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A conturbada relação de uma aranha e sua mosca: aprendendo a lidar com portadores do Transtorno de Personalidade Narcisista – Episódio XIV

Poucos transtornos psicológicos despertaram tanto interesse no público leigo nessas últimas décadas quanto o TPN. Antes, talvez não se entendesse bem como pessoas tão carismáticas e sedutoras — que teoricamente teriam tudo para dar certo — conseguiam terminar suas vidas infelizes, fracassadas e tão odiadas, até que o mundo acadêmico começou a mergulhar mais profundamente na mente dessas pessoas tão complexas, na tentativa de lhes descobrir os contrastes. E é bem verdade que poucos desvios de personalidade na área da saúde mental conseguem reunir um volume tão significativo de contrastes quanto a dos portadores de transtorno narcisista, daí se entender de seu estudo ter se tornado tão popular nos últimos anos.

A rigor, nenhuma expressão é mais adequada para definir o perfil do narcisista quanto “popular”. já que toda sua vida é pautada pela busca incansável de destaque em qualquer meio social em que se veja inserido. Como naquela expressão conhecida da gíria, ele será sempre aquele tipo de pessoa “que chega chegando”, e vai tratando logo de ocupar todos os espaços possíveis e imagináveis, sem o que parece não conseguir sobreviver. E aí entra o primeiro e talvez um dos maiores contrastes de sua personalidade: ele se alimenta do sucesso ao mesmo tempo em que coleciona fracassos.

Mas sua vida poderia perfeitamente ser comparada a uma dessas impressionantes composições modernas conhecidas como “trem-bala” percorrendo a linha férrea em altíssima velocidade, e com centenas de pessoas disputando os melhores lugares em seus vagões ao longo do percurso. E as comparações embutidas na metáfora não param por aí, se lembrarmos que o cotidiano do narcisista reproduz com estreita semelhança a chamativa passagem de um trem-bala cortando a paisagem. Da mesma forma que a poderosa locomotiva puxando dezenas de vagões atrás de si, ele também sente um prazer indescritível em fazer “passagens triunfais” por onde quer que passe. Quanto mais atenção chamar, mais satisfação experimenta enquanto vai recolhendo e despejando pessoas ao longo das estações pelas quais vai passando.

Quem olha pelo lado de fora só consegue enxergar a imponência da composição, mas só a quem ocupa o interior dos vagões é possível entender a dimensão dos dramas que se desenrolam entre os muitos personagens que arrasta consigo ao longo do trajeto. A reação provocada num observador externo também é muito semelhante à visão do trem se aproximando rapidamente da estação onde aquele se encontra, para em pouquíssimo tempo seguir seu curso, à medida em que vai desaparecendo no horizonte. A aproximação do trem, exatamente como a do narcisista, é sempre impressionante, podendo até ser descrita como “apoteótica”, pelo impacto causado com sua presença, e pelo lado de fora só se consegue pensar em como deve ser prazeroso fazer parte da experiência.

Homem abraçando a si mesmo representando um comportamento narcisista
TimeImage / Canva

O que passa quase imperceptível para quem está do lado de fora são os dramas que se desenrolam entre os passageiros nos diferentes vagões. “Passageiros”, inclusive, define muito bem as pessoas que embarcam na aventura desse trem conduzido pelo narcisista, onde os que permanecem dentro dele são raríssimos, algo que fica restrito aos membros da “tripulação”, se comparada aos familiares do narcisista, pois que não detêm a prerrogativa de poder saltar na próxima estação. Pense-se ainda nessa tripulação como os “macacos voadores” que o narcisista vai introduzindo no “comboio” para formar sua equipe de apoio, inclusive para impedir que os passageiros de um vagão se movimentem livremente para saber o que acontece no outro. Aqui outra metáfora para o comportamento hermético e sorrateiro do narcisista, que odeia quando um passageiro de determinado vagão se inteira do que acontece nos demais.

Quem conhece de perto a movimentação do narcisista patológico sabe o quanto ele se empenha para manter os integrantes de um determinado meio social bem distante de um outro que ele frequente. A explicação para esse comportamento com fortes traços de paranoia é até bastante simples: como ele vive fazendo trapaças nos ambientes em que atua, está sempre preocupado em manter os integrantes de cada ambiente distanciados dos de outros, de modo a inviabilizar a troca de informações entre eles. Por mais absurdo que pareça, ao narcisista, o contato entre pessoas mais próximas a ele é sempre visto como ameaça, já que cada uma delas detém uma peça de seu complexo e sempre misterioso quebra-cabeças.

Portanto uma das suas maiores preocupações é manter as “peças” bem separadas umas das outras, de forma que não acabem montando o conjunto que ele odiaria que fosse entendido por todos. A segregação de cada componente de sua “comitiva” é uma estratégia vital, que ele não medirá esforços para manter, pois, para continuar no controle da situação sustentada com seus ardis, é importantíssimo que as vítimas não compartilhem informações que possam desmascará-lo. E uma das primeiras providências que ele vai tomar em relação à vítima mais recente será isolá-la o máximo possível de seus antigos contatos, sejam seus amigos, familiares ou até aqueles que ela mantinha nas redes sociais antes de se enroscar na teia dele.

Mão fazendo um coração com seu próprio reflexo no espelho
pixelshot / Canva

Aliás, se há uma coisa capaz de provocar arrepios no narcisista é a interrelação cada vez intensa promovida pelas redes sociais. Tanto que uma de suas primeiras ações em relação à “mosca” aprisionada em sua teia é impedir que ela mantenha esse tipo de contato frequente. Pelo menos neste caso específico, ele usa a mesma lógica tanto para suas vítimas quanto para si próprio, já que também quer se manter longe das redes que dariam conta de seus passos e das relações que mantém. Então conte com uma presença até muito ativa dele em aplicativos de mensagens privativas, como WhatsApp, Signal e outros, mas não tenha expectativas de encontrar seu perfil — ou de suas “moscas” — em redes sociais como Facebook e Twitter, que o impedem de exercer controle sobre os comentários postados ali.

O “acompanhamento” que fará da movimentação da mosca da vez, portanto, será sempre muito intenso e invariavelmente disfarçado de “dedicação ciumenta”, tida como própria de pessoas que amam profundamente. Só que, no seu caso, essa postura não tem nada a ver com amor, mas com o domínio que precisa exercer sobre “sua propriedade”. O que ele se compraz em exercitar é manter suas vítimas em uma espécie de cárcere privado de grades invisíveis das quais, é claro, apenas ele possui as chaves.

A sabedoria popular ensina que não conseguimos levar a outrem um mal que já não trazemos dentro de nós, e o narcisista é a prova mais incontestável dessa afirmativa: como sua natureza é absolutamente predatória, ele vê em cada pessoa à sua volta um predador pronto para se lançar sobre “as posses” em que exercita seu poder absoluto e incontestável. E como já explicado anteriormente, nesse quesito ele não faz qualquer diferença entre coisas e pessoas.

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Como “grand finale” do episódio de hoje, retornemos nosso olhar para a imagem metafórica do trem-bala que comparamos ao comportamento narcisista: se dependesse apenas dele, certamente manteria um “macaco voador” junto às portas de cada vagão, de modo a não permitir que o passageiro de um deles ocupe o espaço de qualquer outro. Ele precisa garantir que os diferentes cenários do drama que ele protagoniza se mantenham bem compartimentados, de modo a que nenhum de seus personagens adquira visão completa do que acontece ali. Isso ilustra o raciocínio mais comum que perpassa sua mente doentia, mas que nem de perto esgota seu imenso repertório de tramoias.

Acompanhe a série:

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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