Autoconhecimento • Comportamento • Espiritualidade

A consciência que defendemos também precisa chegar às urnas

Imagem ilustrativa de vários rostos de pessoas diferentes em estilo de mosaico colorido.
Your Name / ninjaDesign / Canva
Escrito por Giselli Duarte

A espiritualidade também se revela na maneira como participamos da vida coletiva. Em tempos de eleições, desenvolver a consciência exige questionar convicções, respeitar diferenças e reconhecer que o bem comum depende de escolhas que considerem a diversidade humana.

Uma reflexão sobre espiritualidade, responsabilidade coletiva e o papel de quem trabalha com o desenvolvimento humano em tempos de eleições.

Em períodos eleitorais, observamos um fenômeno interessante: pessoas que dedicam a vida ao autoconhecimento, à meditação, ao yoga e às práticas terapêuticas também podem se deixar conduzir por emoções intensas, julgamentos precipitados e certezas absolutas. Profissionais que diariamente orientam outras pessoas a observar seus pensamentos, reconhecer suas emoções e ampliar a percepção sobre a vida, por vezes, encontram dificuldades para aplicar esses mesmos princípios quando o assunto é política.

Por que isso acontece? Em que momento nossas convicções se tornam tão rígidas que deixamos de considerar perspectivas diferentes? E até que ponto aquilo que defendemos representa uma reflexão consciente ou apenas a repetição de ideias com as quais aprendemos a nos identificar?

Estamos atravessando mais um período de eleições presidenciais no Brasil, um acontecimento que mobiliza expectativas, receios, interesses e diferentes interpretações sobre os rumos do país. Nesse contexto, considero importante refletir sobre a responsabilidade de quem trabalha com o desenvolvimento humano, especialmente terapeutas, psicólogos, professores de yoga e meditação, astrólogos, tarólogos e profissionais das diversas abordagens integrativas e holísticas.

Quem escolhe trabalhar com o ser humano em suas diferentes dimensões assume também o compromisso de reconhecer sua complexidade. Uma pessoa não pode ser compreendida exclusivamente por suas crenças, condições financeiras, experiências emocionais ou circunstâncias sociais. Da mesma maneira, uma sociedade não pode ser analisada apenas pela perspectiva de um grupo, de uma categoria profissional ou de interesses particulares.

Se defendemos uma visão holística da existência, por que abandonar essa perspectiva justamente diante de questões que afetam milhões de pessoas?

A palavra holístico remete à compreensão do todo e das relações entre suas diferentes partes. Aplicada à vida coletiva, essa perspectiva exige considerar como decisões públicas podem repercutir na educação, na saúde, na economia, no meio ambiente, na segurança, na cultura e nas condições de vida de diferentes comunidades. Também exige reconhecer que uma medida capaz de beneficiar determinado grupo pode produzir consequências distintas para outros.

Isso não exige que todos cheguem às mesmas conclusões. Exige disposição para examinar as consequências das próprias escolhas além daquilo que nos favorece imediatamente.

É compreensível que cada pessoa tenha preferências, experiências e necessidades que influenciem suas posições. Somos atravessados por nossa história familiar, formação, ambiente social, condições materiais e relações afetivas. Reconhecer essas influências, entretanto, deveria nos tornar mais atentos à maneira como construímos nossas opiniões.

Quando uma proposta beneficia diretamente nossa profissão, conseguimos avaliar seus possíveis efeitos sobre quem está fora dela? Quando uma decisão atende aos nossos interesses econômicos, investigamos como poderá repercutir na vida de pessoas com condições diferentes das nossas? Quando concordamos com uma liderança, permanecemos capazes de questionar suas atitudes?

A consciência que cultivamos nas práticas contemplativas deveria nos ajudar a perceber essas contradições.

Na tradição do yoga, encontramos o princípio de ahimsa, frequentemente associado à não violência. Sua aplicação ultrapassa a ausência de agressão física e alcança a maneira como nos relacionamos com os outros, inclusive por meio das palavras e atitudes. Em períodos eleitorais, quando divergências facilmente se convertem em hostilidade, esse princípio merece atenção.

De que maneira tratamos alguém que pensa de forma diferente? Conseguimos discordar sem desumanizar? Somos capazes de reconhecer a dignidade de uma pessoa mesmo quando rejeitamos suas ideias? Ou utilizamos nossas convicções como justificativa para comportamentos que condenaríamos em qualquer outra circunstância?

A meditação também nos oferece uma reflexão importante. Ao observarmos nossos pensamentos, aprendemos que nem toda ideia que surge na mente corresponde necessariamente aos fatos. Uma emoção intensa pode influenciar nossa interpretação de determinada situação. O medo pode ampliar ameaças, a raiva pode reduzir nossa disposição para escutar e o desejo de pertencimento pode nos levar a aceitar argumentos sem examiná-los adequadamente.

Se compreendemos isso durante uma prática meditativa, por que seria diferente diante de um discurso político?

Imagem de várias pessoas com diferentes perfis reunidas em um ambiente natural. A foto traz a importância de escutar opiniões divergentes, reconhecer a diversidade e preservar o respeito nas discussões coletivas.
Pixland / Photo Images / Canva

O pensamento crítico não precisa ser abandonado em nome da espiritualidade. Ao contrário, uma espiritualidade comprometida com a consciência deveria estimular perguntas, investigação e responsabilidade. Questionar informações, verificar fontes, conhecer propostas e examinar consequências são atitudes compatíveis com uma vida dedicada ao autoconhecimento.

Também precisamos observar o risco de confundir neutralidade partidária com indiferença diante de questões humanas. Não escolher uma identidade política para definir todas as nossas opiniões não nos dispensa de considerar direitos, responsabilidades, evidências e consequências concretas. É possível manter independência de pensamento e reconhecer que determinadas decisões afetam diretamente a vida e a dignidade das pessoas.

