Convivendo Veganismo

Veganismo de verdade

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Entrevista exclusiva com Julia Harger do “Vegana é sua mãe”

Cada pessoa pode inspirar outras pessoas por suas ações e o modo como compartilha a sua vida. Mas Julia Harger inspira muita gente. Desde mamães, até crianças. O modo como vê a vida de forma simples, voltada para o consciente e o amor para o próximo nos mostram que Julia já fez muita coisa.

Ela que é mãe, vegana, pratica Yoga e também é formada em design gráfico, tem um site, o “Vegana é sua mãe”. Na página ela compartilha experiências, dicas, sugestões e reflexões. Se você ainda não conhece, vale a pena conhecer. Nós do Eu sem Fronteiras conversamos com a Julia sobre o trabalho dela, o envolvimento com a filha, a vida e muito mais. Confira a entrevista:

Eu sem Fronteiras: Sua página traz informações pessoais e relevantes para as mães  tanto sobre alimentação, yoga, dia a dia e experiência. Como foi a ideia de criar “Vegana é a sua mãe”?

Julia Harger: Sempre gostei de compartilhar ideias e textos nas redes sociais, fazia isso na minha página de yoga. Quando tive meu bebê, não teve jeito: o assunto da minha vida passou a ser 99% maternidade. Sabia que criar minha filha com valores de veganismo teria seus desafios, então resolvi fazer o blog para dividir um pouco sobre tudo. Imaginava que existiriam outras mães na mesma situação, algumas procurando apoio e também vi como uma forma de disseminar o veganismo. Além de que eu amo escrever, me faz muito bem. Aí claro, os assuntos do blog se estenderam para a minha forma de criá-la, ecologia, amamentação, além de alimentação. 

ESF: Como yoga tem lhe auxiliado na vida de mãe, amiga e como pessoa?

JH: Antes de me tornar mãe, havia passado por uma fase de evolução espiritual muito intensa. Eu estava meditando muito e conseguindo controlar minhas emoções na maioria das situações. Vindo a maternidade, eu me senti arrastada completamente de volta à minha natureza humana, meus instintos: completamente tomada pelas minhas emoções. Acho que isso é normal, né? Depois de um tempo consegui encontrar meu equilíbrio novamente, mas é uma busca constante. Yoga aqui dentro me ajuda a aceitar as situações da vida como passageiras, tanto as boas quanto as ruins. Me ensina a curtir o caminho mais do que o destino final. E como mãe sinto que a yoga me ajuda a aceitar que o que eu estou fazendo é o meu melhor e ficar satisfeita, não me importar com julgamentos, etc.

Claro que sou humana então às vezes vem aquela ansiedade, aquelas preocupações, arrependimentos. Mas consigo enxergar esses sentimentos como armadilhas do ego, observá-los de fora e parar de sentir. Como pessoa eu acredito que yoga me transformou… por um lado, tento carregar compaixão como meu valor principal, tento lembrar sempre que somos um só aqui no Mundo e não me enxergar como eu. Na verdade a yoga também tirou totalmente a minha ambição, o que para mim é uma coisa ótima (risos). 

ESF: Poderia me falar um pouco sobre você (experiência pessoal e profissional)?
Júlia e sua filha

Júlia e sua filha

JH: Eu sou formada em design gráfico na Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalhei dois anos fazendo design de produtos para uma das maiores fabricante de Revestimentos Cerâmicos do Brasil, e vim para Austrália fazer Mestrado em Gerenciamento de Design. Passei a trabalhar como Coordenadora de Marketing/Merchandising para uma Importadora de Revestimentos Cerâmicos aqui, mas me sentia cada vez mais perdida na vida corporativa. Ao mesmo tempo já havia me envolvido muito com ativismo dos direitos dos animais aqui em algumas organizações e na comunidade vegana. Estava sempre trabalhando nos eventos, participando das reuniões das comunidades, etc.

Na busca de mais amigos veganos, comecei a praticar Jivamukti yoga, que é um estilo de yoga completamente guiado pelo veganismo. Me identifiquei muito. Aí um dia cansei, larguei tudo e fui para a Índia me formar para ser instrutora de Ashtanga yoga. Voltando para Sydney comecei a dar aula no pátio da minha casa e nos parques, ao mesmo tempo arrumei trabalho em um restaurante para ter uma renda fixa e segui assim. Logo que eu descobri que estava grávida, viajei para me especializar em SUP yoga na Califórnia e há uns dois meses também me especializei em yoga para crianças. Claro, larguei o trabalho do restaurante um mês antes de ganhar o bebê e desde que ela fez 6 meses eu voltei a dar algumas aulas de yoga nos horários que o pai dela não trabalha. E estou estudando com a Associação Australiana de Amamentação para servir a comunidade aqui, vou dar aulas nos hospitais… mas esse é trabalho voluntário. Hoje em dia eu recebo 1/4 do que recebia no meu emprego corporativo, mas sou infinitamente mais feliz! 

