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Ter um trabalho com significado: como é possível?

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras
Ter um trabalho com significado: como é possível? Conversamos com Leela, facilitadora do programa “Trabalho com significado”. Na entrevista, ela nos contou como é fazer uma travessia, seja parar mudar de carreira ou fazer algo com mais sentido. Confira o papo!

ESF: Me conte um pouco de você. Onde mora? O que faz?

Leela Sa: Sou mestiça, nasci no Brasil, em SP, mas morei 9 anos na Tailândia e passei 2 anos viajando pela Ásia. Sou mestiça tailandesa-brasileira e hoje estou em SP. Comecei sendo modelo quando tinha 16 anos e, naquela época, aceitava qualquer trabalho que vinha. Fazia pelo cachê que me pagavam só que, ao mesmo tempo, estava fazendo a tese pra me formar no colégio. Era sobre como o leite faz mal para o ser humano e, naquele mesmo momento, dois meses depois, estava fazendo um comercial de leite. Aí, eu falei: “Nossa, eu estou realmente incoerente com meus valores. Não faz sentido eu vender o leite se eu acho que faz mal pro ser humano”. E foi aí que percebi que não tinha um propósito claro na carreira como modelo. Então, decidi seguir buscando esse propósito desde estão. Hoje faz 12 anos que sigo essa jornada de busca por algo, de um trabalho mais significativo pra mim. Fiz faculdade de administração e depois vi que não era isso que eu queria. Fui para organização de eventos, que eu achei ser uma ferramenta pra criar experiências transformadoras e formadoras para as pessoas. Aí, comecei a fazer eventos diversos. Só que logo percebi que não queria trabalhar com organização e produção de eventos. O que eu queria era facilitar algum processo de transformação e aí eu já me vi naquele momento numa segunda transição e comecei a buscar a facilitação do desenvolvimento humano. Com isso, fiz essa transição e hoje eu sou coach e facilitadora e apoio as pessoas a fazerem uma transição pra um trabalho com significado. Estudei gestão de projetos e lideranças de equipes, fiz pós-graduação nisso, e depois me especializei mais na área de facilitação de grupos e coaching a partir da antroposofia — uma ciência do estudo do homem, o silêncio espiritual que estuda arquétipos do ser humano. E, com base nisso, acabei fazendo uma metodologia que é a bússola interna, uma ferramenta que eu uso pra ajudar as pessoas nessa jornada de transição e busca de significado.

ESF: Como funciona a transição para um trabalho com significado?

Leela Sa: A transição é uma mudança interna e externa, é um processo de transformação onde o primeiro ponto em que a gente se encontra é algo que não faz sentido e a gente busca por ele. O trabalho com significado pra mim é um trabalho que une nossos talentos e paixões pra resolver um problema ou necessidade do mundo e assim conseguir estar a serviço de nós mesmos por fazer algo de que a gente goste, mas resolvendo um problema real. Por que hoje não podemos nos dar o luxo de só fazer o que a gente gosta, por mais irônico que seja. Muita gente ainda não trabalha com algo de que gosta, mas hoje não basta só ter um trabalho de que a gente goste. Temos que ajudar a resolver algum problema do mundo, porque a gente vive num caos. De alguma forma, todos nós estamos interconectados e por isso a gente deveria estar se ajudando nesse processo de transformação e melhoria da sociedade. Então, o trabalho com significado tende de alguma forma a melhorar o coletivo, fazendo alguma coisa de que se gosta.

ESF: Se falava há muito tempo dessa divisão de vida pessoal e trabalho e agora muitos acreditam que seja uma coisa só. Como você enxerga isso?

Leela Sa: Realmente acredito que vida pessoal e trabalho sejam uma coisa só. Não tem como dividir, até porque somos uma pessoa só. Não é uma metade nossa que trabalha e a outra fica em casa. É por isso que o trabalho precisa estar integrado no que eu acredito que seja importante na minha vida pessoal. Não há como eu largar minha vida pessoal assim que entro no meu trabalho, por isso que o trabalho, eu acredito, é um lugar pra gente aplicar a nossa missão e resolver problemas nossos da vida pessoal, fazendo coisas de que a gente goste.

ESF: Qualquer pessoa do país pode fazer ou depende muito dos eventos onde você estará?