A imparcialidade exige disposição para aplicar critérios semelhantes àquilo com que concordamos e àquilo que rejeitamos. Se condenamos determinada conduta em uma liderança, estamos dispostos a condená-la também quando praticada por alguém de nossa preferência? Se exigimos transparência de um grupo, fazemos a mesma exigência aos demais? Se defendemos a liberdade de expressão, conseguimos reconhecer a importância desse princípio quando a opinião expressa nos desagrada?

Essas perguntas podem ser desconfortáveis porque nos obrigam a examinar nossa própria coerência.

Há ainda uma responsabilidade particular para quem ocupa uma posição de influência no campo terapêutico e espiritual. Pessoas procuram esses profissionais em momentos de vulnerabilidade, buscando orientação, acolhimento ou compreensão. Essa relação pode envolver confiança e admiração, condições que exigem cuidado para que opiniões pessoais não sejam apresentadas como verdades superiores ou como consequência obrigatória de determinado nível de consciência.

Nenhuma preferência eleitoral deveria funcionar como certificado de evolução espiritual. Tampouco a discordância política permite concluir que alguém seja menos consciente, menos desenvolvido ou incapaz de compreender a vida.

O autoconhecimento perde profundidade quando se converte em instrumento de superioridade moral.

Podemos reconhecer nossas convicções sem transformá-las em medida do valor humano. Podemos participar das discussões públicas sem reduzir pessoas a rótulos. Podemos defender propostas e questionar decisões preservando a capacidade de rever nossas próprias interpretações.

E, principalmente, podemos compreender que o coletivo inclui pessoas que jamais conheceremos, cujas necessidades não coincidem necessariamente com as nossas.

O Brasil reúne histórias, culturas, condições sociais e modos de vida profundamente diversos. Pensar no futuro de um país dessa dimensão exige considerar essa diversidade, inclusive quando ela desafia nossas preferências pessoais.

Se dedicamos tantas horas ao estudo da consciência, das emoções, das relações humanas e da interdependência entre os seres, temos diante de nós uma oportunidade de aplicar esses conhecimentos à maneira como participamos da vida pública.

Que tipo de consciência estamos desenvolvendo se ela funciona apenas quando tudo acontece de acordo com nossas preferências? De que vale defender a compaixão se ela desaparece diante de uma opinião divergente? E qual é a profundidade de uma visão holística que considera apenas as consequências favoráveis para nós mesmos?

As eleições passarão. Continuaremos convivendo com pessoas que pensam de maneiras diferentes, compartilhando instituições, cidades, recursos naturais e responsabilidades.

A maneira como participamos desse período também revela algo sobre nós.

E quem dedica a vida a compreender o ser humano deveria estar especialmente disposto a olhar para aquilo que suas próprias convicções ainda não permitem enxergar.

  • Giselli Duarte

    Giselli Duarte

    Fundadora da Terapeutas Digitais | Estrategista de Negócios
    [email protected][email protected]@giselli.dgiselliduarte.com@nocaminhodoautoconhecimentogiselli.d@gisellidu

    Atuo na interseção entre negócios, comportamento humano e comunicação estratégica, apoiando profissionais e empresas na construção de posicionamentos consistentes, processos mais eficientes e decisões alinhadas aos seus objetivos de crescimento.

    Sou fundadora da Terapeutas Digitais, empresa especializada em estratégia, gestão e posicionamento para terapeutas e empreendedoras. Minha atuação integra negócios, comunicação estratégica e desenvolvimento humano, partindo da compreensão de que muitos desafios empresariais estão diretamente ligados à forma como a pessoa conduz sua comunicação, toma decisões e ocupa seu papel dentro da própria empresa.

    Embora meu trabalho tenha como foco negócios, gestão e posicionamento, frequentemente as questões que limitam o crescimento de uma empresa também passam pelo comportamento de quem a lidera. Por isso, minha atuação considera tanto os aspectos estratégicos quanto os padrões que influenciam decisões, comunicação e desenvolvimento empresarial.

    Sou formada em Marketing, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios, pós-graduação em Design Gráfico e pós-graduação em Inteligência Artificial aplicada a Growth Marketing. Também realizei estudos voltados ao comportamento humano, com pós-graduações em Psicanálise Clínica, Inteligência Emocional e Constelação Familiar Sistêmica, além de formações em meditação, atenção plena e yoga.

    Ao longo da minha trajetória, atuei em projetos de diferentes segmentos, incluindo engenharia, startups e comunicação. Essa experiência ampliou minha visão sobre gestão, posicionamento, processos e crescimento empresarial em diferentes contextos de mercado.

    Sou autora de três livros, colunista do portal Eu Sem Fronteiras e instrutora de meditação nas plataformas Insight Timer e Aura Health, onde compartilho conteúdos voltados à atenção, autorregulação e desenvolvimento humano.

    Além da atuação em estratégia e negócios, também realizo atendimentos voltados a empreendedoras. Esse trabalho integra conhecimentos de comportamento humano, atenção plena e desenvolvimento emocional, ampliando a compreensão sobre fatores que frequentemente influenciam decisões, posicionamento e crescimento profissional.

    Também atuo como mentora voluntária na Rede Mulher Empreendedora (RME), apoiando mulheres na análise de desafios relacionados à gestão, posicionamento e crescimento de seus negócios.

    Meu trabalho é voltado a profissionais que desejam desenvolver negócios mais organizados, tomar decisões com mais clareza e construir estruturas capazes de acompanhar o crescimento que buscam alcançar.

    Curso: Meditação para quem não sabe meditar Livros: Conheça meus livros Aplicativos: meditações guiadas disponíveis no Aura Health e Insight Timer