Autoconhecimento

Apague suas memórias dolorosas

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

O  sofrimento é um dos temas favoritos dos artistas. Na vida cotidiana, ninguém está livre de sofrer, nem mesmo uma criança. Rendimento escolar muito baixo, dificuldade para prestar atenção, não querer ir à escola e ter dor de cabeça ou outros sintomas físicos ao ir para a aula indicam que ela está sendo vítima de bullying, violência onde o alvo é constantemente humilhado, oprimido, agredido fisicamente e, em casos mais graves, morto. A separação dos pais também faz uma criança sofrer. Agitação, choro, batimentos cardíacos alterados, agressividade, queda no desempenho escolar, sentimentos de que a situação é passageira, de culpa e de abandono são as principais características desse sofrimento.

A adolescência é uma fase de “grandes perdas e lutos”, nas palavras da psicóloga e psicanalista Elianne Diz de Abreu. Mas, ao contrário do sofrer infantil, onde há enorme cuidado para recuperar o emocional, o adolescente é deixado de lado em relação às suas dúvidas e crises existenciais. A garota ou o garoto que ficam trancados no quarto e demonstram oscilações de comportamento são tidos como “normais”. A adolescência é sim uma fase de variações de humor e exageros, porém existem limites. A tristeza prolongada, o isolamento e a busca por refúgio em substâncias ilícitas devem ser investigados e tratados. Elianne ressalta que toda mudança causa crises. Vamos entender o que faz um jovem sofrer:

Adeus ao mundo infantil

Antes era um mundo divertido, sem responsabilidades e seguro. De repente, as coisas mudam e o mundo ganha proporções maiores. Se antes o mundo era a casa, a escola e a residência de parentes, hoje ele fica do tamanho do infinito, com suas particularidades e possibilidades, seus fascínios e medos. É difícil lidar com essa ruptura que, consequentemente, vem acompanhada pela famosa…

Crise de identidade

O corpo muda de uma hora para outra. É na adolescência que acontece o “estirão” e o menino e a menina crescem. Aparecem pelos, o corpo ganha forma, a voz muda… O indivíduo não é mais criança, mas também não é adulto. Diante desse impasse, impossível não ficar desorientado. Nessa crise de identidade, o jovem muda a visão que tem dos pais, o pai não é mais um herói, a mãe não é mais maravilhosa. Nessa desmistificação, os pais ganham um ar “normal” e passam a ser pessoas reais.

Sexualidade?

Com a mudança do corpo vem a descoberta da sexualidade. Mas, se ainda não é adulto, pode viver os prazeres que o corpo está pronto para proporcionar? Os hormônios dizem que sim, porém, a mente e o coração têm muitas dúvidas. Pais repressivos ou negligentes em relação a essas mudanças atrapalham tudo.

Muitas perspectivas
Mesmo no limbo de não ser criança nem adulto, o adolescente faz muitos planos adultos. Quer ser admirados por todos, ser bem-sucedido profissionalmente, ser emocionalmente equilibrado e ter um grande amor. Diante de tantas expectativas, ele não sabe por onde começar e fica com medo de não conseguir nada.

Sofrimento feminino

As mulheres são mais livres para sofrer e expor dúvidas existenciais e problemas amorosos. O sofrimento feminino é mais respeitado. Sendo influenciadas pelos hormônios, os sofrimentos físico e emocional das mulheres são associados à menstruação. O fluxo impede o trânsito de energia vital pelo corpo. A carga energética da menstruação possui a mulher de tal forma que fala, age, pensa por ela e dá origem a eventos negativos.

Sofrimento masculino

As angústias masculinas costumam não ser levadas a sério. Desde sempre, o homem é incentivado a esconder suas emoções e fraquezas como prova de sua masculinidade. Os arquétipos masculinos podem explicar como os homens lidam com o sofrimento. Confira quais são os quatro principais:

Puer Aternus

Em latim, significa “eterno jovem”. Para a Psicologia Analítica Jungiana, corrente psicológica do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, esse arquétipo tem como figuras a criança, o pré-adolescente e o adolescente. Os psicólogos que seguem essa corrente apontam o Puer Aternus relacionado com a imaturidade e o narcisismo.

Trickster

A mitologia, o folclore e a religião mostram o Trickster (pregador de peças) como um espírito deus, deusa ou animal antropomórfico (ser com características humanas). O Trickster não segue regras, pode ser esperto ou bobo. Esse arquétipo é chamado de “masculino emergente” que transita entre o ser adulto, a renovação contínua, a sensualidade, o Puer Aternus e o pai (o quarto arquétipo).