Leela Sa: Hoje, faço eventos presencialmente em SP, mas estou cada vez mais fazendo coisa on-line. Em outubro, lanço o curso on-line e isso vai poder beneficiar muito mais gente. Meu objetivo é democratizar o coaching e as ferramentas que tenho pra buscar um trabalho com significado. Estou com essa meta do curso on-line, então qualquer pessoa do país pode fazer.

ESF: Algumas pessoas querem mudar de área e não estão felizes em seu trabalho, mas colocam a questão financeira em primeiro lugar. Por que fazer essa travessia é tão difícil?

Leela Sa: Considero que a sociedade valorize alguns valores, como fama, poder, dinheiro, status, o que faz com que a gente preze pela carreira por dinheiro, enquanto que, hoje, percebo muita gente valorizando mais felicidade, satisfação, realização, aprendizado, autoconhecimento e isso faz com que a gente entre em choque com os valores prezados ainda pela sociedade. É por isso que há uma dificuldade nessa transição. Outra coisa é que muitas pessoas buscam viver um trabalho com mais significado só que vivem de um estilo de vida que não necessariamente é preciso quando a gente se realiza. A gente tem que ver o dinheiro como um meio, não como um fim. E ele hoje ainda é visto como um fim. “Preciso de dinheiro pra resolver o que eu quero pra minha vida pessoal”. E não é essa a verdade. Quando a gente trabalha com algo de que gosta e que nos realiza, o dinheiro acaba sendo um meio pra gente fazer as coisas e não um fim. Então, o ideal é que a gente gaste mais tempo da vida fazendo o que a gente goste do que gastando mais dinheiro comprando o que a gente precisa pra nos sentirmos bem.

ESF: O que você mais observa nas pessoas a partir da transição?

Leela Sa: Alguns obstáculos que vejo são: “Vai acabar meu dinheiro”, “Sou desorganizada”, “Não tenho foco”, “Ainda tenho uma dependência financeira”, “Não consigo fazer essa mudança”, “Tenho medo de ser julgado
, o que as pessoas vão achar de mim?”. Falta confiança nas pessoas. “Será que eu consigo?” “Será que não? “Não tenho disciplina pra fazer o que quero”, “Preciso que alguém me fale o que preciso fazer”. Ou a falta ou o excesso de tempo. “Tenho tempo demais, tenho pouco tempo”. Não saber o que fazer com o tempo. Ter que fazer escolhas, mas muitas pessoas não querem tomar decisões porque acham que só têm 2 caminhos pra seguir: o certo e o errado. Na verdade, isso não existe. Existe apenas o melhor pra você. As pessoas têm medo de sair da zona de conforto. Acabam planejando demais, ficam engessadas e não olham para as oportunidades em volta. Elas, às vezes, têm medo do fracasso. “Será que eu consigo?”, “E se eu falhar? O que vou fazer?”, “Como vou garantir que vai ser melhor do que o trabalho que faço hoje?” Observo que as pessoas, quando determinadas, persistentes, com disciplina, ritmo e movimento, conseguem fazer essa mudança e correr atrás do objetivo delas. Só que é importante terem clareza de onde querem chegar para conseguir e, no presente, viver o futuro que querem, por menor que seja, de uma forma essencial. É importante que o presente tenha algo do futuro desejado pra que as pessoas consigam fazer o futuro virar o presente.

ESF: Como funciona o programa Travessia?

Leela Sa: O Travessia é um programa com (dois ou doze) encontros. A primeira parte tem um conteúdo pra contextualização, depois vem uma reflexão individual que costumo chamar de pesquisa individual baseada no conteúdo do dia. Então, uma parte de experiência. São pequenos grupos pra se ajudar e refletir sobre o conteúdo e as reflexões. O programa tem uma parte que é o levantamento do passado, o que faz sentido no que já fiz e, depois, a projeção do futuro, onde quero chegar. A terceira parte é fazer o planejamento do presente para o futuro, como vou fazer pra chegar lá.

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Acredito na autenticidade, na essência, porque o que acontece muito é que as pessoas querem se encaixar numa função quando na verdade deveriam colocar em evidência o que elas têm de melhor e a sua contribuição única no mundo e, dessa forma, conseguirem se destacar.


Entrevista concedida a Angélica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras

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