O artigo anterior abordou o comportamento antiético de psicólogos registrados nos Conselhos Regionais de Psicologia. Mas existe outro território onde a vulnerabilidade do público é ainda maior: o universo das práticas terapêuticas não regulamentadas.
Constelação familiar, barras de Access, thetahealing, programação neurolinguística, hipnose ericksoniana, biomagnetismo, coaching. A lista é extensa e cresce a cada ano. São práticas que, quando aplicadas por profissionais bem formados e éticos, podem funcionar como ferramentas complementares interessantes no processo de autoconhecimento.
O problema começa quando três fatores se combinam: ausência de regulamentação, promessas exageradas e pessoas vulneráveis buscando ajuda para questões sérias de saúde mental.
Direto ao ponto
O que significa não ser regulamentado
Quando uma profissão não é regulamentada, significa que não existe conselho de classe fiscalizando, não existe exigência de formação mínima, não existe código de ética obrigatório e, principalmente, não existe instância formal para denúncias quando algo dá errado.
Qualquer pessoa pode fazer um curso de 40 horas online, receber um certificado e começar a atender no dia seguinte. Não precisa comprovar horas de prática supervisionada. Não precisa passar por avaliação de competência. Não precisa fazer terapia pessoal (algo que seria básico para quem vai lidar com o sofrimento alheio).
Compare isso com a formação de um psicólogo: cinco anos de graduação, estágios supervisionados, geralmente especialização ou pós-graduação, registro no CRP, educação continuada. E mesmo assim, como vimos no artigo anterior, existem problemas graves de conduta.
Agora imagine o que pode acontecer quando não existe nenhum desses filtros.
Não é sobre invalidar as práticas
Antes de continuar, um esclarecimento necessário. Nada do que será dito aqui pretende deslegitimar práticas complementares em si. Conheço profissionais sérios que utilizam constelação familiar, PNL, hipnose e outras abordagens de forma responsável, sempre deixando claro que são ferramentas complementares e não substitutas de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário.
Esses profissionais geralmente têm formação sólida em alguma área de base (psicologia, medicina, serviço social), investem em formações longas e reconhecidas nas práticas que utilizam, têm supervisão constante e sabem identificar quando um caso está além de sua capacidade de manejo.
O problema não está nas técnicas. Está na forma como são comercializadas e aplicadas por pessoas sem preparo adequado.
O que tem acontecido
Nos últimos anos, acompanhando redes sociais e conversando com pessoas que buscaram essas práticas, identifiquei alguns padrões preocupantes:
Profissionais que atendem casos graves de depressão, ansiedade generalizada, transtorno bipolar, ideação suicida sem ter formação para identificar essas condições ou saber quando encaminhar para psiquiatra.
Práticas vendidas como cura definitiva para traumas complexos em sessões únicas ou pacotes de três encontros, algo que qualquer pessoa com formação séria em saúde mental sabe ser impossível.
Culpabilização sutil ou explícita da pessoa atendida quando os resultados prometidos não aparecem. “Você não está se abrindo”, “Sua resistência está bloqueando o processo”, “Você está atraindo isso para sua vida com seus pensamentos negativos”.
Criação de dependência emocional e financeira. Pacotes cada vez mais caros, promessas de transformações cada vez mais grandiosas, relacionamento que extrapola os limites profissionais.
Ausência total de contraindicações. Tudo serve para todo mundo, sem avaliação individualizada.
Os relatos que não têm para onde ir
Uma mulher com histórico de abuso sexual infantil fez sessão de constelação familiar. O facilitador, sem formação em trauma, conduziu uma dinâmica que a fez reviver a cena de forma intensa e desregulada. Ela saiu da sessão em crise dissociativa. Não houve acompanhamento posterior. Quando tentou conversar com o facilitador sobre o ocorrido, ouviu que era “parte do processo de cura”. Onde ela poderia denunciar isso?
Um homem com transtorno bipolar não diagnosticado procurou um coach que prometeu resolver seus problemas financeiros e emocionais. Durante sessões de visualização e afirmações positivas, entrou em episódio maníaco, tomou decisões financeiras desastrosas e só foi diagnosticado quando a família o levou ao psiquiatra. O coach não identificou os sinais de mania porque não tinha formação para isso. Onde a família poderia denunciar?
Uma jovem com depressão severa passou meses fazendo thetahealing. A terapeuta garantiu que ela não precisava de medicação, que a cura viria das crenças limitantes sendo reprogramadas. O quadro se agravou até tentativa de suicídio. Onde ela poderia ter denunciado antes de chegar a esse ponto?
Esses não são casos inventados. São relatos que chegam em conversas privadas, em grupos de apoio, em comentários de redes sociais. E todos têm algo em comum: a pessoa prejudicada não tinha instância formal para recorrer.
A diferença entre complementar e alternativo
Existe uma confusão perigosa de nomenclatura. Quando algo é chamado de “terapia alternativa”, passa a ideia de que pode substituir tratamentos convencionais. Quando é chamado de “terapia complementar”, fica claro que funciona em conjunto, não no lugar de.
Profissionais responsáveis fazem questão dessa distinção. Deixam explícito, desde o primeiro contato, que seu trabalho não substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Fazem triagem cuidadosa. Perguntam se a pessoa está em terapia, se toma medicação, se já teve diagnósticos prévios. Recusam atender casos que estão além de sua capacidade.
Profissionais irresponsáveis vendem suas práticas como solução completa. Criticam abertamente medicações psiquiátricas. Desencorajam as pessoas a procurarem psicólogos ou médicos. Prometem curas rápidas e definitivas.
A diferença está menos na técnica utilizada e mais na postura ética de quem aplica.
