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Quando convicção não é sinônimo de verdade

Imagem de um adolescente com a cabeça erguida e ao fundo vários sinais de interrogação sobre a sua cabeça, simbolizando os pensamentos.
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Observa-se que misturar “certo”, “coerente” e “lógico” empobrece o pensamento e alimenta intolerância. Ao distinguir tradição de ética, coerência de justiça e lógica de verdade, o debate ganha critérios e responsabilidade. Pensar maduro não é sustentar certezas rígidas, mas testar premissas, revisar posições e evitar transformar a própria identidade em régua do mundo.

“O conceito de certo, de coerência e de lógica, e porque a diferença importa”.

Há uma clara confusão conceitual nas discussões humanas — da opinião pessoal ao debate público — que, com muita frequência, se revela perigosa quanto ao que é levado a todo o conjunto da sociedade. Trata-se do entendimento do que é certo, do que é coerente e do que é lógico. Quando tal fusão acontece, convicções acabam virando “provas”, identidade é convertida em “verdade” e discordância é vista como “distorção moral”. A própria ciência se impõe.

O resultado disso – e daí o risco em que implica – é previsível e direto: julgamentos apressados, intolerância intelectual e, nos casos mais preocupantes, justificativas bem organizadas para ideias profundamente injustas. Daí porque separar esses três conceitos não se trata de mero preciosismo filosófico — mas de “higienização mental”, ou depuração do pensamento crítico para não transferir a outrem as consequências da própria ignorância.

Começando pelo certo, baseado no “sempre foi desse jeito”, o que não faltam são pessoas tratando seu entendimento como extensão do que aprenderam. O raciocínio implícito nessa visão de mundo é bastante simples: “se sempre me ensinaram assim, então é assim que deve ser”, ou seja: o aprendizado de origem atua como critério de validação, ignorando a lógica universal de que formação não é prova, mas ponto de partida.

Vamos entrar um pouquinho mais fundo no que dissemos: tudo o que aprendemos nasce de um contexto social, cultural, histórico, familiar, religioso, etc., que tanto pode revelar sabedoria quanto distorções herdadas que, diga-se de passagem, é muito mais frequente que o oposto. O resultado é que, sem exame crítico, a tradição acaba transformada em blindagem contra a realidade.

O que torna algo moralmente certo não está associado à cultura familiar – que é uma construção social – mas ao impacto que produz nas pessoas. Princípios éticos minimamente estáveis não nascem da preferência individual, mas de critérios baseados em valores universais como dignidade, justiça e efeito não lesivo. Em resumo, quando o “certo” é reduzido ao “meu”, a ética encolhe até caber no espelho.

Partindo agora para a Coerência, a primeira coisa a entender é que não se trata, necessariamente, de virtude pessoal. Ou seja: não cabe aqui a lógica de que, se uma pessoa é coerente, automaticamente está correta.
Por definição, coerência é alinhamento entre discurso e prática, uma qualidade estrutural do comportamento. Como exemplo didático, espécies animais de uma forma geral costumam ser “coerentes”, porque seu comportamento obedece a um padrão esperado. Ao revelarem incoerência com tal padrão, denunciam alguma anormalidade que dá causa ao comportamento desviante.

Na espécie humana, no entanto – em cujo contexto inexiste esse vetor natural – ficamos submetidos à variável da intencionalidade, ou seja: a pessoa escolhe manter – ou não – coerência com as respostas oferecidas ao longo de seu histórico de vida, tanto em ideias quanto em ações. Descarta-se assim – como vimos no reino animal – a incoerência humana inconsciente. Não! Mas nesse caso não se encaixaria em problema moral, mas informacional. Resumindo: a incoerência humana estará sempre atrelada à intencionalidade ou à ausência de informação.

Vale destacar que, no exemplo acima, eu estabeleci uma ponte entre a coerência epistemológica e a coerência comportamental: na primeira, se cobra consistência entre proposições, na segunda, o que conta é a congruência entre valores, a que sai do discurso para a prática. Uma pessoa pode defender uma ideia injusta e agir sempre de acordo com ela. Estará coerente, claro, mas isso não a torna justa, pois a coerência garante a integridade interna, mas não a qualidade moral. Ainda que se revele desconfortável, não deixa de ser libertador: obriga-nos a avaliar ideias pelo que produzem — não pela firmeza com que são defendidas.

