Já diziam por aí que não devemos esperar resultados diferentes fazendo a mesma coisa todos os dias, pois adivinha o que dá para esperar de resultado ao fazermos mais do mesmo? O mesmo resultado todos os dias.

Se você prefere estar onde está, isto é, no quentinho, já que se sente confortável e seguro onde está, compreendo, pois são suas escolhas. Escolha, porém, sabendo que reclamar que a vida continua a mesma e desejar mudanças, mas não se movimentar para isso não trará mudanças e tudo vai continuar do jeito que está.

Mulher branca num campo de girassóis.
Lauren Richmond / Unsplash

Então não é sobre ter uma vida perfeita, reprimir a raiva, a insegurança, a tristeza, os medos ou quaisquer outros sentimentos negativos. Não é tentar alcançar uma perfeição que não existe e que nem o esclarecem o porquê disso e nem como alcançá-la.

A questão é analisar o que está chegando à sua vida e fazer escolhas inteligentes. O que você tem permitido entrar na sua vida?

Sobre o autor

Anne Moon

Anne Moon

Anne Moon é uma escritora graduada em letras que nasceu e mora em São Paulo com seus pais e com o irmão mais velho. Desde criança adora escrever e contar histórias. Antes dos 10 anos já havia escrito duas histórias de ficção e uma biografia, e aos 14 anos começou a escrever o primeiro volume, “The Rise of the Fallen”, da série de livros “Dark Wings”

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