Herói

Arquétipo ligado aos ritos de passagem, estruturas formadoras da consciência masculina e a formação da virilidade.

Pai

Conceitos de lei, exemplificação do que pode ou não, arquétipo da formação do ego, estrutura psicológica responsável por fazer o ser humano agir racionalmente, planejar e esperar.

Velho sábio

Reflexão e aconselhamento do herói.

O sofrimento segundo a Bíblia

Muita gente se pergunta: “Por quê Deus permite que pessoas boas sofram?” A dúvida é natural pelo fato dele ser misericordioso. Os cristãos podem buscar na Bíblia a explicação e o conforto para momentos dolorosos. O livro sagrado tem um livro inteiro sobre o tema, Jó. Ele estava triste devido à discussão entre Deus e Satanás, porém não tinha consciência do seu sofrimento. Quando Jó é confrontado por Deus, o homem entende que nenhuma dor e nenhum sofrimento são frutos do acaso, todas as provas que passamos são obras dirigidas por Deus. A grande lição é entender que mesmo os dias mais sofridos servem como lição para confiarmos que Deus não nos abandona e tem um propósito maior.

O sofrimento também é tema em Gênesis. O sentimento de José, feito e vendido como escravo pelos irmãos, é o pano de fundo. José foi alvo de acusações falsas e preso no Egito. O sofrimento, sobretudo a fé em dias melhores, o fez superar as adversidades e reverter a situação, tornando-se governador do Egito, cargo abaixo do Faraó. A moral dessa história está em Gênesis 50:19-21 “Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração”.

O sofrimento segundo o budismo

No budismo, filosofia criada por Sidarta Gautama (Buda) na Índia, o sofrimento vem das atitudes praticadas ao longo da vida, que são contabilizadas nas outras vidas. Nessa filosofia, existem oito sofrimentos, vejamos quais são eles:

  • Nascimento: após os nove meses vem a dor e o medo do nascer. O sofrimento do nascimento diz que somos prisioneiros do nosso corpo e do lugar onde nascemos;
  • Envelhecimento: passar ileso pelas tentações e pelos perigos da juventude é uma vitória. O envelhecimento é ver a deterioração do corpo e da mente ao mesmo tempo em que vemos morrer pessoas queridas;
  • Doença: a saúde é um dos prazeres da vida, já que é oposta à doença que impede todos os prazeres. Contudo, ninguém está livre de sofrer pela ausência desse prazer;
  • Morte: a única certeza da vida. A morte pode ser repentina, mas, na maioria das vezes, é lenta e muito dolorosa;
  • Perder um amor: será difícil encontrar quem nunca sofreu porque viu o ser amado partir ou alguém que sempre teve seus sentimentos retribuídos;
  • Ser odiado: podemos ser odiados mesmo andando nos trilhos da bondade e da justiça. Quem age assim é o maior inimigo dos semeadores de discórdia;
  • Desejo não realizado: grande parte do que somos é determinada pelos nossos desejos. Muitos sofrimentos são causados por eles. A não realização traz ainda mais dor;
  • Os cinco Skandhas: forma, sensação, percepção, atividade e consciência são os meios para a materialização do sofrimento.
Causas do sofrimento

Todo sofrimento tem uma causa, confira as explicações para cada sofrimento:

Eu em desarmonia com o mundo material: nunca estamos satisfeitos, por isso essa desarmonia. Se está calor é calor demais, se está frio é frio demais. Se a rua é silenciosa é silenciosa demais, se é barulhenta é barulhenta demais. Se a casa é pequena é pequena demais, se é grande é grande demais. Se estamos solteiros queremos namorar e vice-versa. Pensamos que o mundo nunca está de acordo com o que desejamos, mas, para a falar a verdade, a gente não sabe o que quer da vida.

Eu em desarmonia com as pessoas: nem sempre temos a chance de estar com pessoas que gostamos. Trabalho, estudo e vida em sociedade nos obrigam a conviver com pessoas que não conseguimos nos relacionar que, por sua vez, não fazem questão de esconder a antipatia que sentem pela gente.

Eu em desarmonia com o corpo: precisamos aceitar o ciclo da vida, que é nascimento, envelhecimento, perda da saúde e morte. Como diz a frase de Mário Lago: “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: Nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra”.

Eu em desarmonia com a mente: muitos de nós não temos controle sobre nossa mente. Não conseguimos nos concentrar numa ideia e a cabeça pula para outra. Quando a mente não está em ordem, temos dificuldade para realizarmos atividades com excelência.

Eu em desarmonia com seus desejos: sabemos que os desejos podem causar sofrimento, mas nem por isso conseguimos controlá-los. Essa falta de autocontrole é porque não sabemos o que realmente é melhor para nós. Viramos reféns dos nossos desejos e pagamos com sofrimento.