A lógica, por sua vez, é apresentada numa outra dimensão. Ela não julga valores nem intenções, apenas examina conexões. Um raciocínio lógico é aquele em que a conclusão decorre de premissas onde não se percebe contradição. Mas tem um detalhe que faz toda a diferença: se a premissa é falsa, a conclusão pode se mostrar perfeitamente lógica, mas completamente errada em termos reais.

Imagem de uma mulher encostada em uma parede cinza. Sobre a cabeça dela, várias lâmpadas simbolizando o pensamento crítico.
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A trajetória das ideias está repleta de sistemas rigorosamente construídos sobre bases equivocadas, significando que a aparência de ordem não é garantia de verdade. A lógica apenas organiza, não legitima. Mas nesse ponto nos deparamos com um atalho perigoso, o qual é o do “eu como medida do mundo”, em que surge um padrão mental bastante recorrente, do tipo: “Se não é como me ensinaram, então está errado”; “Se nem consigo me ver nisso, é porque não presta”; “Já que é o oposto de mim, não vale nem conhecer”. E não é difícil perceber a progressão: sai da discordância para a desqualificação e da diferença para a hierarquia. O pensamento deixa de investigar e passa a defender território, pura e simplesmente. A experiência pessoal é transformada numa espécie de régua universal para medir o contexto externo, como se a própria pessoa ditasse o padrão a ser aceito ou rejeitado, mecanismo esse que reduz o mundo ao tamanho da própria moldura. É confortável? Sem dúvida alguma! Mas intelectualmente estéril.

Na esfera política, principalmente, esse padrão cognitivo pode atingir dimensões inimagináveis ao tomar forma organizada, com força inclusive para degradar o tecido social de uma nação inteira. Aquilo que os analistas sociais chamam de pensamento autoritário é – em sua forma mais extrema, fascista – não nasce de cara como regime, mas como modo de pensar. Ele se caracteriza por alguns traços recorrentes: fusão entre identidade e verdade, intolerância à ambiguidade, divisão moral rígida entre “nós” e “eles”, e desconfiança de qualquer dissenso. A diversidade deixa de ser vista como dado humano e passa a ser tratada como ameaça à unidade.

Importante atentar para a precisão: valorizar tradição, cultura ou pertencimento não é, por si só, autoritarismo. O problema surge quando o pertencimento vira critério de valor humano, e quando discordar passa a ser considerado ilegítimo. O traço definidor, portanto, não é a preferência, mas a exclusão. Diante disso, a resposta formativa não pode ser trocar uma cartilha por outra. Não se combate rigidez mental com nova rigidez travestida de tolerância: o antídoto não é formatar, mas orientar a distorção cognitiva oferecendo critérios de exame. O que fala mais alto é deixar clara a separação entre convicção e evidência, entre coerência e acerto, saber distinguir lógica de verdade, e separar identidade de dignidade humana.

Em suma, o caminho não é dizer às pessoas o que devem pensar, mas como testar o que pensam, guiando-se pela premissa de que pensamento maduro não é evitar posicionamentos, mas saber justificar a própria posição, e não só: dispor-se a revisá-la sempre que fatos novos o exigirem. Revisões nunca foram indicação de fragilidade intelectual, mas de sensibilidade cognitiva e legitimação ética.

Num tempo em que opiniões circulam mais rápido que critérios, a distinção conceitual assume caráter de responsabilidade cultural. É claro que não elimina conflitos, mas qualifica o debate, e ainda que não produza unanimidade, no mínimo reduz a injustiça. Convicção, como já vimos, pode ser sincera e ainda assim estar errada. Coerência pode ser firme, como também ser nociva. Lógica pode ser convincente, e ainda assim partir de premissas falsas. Pensar bem é aprender a separar essas camadas antes de transformar certeza em julgamento, e percepção em sentença.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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