ESF: Poderia me contar um pouco sobre seu dia a dia?

JH: Acordo com meu despertadorzinho vivo, dou comida para ela e vamos passear no parquinho aqui do lado. Depois ela tira uma soneca e eu tento fazer um pouquinho de yoga ou resolver e-mails, estudar etc. Dependo do dia da semana eu dou uma aula pelo horário do almoço então a levo  junto e o pai dela utiliza o horário de almoço para cuidá-la enquanto dou aula (minhas aulas são no mesmo lugar que ele trabalha, na Universidade Nacional da Austrália). Depois voltamos para casa e temos a tarde livre. Alguns dias da semana temos aulinhas de inglês, ou temos encontro da Associação de Amamentação, ou grupo de mães e bebês, às vezes vamos na biblioteca ler e buscar livros, etc.

Tenho um grupo de mães veganas também que eu organizei. Se ficamos em casa eu coloco ela para dormir mais uma soneca e vou cozinhar ou fazer alguma coisa coisa que preciso. Alguns dias da semana eu dou aula a noite enquanto o pai dela está em casa então é tranquilo também…. outros dias não dou aula mas saio para praticar yoga com algum outro professor. Isso tudo depende do pai dela, que também trabalha como condicionador físico de um time de futebol, então dependendo da temporada ele tem a maioria das tardes ocupadas. Cuidar de um bebê longe de casa é aprender a assobiar e chupar manga ao mesmo tempo, a gente está sempre tendo que coordenar as rotinas, pois não temos ninguém para ajudar com ela. 

ESF: Muito em discussão hoje são notícias e informações sobre a amamentação? Poderia deixar a sua opinião por aqui? 

JH:  Acho que amamentação deve ser encarada como a forma normal de alimentar nossos bebês. Sei que para muitas mães não ocorre tão naturalmente e a maioria esmagadora precisa de algum tipo de auxílio no início, o que é absolutamente normal. O problema é quando existe uma indústria poderosíssima seduzindo profissionais de saúde e torcendo para que as mães deixem de amamentar cedo, assim foi criada a cultura de desmame precoce no Brasil. Não julgo as mães que não querem amamentar (embora não entenda). Mas não acho justo as mães que querem muito amamentar acabam desistindo por acreditar que não conseguem por falta de auxílio ou por motivos altamente parciais dos profissionais de saúde. Como vegana é claro que eu defendo veemente a amamentação, pois não há fórmulas veganas no mercado, até mesmo as de soja tem Vitamina D de origem animal. 

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ESF: Vi nas suas postagens uma forma de deixar mais livre sua filha, sem aquela coisa de enquadrar (princesa, brinco). Por que isso?

JH: Porque vejo essas coisas como desnecessárias, vejo todas como vaidade dos pais. As bebês do sexo feminino tem orelha furada, tem chupeta cheia de strass, vestidos cheios de frufrus, laços desconfortáveis. Nada disso é necessário, são adornos supérfluos. Bebês não precisam ter seu gênero definido, são apenas bebês… acredito que devem ficar o mais confortável possível. Os bebês do sexo feminino são os que sofrem mais, claro. Na nossa sociedade, nós mulheres vivemos colocando a saúde em risco por vaidade (salto, cirurgias, roupas desconfortáveis) e as coitadinhas das bebês acabam sofrendo isso também, de ter que ficar bonita. Enfim, sem contar que acho lindinho um bebê bem neutrinho! 

ESF: Você tem percebido que muitas meninas estão também se “adultizando” muito cedo? 

JH: Sim. Saltos, sutiã de bojo, tratamentos de beleza para meninas são exemplos disso. 

ESF:  Muitas mães te escrevem para saber ou querer dicas de alimentação? E por que acabamos tendo tanta dificuldade em incluir uma alimentação saudável em nosso cotidiano?

JH: Sim, muitas. Acho que por requerer mudança de hábitos que às vezes não são muito confortáveis, né? Exige que se perca mais tempo lendo rótulos, mais tempo no supermercado, mais tempo indo comprar alimentos frescos, cozinhando em casa, etc. Tem a barreira social também, nem sempre é fácil comer bem quando saímos para jantar com amigos. Sempre chamam para churrasco, não é? Principalmente no Brasil rs.

ESF: Onde você busca inspiração?

JH: Em tudo que é simples. Quanto mais simples e tranquilo é meu dia, mais inspirada eu me sinto. Na minha filha ou durante as minhas aulas, por exemplo. 

Saiba mais em: facebook.com/veganaeasuamae

• Entrevista concedida a Angélica Weise da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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