Autoconhecimento Convivendo

Solidão como forma de amadurecimento emocional?

Homem em um beco escuro
Kieferpix / Getty Images / Canva
Escrito por Vitor Vieira

A ideia de solidão como forma de amadurecimento tem alguns pontos de vista interessantes. Por exemplo, uma figura materna quando cuida, prepara e educa outro ser humano tem em mente que ele precisa viver por si só, mas nem sempre estando só. Isso, entretanto, pode gerar algumas situações e alguns conflitos que têm como consequência uma vivência limitada, pois uma mãe que protege demais o filho, mostra que o mundo é um caos, lida com os problemas de forma a criar mais problemas “por amor” faz com que a criança crie um estado de dependência absoluta e que, quando desamparada pela perda dessa figura protetora, sente-se solitária por não saber o que é depender emocionalmente de si mesma. Essa situação gera solidão e pode ser replicada para outras ocasiões na vida, tendo como base da vivência humana a convivência e o reconhecimento.

A partir da solidão, apresento a melancolia como reflexão. De acordo com Freud, o melancólico tem uma intensa identificação com o outro ou com algo e acredita que esse objeto externo faça parte de si e, quando ocorre a perda do externo, a dor e a angústia o invadem, pois é como se realmente esse ser perdesse parte de si. Há, portanto, um sentimento de solidão pela perda e pela não compreensão, o que me faz concluir que a solidão também pode ser a falta de convicção, pois a partir do momento em que você deposita uma expectativa no outro para que você se sinta preenchido, protegido ou validado, falta convicção de acreditar que apenas você basta, sua obra basta, entendendo a particularidade de cada um dentro da evolução e partindo do princípio que o indivíduo e o coletivo caminham juntos e que a construção do eu segue a construção do nós.

A melancolia ao fazer parte dos quatro temperamentos trazidos por Hipócrates como forma de organizar a psique humana em diferentes frentes, as quais são o sanguíneo, o fleumático, o colérico e o melancólico, remete-me à ideia de auto-observação, pois existem pontos que determinam nosso temperamento. Em contrapartida, a mente humana é maleável e se modifica ao longo dos fatos, sendo externos ou internos, como o fato de decidir criar um hábito e exercê-lo para um propósito próprio da sua personalidade. Assim, todos temos um pouco de cada temperamento e cada um possui sua solidão particular.

Homem sentado em uma escadaria, sozinho
Sam Thomas / Getty Images / Canva

Vamos às definições básicas de cada um apresentando o lado positivo e o negativo. Comecemos pelos sanguíneos, que são comunicativos, adaptam-se facilmente e são espontâneos, porém faltam com atenção e são exagerados. Os fleumáticos tendem a ser equilibrados e confiáveis, mas resistem a mudanças. Os coléricos, por sua vez, sempre determinados e com facilidade de liderar, mas egocêntricos e impacientes. Para encerrar, temos os melancólicos, que são dedicados e sensíveis e, apesar de terem dificuldade para expor sentimentos, sabem se expressar por meio da arte. Geralmente, todo artista é melancólico, toda criação é solitária, mesmo que o propósito dela seja para o coletivo, visto que o artista, quando faz arte, está, no momento de criatividade, sozinho e é necessário que a solidão se faça presente nesse momento para que não haja interferência e, consequentemente, isso gere um autoconhecimento.

Trazendo isso para o lado sobre o trabalho de inclusão do ponto de vista psicanalítico, a solidão é o ponto crucial da dor de muitas pessoas, visto que elas não têm a opção do contrário. Há um relato interessante sobre isso, em que um dos casos era de uma paciente de 16 anos, surda e que tinha ataques de ansiedade após longos tratamentos. Sem uma conclusão, a jovem foi levada até a terapia, em que foi descoberto que esse sintoma de ansiedade partia do fato de ela ouvir e sentir a batida do próprio coração, o que gerava angústia e um sentimento de solidão profundo, já que a paciente não conseguia se desligar de si mesma, tampouco se sentir conectada com o próximo. Nós, ouvintes, já somos distraídos com tudo ao nosso redor, o que faz com que a sensação de estar só seja menos perceptível, como hoje seria o vício nas redes sociais, em que há milhões de pessoas conectadas, mas sozinhas nesse famoso palco que é a rede nem sempre social.

Relatos espirituais apresentam que Beethoven, num acordo com seu EU(Alma), ficou surdo para poder compor a 9° sinfonia sem essa poluição midiática e terrena, apenas ouvindo a si mesmo e seu instrumento. Acredita-se, portanto, que a 9° sinfonia seria a música com harmonia e melodia perfeitamente composta para elevarmos nossa consciência, o que é de uma essência e profunda análise sobre o que é, de fato, e qual o preço de estar só.

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Como no famoso filme “Náufrago”, em que Chuck, personagem principal, vê-se obrigado a inventar Wilson, que é uma bola de vôlei, pois o sentimento de estar só é insuportável, mesmo ele realmente estando sozinho.

A grande questão é: a solidão realmente existe? Ou estarmos com nós mesmos faz com que a solidão seja uma ilusão?

Afinal, a questão não é estar sozinho, mas, sim, aprender a estar na sua própria companhia.

Sobre o autor

Vitor Vieira

Vitor Vieira, 24 anos, psicanalista, cantor, compositor, escritor e apaixonado por filosofia.

Sou colunista nos sites Eu Sem Fronteiras e Ajudaria.

Escrevi o livro “Voz da Luz – Viagens astrais, missões terrenas”, no qual descrevo e conto um pouco da minha trajetória até agora na espiritualidade, entre desdobramentos e despertar de consciência.

Acredito que somos todos um só, dentro de cada particularidade. Somos irmãos, aprendendo e evoluindo dia após dia, sempre em busca de somar e multiplicar conhecimento e sabedoria.

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