O risco da promessa fácil
Pessoas em sofrimento psíquico são extremamente vulneráveis. Quando alguém está lidando com depressão há anos, passou por vários terapeutas sem melhora significativa, toma medicações com efeitos colaterais desagradáveis, a promessa de uma solução rápida, natural e definitiva é sedutora.
“Em uma sessão você vai ressignificar esse trauma.”
“Três encontros e você estará livre da ansiedade.”
“Sem precisar de remédios, sem anos de terapia, apenas acessando seu poder interior.”
Essas promessas não são apenas enganosas. São perigosas. Porque fazem a pessoa abandonar tratamentos que, embora lentos e trabalhosos, têm evidência de eficácia. E quando a promessa não se cumpre (como inevitavelmente não se cumprirá), a pessoa fica ainda mais desesperançosa.
Pior: frequentemente sai dessas experiências se culpando. “Não funcionou porque eu não me entreguei o suficiente”, “Minha energia estava bloqueada”, “Eu sabotei meu próprio processo”. A responsabilidade pelo fracasso recai sobre quem já está fragilizado, nunca sobre o método ou sobre quem o aplicou.
O que falta
Existe espaço legítimo para práticas complementares no cuidado com a saúde mental. Mas esse espaço precisa vir acompanhado de responsabilidade.
Falta formação séria e longa. Cursos de fim de semana não capacitam ninguém a lidar com sofrimento psíquico complexo. Formações nessas práticas deveriam exigir centenas de horas de estudo teórico, prática supervisionada, conhecimento básico de psicopatologia, ética profissional.
Falta reconhecimento de limites. Nenhuma prática, por mais poderosa que seja, serve para tudo e para todos. É preciso humildade para dizer “esse caso não é para mim” ou “isso precisa de acompanhamento psiquiátrico junto”.
Falta um código de ética claro. Mesmo sem regulamentação estatal, associações e escolas que formam profissionais nessas áreas poderiam estabelecer diretrizes éticas rígidas e afastar quem não as cumpre.
Falta transparência. Profissionais deveriam informar claramente sua formação, suas limitações, os riscos e contraindicações de suas práticas, e o fato de que seu trabalho não substitui acompanhamento em saúde mental quando necessário.
Falta instância de denúncia. Enquanto não houver regulamentação, associações profissionais poderiam criar ouvidorias para receber e investigar denúncias de má conduta.
O que quem busca essas práticas pode fazer
Se você está considerando iniciar alguma prática complementar, alguns cuidados podem reduzir riscos:
Pesquise a formação do profissional. Onde ele estudou? Quanto tempo durou a formação? Ele tem supervisão? Tem outra formação de base na área de saúde?
Desconfie de promessas grandiosas. Se alguém garante cura rápida e definitiva, está mentindo ou iludido. Processos psicológicos são complexos e levam tempo.
Não abandone tratamentos convencionais. Práticas complementares devem somar, nunca substituir o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando estes são necessários.
Observe como o profissional lida com limitações. Ele reconhece que existem casos que não pode atender? Ele sugere buscar outros profissionais quando necessário? Ou vende sua prática como solução universal?
Preste atenção em red flags: culpabilização quando resultados não aparecem, criação de dependência emocional, desencorajamento de buscar outros profissionais, promessas de soluções mágicas, extrapolação de limites profissionais.
Se algo der errado, documente. Mesmo que não exista conselho de classe para denunciar, você pode avaliar publicamente (com responsabilidade), pode alertar outras pessoas, pode buscar reparação judicial se houver dano comprovável.
Para quem pratica
Se você trabalha com alguma modalidade complementar, algumas reflexões são necessárias:
Você tem clareza sobre suas limitações? Sabe identificar quando um caso precisa de psiquiatra, psicólogo ou outro profissional de saúde?
Você deixa explícito para as pessoas que seu trabalho é complementar e não substitui acompanhamento em saúde mental quando este é necessário?
Você faz promessas realistas ou vende sua prática como solução definitiva?
Você continua estudando, buscando supervisão, reconhecendo que lidar com sofrimento humano exige atualização constante?
Você assume responsabilidade quando algo não funciona ou culpabiliza a pessoa atendida?
Você respeita limites profissionais ou cria relacionamentos que extrapolam o contexto do trabalho?
Essas perguntas não têm fiscalização externa. Dependem exclusivamente da honestidade de cada profissional. E talvez seja justamente aí que mora o maior risco dessa zona cinzenta: tudo depende da ética individual de quem pratica, sem nenhuma estrutura externa de controle.
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A conversa necessária
O crescimento explosivo de práticas complementares na área de saúde mental reflete algo importante: as pessoas estão buscando alternativas porque os caminhos convencionais nem sempre são acessíveis, acolhedores ou eficazes.
A terapia psicológica é cara e tem filas longas no serviço público. A psiquiatria no SUS é precária. Medicações têm efeitos colaterais. Processos terapêuticos são lentos e dolorosos. É compreensível que as pessoas busquem outros caminhos.
Mas a solução não pode ser trocar um sistema imperfeito por outro completamente desregulado. É possível ter práticas complementares sérias, éticas e eficazes. Mas isso exige que tanto profissionais quanto o público desenvolvam senso crítico mais apurado.
Talvez seja hora de as próprias categorias profissionais dessas práticas se organizarem, estabelecerem padrões éticos, criarem mecanismos de controle de qualidade e afastarem quem faz uso irresponsável dessas ferramentas. Porque se isso não vier de dentro, eventualmente virá de fora, seja por pressão social, seja por processos judiciais acumulados, seja por tragédias que poderiam ter sido evitadas.
Até lá, a zona cinzenta permanece. E, com ela, pessoas vulneráveis continuam desprotegidas, sem saber em quem confiar e sem ter para onde recorrer quando as coisas dão errado.