Eu em desarmonia com as próprias opiniões: quando nossas opiniões não seguem o caminho da verdade, nosso coração sofre muito, porque repetiremos incansavelmente os mesmos erros.

Eu em desarmonia com a natureza: o homem sofre com as violentas oscilações climáticas. Calor insuportável, chuvas intensas, enchentes devastadoras e secas intermináveis. A ganância humana leva a natureza a um colapso.

Memórias tristes doem mais?

Sim, muito mais do que se imagina. Se você pensa que isso é bobagem, melhor mudar de ideia. É o que revela um estudo realizado pela Universidade de Purdue, nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram pessoas com histórico de perdas emocionais sérias. Constataram que a dor psíquica fica mais tempo na memória porque age como um ioiô que vai e volta, sendo que, a cada volta, machuca a mente já fragilizada.

As dores física e a emocional têm origem no córtex, área do cérebro responsável pelas ações de julgamento e percepção. Por que as dores emocionais permanecem presentes após tanto tempo ainda é um mistério. Porém, é fato que o sofrimento causa problemas físicos. A recuperação é lenta, pois a mente fica “martelando” a dor o tempo inteiro, conforme explica Sueli Damergian, psicóloga da USP (Universidade de São Paulo).

Tratamentos convencionais

A terapia é indicada para qualquer conflito interno que abale a existência humana. O tratamento varia de acordo com o problema, a intensidade e, principalmente com as características do indivíduo. As correntes mais utilizadas são a Terapia Cognitiva, que lida com as consequências da dor, e a psicanálise, que investiga a raiz do problema. A duração do tratamento também é variável.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

  • O filme de 2004 traz a luta de Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) para manter o relacionamento. Clementine fica desiludida, vai embora e encara um tratamento experimental que promete apagar suas memórias. Ela decide deletar tudo o que viveu com ele. Ao saber disso, Joel, decepcionado com a atitude, também aceita o procedimento e apaga as memórias que viveu com Clementine. O filme não é ficção científica, porém o documentário da emissora de TV americana PBS, Memory Hackers, mostrou que excluir memórias dolorosas não é tão absurdo quanto parece.
Como as memórias se formam?

As proteínas estimulam as células cerebrais a formarem novas conexões. Após o processo, a memória fica armazenada para ser acessada. As memórias de longo prazo não têm estabilidade, elas se tornam maleáveis e mais fortes a cada vez que nos lembramos delas. Esse fenômeno é a reconsolidação, responsável pela mudança das memórias ao longo dos anos.

Richard Gray é um cientista que participou de uma pesquisa para estudar a relação entre a norepinefrina (ou noradrenalina) — substância ativada em briga, ansiedade antes de viagens aéreas e responsável pelo aceleramento do coração e pelas mãos suadas nessas situações — e as memórias desagradáveis. Impedindo a produção desse componente, seria possível “apagar” as lembranças ruins. Gray e os demais pesquisadores analisaram três grupos de pessoas com medo de aranhas, dois deles viram uma tarântula dentro de um vidro. O terceiro não viu o animal e recebeu propranolol, substância usada no tratamento da pressão alta.

Após alguns meses, o grupo que recebeu a droga conseguiu ver e tocar o animal sem medo. Depois de três meses, boa parte dos voluntários seguravam a aranha. A ausência de medo durou mais de um ano. Grey explicou que “nosso estudo sugere que as memórias possam ser manipuladas porque elas ‘agem’ como se fossem feitas de vidro, num estado antes de ele se tornar sólido. Quando uma memória é ‘solicitada’ novamente, contudo, ela volta a esse estado maleável e permite alterações”.

Mas que fique claro: as tentativas de apagar memórias ainda não foram feitas devido a questões éticas. Entretanto, não é impossível. Fármacos e exercícios de memória são os caminhos.
O mais inacreditável mesmo é poder implantar memórias falsas com o processo de reconsolidação, dessa forma, as pessoas se lembrarão de coisas que nunca aconteceram e darão detalhes.

Pesquisadores do Memory Hackers afirmam que a ideia não é apagar as memórias tristes por completo e sim deixá-las menos dolorosas. Para eles, os estudos dessa área ajudarão nos tratamentos de ansiedades e fobias.

Já pensou poder apagar parte de suas lembranças tristes? Você passaria por esse tratamento? Quais memórias você apagaria? Queremos saber o que você apagaria e por quê.


Texto escrito por Sumaia de Santana Salgado da Equipe Eu Sem Fronteiras

Sobre o autor

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