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A conturbada relação entre uma aranha e sua mosca – Episódio XII: aprendendo a lidar com portadores do Transtorno de Personalidade Narcisista

Os aliados do narcisista — conhecidos como “macacos voadores” — frequentemente se tornam um problema extra para as vítimas diretas e indiretas do portador de TPN, já que são transformados numa extensão de seu poder quando colocados à frente de ações que ele tenta concretizar por “via indireta”. Costumam ser bastante úteis e mais bem recebidos até pelas vítimas do que a personagem principal de nossa história, que é vista por muita gente como “figurinha carimbada” graças ao seu histórico de abusos.

É muito difícil convencer um “macaco voador” de que ele está sendo usado pelo narcisista, e isto é um grande facilitador para que este expanda sua rede de apoio entre pessoas que não apenas não entendem a realidade dele, mas também se recusam a aceitá-la. No que toca a estes — que escolhem permanecer cegos quanto à situação — muito pouco se pode fazer para que despertem, a menos que um fato gritante e incontestável aconteça para que o descubram por si mesmos. Só que o narcisista é um mestre em simulações e sabe agir de forma muito eficaz para que a verdade dos fatos não lhes chegue. Daí não existir nenhuma garantia de reversão da imagem falsa que os “macacos voadores” já consolidaram a respeito do narcisista, pois precisariam antes admitir que sempre estiveram enganados.

Uma pessoa manipulando cordas de um fantoche.
pixelshot / Canva

Outra dificuldade é que os “macacos voadores” podem ter razões próprias para se comportar dessa forma: alguns por um longo histórico de manipulação pelo narcisista que lhes dita as regras, outros por uma personalidade fraca diante de qualquer pessoa que se mostre inteligente o bastante para moldá-los à sua vontade. Existem, é claro, os que conseguem entender sua realidade e a do narcisista que os manipula, mas lhes falta coragem para defender o lado certo da história, pois sempre é mais fácil ficar do lado mais forte do que virar alvo preferencial de um narcisista patológico. E as causas podem ser muitas para agirem dessa forma, inclusive a lembrança de um passado recente em que já estiveram na situação de vítimas.

Pode-se entender então o “macaco voador” como todo tipo de perfil “doutrinado” para se aproximar dos alvos segundo os interesses do manipulador, já que são mais bem aceito pelas vítimas que se sentem mais protegidas com sua proximidade. Tradicionalmente, porém, o caso mais comum é o de pessoas bem-intencionadas sendo usadas como inocentes úteis por um narcisista que as transforma em “macacos voadores” involuntários. Se quisermos procurar algum benefício neste último modelo, seria o de poderem ser despertados mais facilmente do que os outros perfis após testemunharem fatos que lhes permitam tirar suas próprias conclusões.

Dentre as pessoas mais próximas que o narcisista não consegue transformar em “macacos voadores”, é bem comum que os mais atentos acabem convertidos por ele em “bodes expiatórios”. Seu “modus operandi” em relação a essa pessoa mais observadora será a de tentar atrair sobre ela a ira dos demais, de modo a que vire alvo preferencial da família ou do ambiente que dividam. Uma das estratégias será a de evidenciar, por todos os meios possíveis, o “péssimo hábito” dessa pessoa de expor os demais, trazendo à luz a verdade que a interessa esconder. Caso você se descubra no centro dessa situação, o melhor a fazer é sair da simples distância na forma de pensar para a distância física mesmo, por mais doloroso que isso se mostre, sem o que dificilmente conseguirá paz.

Pessoas andando num calçadão.
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Uma informação que pode se mostrar relevante é que vários narcisistas convivendo num mesmo ambiente normalmente se unem contra a pessoa que tomam para “bode expiatório”, pois que a veem como ameaça comum, por mais que nunca deixem de competir entre si. E a razão para isso é que, pela sua ótica, ela sempre se apresentará como um risco em potencial em relação àquilo que os demais estarão se empenhando em manter “longe da plateia”.

Em se tratando do cenário familiar, esse quadro se mostra ainda mais sombrio para o “bode expiatório”, podendo seu sofrimento atingir níveis bem acima do suportável a qualquer pessoa minimamente sensível. Isso porque, por causa dos vínculos consanguíneos, obviamente as saídas se mostrarão ainda mais dolorosas, agravando bastante a situação desse observador em conflito com o “status quo”, independentemente da decisão que tome. Caso opte, por exemplo, por permanecer apenas como observador neutro, os outros tenderão a enxergá-lo como ameaça permanente por ele não compactuar com suas manobras. E em se afastando, terá que encarar a inevitável perda de pessoas afetivamente ligadas a ele em nome de sua autopreservação, entre os narcisistas e “macacos voadores” com quem convive desde a infância. Para qualquer lado que penda, então, sairá sempre machucado dessa história e precisará de muita determinação e resiliência para superar seu drama de família.

A rigor, dentre as alternativas possíveis, esta última ainda será a melhor, pois com o distanciamento gradativo do foco de seus problemas, ele acabará concluindo que fez a escolha mais saudável, e agora poderá levar uma vida livre das sucessivas pressões e do ambiente tóxico do seu meio familiar. O benefício maior, ao final de tudo, ocorrerá pela constatação de que excluir pessoas que não agregam valor algum à sua vida não representa nenhuma grande perda, mas uma vitória. Uma vitória difícil pelas feridas que abre, é verdade, mas sempre uma vitória, pois calcada em coragem e superação.

Duas mulheres lado a lado desviando seus olhares uma da outra.
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Além do trauma da separação em si, a decisão não ficará isenta de alguns efeitos colaterais, já que os narcisistas e/ou seus “macacos voadores de estimação” não vão se agradar dessa “declaração de liberdade”, principalmente quando entre eles houver um pai ou uma mãe. Isso sempre será usado como um trunfo pelos outros, que vão impor uma carga extra de sofrimento ao colocá-lo como o filho ingrato, o irmão rancoroso e tudo o mais que encontrarem para despejar a culpa do rompimento sobre seus ombros, já que nunca se colocarão como causa daquele círculo vicioso e tóxico com que ele precisou romper.

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Natural, então, que entre as maiores perdas desse “bode expiatório” no ambiente familiar apareçam alguns relacionamentos que ele não desejaria cortar se tivesse tal opção, e isso vai doer bastante, sem dúvida. Mas o tempo chega sempre como o maior remédio. No baixar da poeira — quando o antes e o depois puderem ser colocados lado a lado — não restará dúvidas da verdadeira dimensão do seu ganho. Principalmente no que toca à sua saúde mental e à consciência de que seria apenas o estágio anterior ao colapso da saúde física, que vem quando nos acovardamos ante uma decisão que, por mais dolorosa que se mostre, não existe dúvida de que precisa ser tomada.

Sobre o autor

Luiz Roberto Bodstein

Formado pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduado em docência do ensino superior pela Universidade Cândido Mendes. Ocupou vários cargos executivos em empresas como Trimens Consultores, Boehringer do Brasil e Estaleiro Verolme. Consultor pelo Sebrae Nacional para planejamento estratégico e docente da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear (IBQN) para Sistemas de Gestão. Especializou-se em qualidade na educação (Penn State University, EUA) e desenvolvimento gerencial (London Human Resources Institute, Inglaterra). Atualmente é diretor da Ad Modum Soluções Corporativas, tendo publicado mais de 20 livros e desenvolvido inúmeros cursos organizacionais em suas diferentes áreas de atuação. Conferencista convidado por várias instituições de ensino superior, teve vários de seus artigos publicados em revistas especializadas e jornais de grande circulação, como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.

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