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Coisas que você precisa saber sobre os assexuados

Cubos de madeira com os escritos "asexual" vistos de cima.
lightfieldstudios / 123rf
Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Você certamente já deve ter topado com palavras como heterossexual, homossexual e bissexual, por exemplo. Essas palavras definem a nossa orientação sexual, ou seja, o que faz com que nos sintamos sexualmente atraídos e excitados e como (e com quem) realizamos nossos desejos.

Os estudos iniciais sobre sexualidade dividiam nossa orientação sexual em apenas dois espectros: ou seríamos heterossexuais (aqueles que sentem atração por pessoas do sexo oposto) ou seríamos homossexuais (aqueles que sentem atração por pessoas do mesmo sexo). Alguns autores até mesmo admitiam a existência da bissexualidade, ou seja, pessoas que se sentiam atraídas por ambos os sexos.

Foi somente no final da década de 1940 que um biólogo norte-americano chamado Alfred Kinsey desenvolveu uma escala que mudou o modo como a sexualidade era entendida. A Escala Kinsey subdividia o comportamento sexual em sete níveis: o nível 0 era dedicado a pessoas “exclusivamente heterossexuais” e o nível 6 era dedicado a pessoas “exclusivamente homossexuais”. Entre esses níveis, havia definições como “bissexual”, “predominantemente heterossexual, apenas eventualmente homossexual” ou “predominantemente homossexual, apenas eventualmente heterossexual”.

Mas o que Kinsey realmente trouxe de novo foi uma definição inédita até então, definida pelo nível X na escala que desenvolveu: pessoas assexuais, que, segundo o especialista, eram cerca de 1% da população mundial.

O que é uma pessoa assexual?

Em poucas palavras, assexual é a pessoa que não tem interesse ou vontade de fazer sexo nem se sente atraída sexualmente por pessoas de nenhum gênero. Décadas depois, um estudo feito no Brasil pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo apontou que 7,7% das mulheres brasileiras e 2,5% dos homens brasileiros entre 18 a 80 anos de idade não se interessam por sexo.

Bandeira da assexualidade.
somemeans / Freepik

Como a maior parte das pessoas se interessa por sexo, tem vontade de ter relações sexuais e o sexo é mostrado como algo muito importante em produções de entretenimento, por exemplo, é comum que achemos que todas as pessoas praticam ou têm interesse em manter relações sexuais, mas isso não é verdade.

O que significa a palavra assexual?

A palavra “assexual” é usada como referência para pessoas que não têm interesse ou vontade de fazer sexo. Na língua portuguesa, o prefixo “a” é, normalmente, um prefixo de negação, ou seja, que nega o sentido original da palavra. Se “sexual” refere-se a alguém com interesse por sexo, “assexual” refere-se a alguém que não tem interesse por isso — outros exemplos: “morfo” é o que tem forma, “amorfo” é o que não tem forma; “estesia” é a capacidade de perceber sensações e dores, “anestesia” é a incapacidade de fazer isso.

Até hoje, muitos se referem aos assexuais como “assexuados”, o que é um erro, já que não dizemos “heterossexuado” ou “homossexuado”. Esse equívoco é geralmente atribuído a um erro de tradução, já que, no inglês, a palavra nasceu mesmo como “asexual”.

“Assexuado”, em português, refere-se a outra coisa: a um organismo que não tem órgãos sexuais e que, portanto, reproduz-se a partir da repartição de seu próprio corpo. Como o ser humano não é capaz de fazer isso, é impossível que qualquer um seja assexuado.

Assexualidade é celibato?

A palavra “celibato” já foi mais popular na língua portuguesa, mas há muito caiu em desuso e não é incomum que muitas pessoas não conheçam seu significado. Celibato é o ato de escolher não ter relações sexuais ou românticas com ninguém. É, por exemplo, o que fazem os padres das igrejas católicas, com o objetivo de se dedicarem somente à religião.

Mulher branca segurando pedaço de papel branco sobre os olhos.
Sharon McCutcheon / Unsplash

Como já foi comprovado pela psicologia, a orientação sexual não é uma escolha, já que ninguém escolhe se sentir atraído por homens, mulheres, por ambos ou por nenhum gênero, portanto a assexualidade é muito diferente do celibato, que é, como explicado no parágrafo anterior, uma escolha, uma renúncia.

O conceito de celibato classifica as pessoas que escolhem ser solteiras. É comum que padres de igrejas católicas o pratiquem, por exemplo, para que se dediquem somente à religião. Por outro lado, a assexualidade é uma orientação sexual que caracteriza as pessoas que não sentem atração sexual por outras ou não se interessam por sexo. Ser assexual não é uma escolha, como é o caso do celibato.

Um padre, por exemplo, não é assexual. Pode ser que ele seja, claro, mas ele optou pelo celibato, por não se envolver romântica ou sexualmente com ninguém para exercer a liderança religiosa, ainda que sinta atração física ou sexual por mulheres ou por homens. Além disso, o celibato também implica não manter nenhum vínculo romântico com ninguém, mas quem é assexual pode manter um relacionamento saudável, desde que seu parceiro também seja assexual, aceite essa condição ou outro tipo de arranjo seja feito.

Assexuais se masturbam?

Nem todo assexual tem completo desinteresse por sexo. Seria mais preciso dizer que os assexuais não têm interesse em relações sexuais com outras pessoas, porque muitos assexuais praticam a masturbação, ou seja, o ato de provocar prazer em si mesmo ao estimular seus próprios órgãos sexuais.

A diferença é que, enquanto pessoas hetero, homo ou bissexuais se masturbam normalmente imaginando relações sexuais ou assistindo relações sexuais, por meio da pornografia, por exemplos, assexuais costumam recorrer à masturbação como uma forma de sentir alívio, prazer e leveza sem demonstrar interesse por ninguém.

Pedaço de papel com a sigla "LGBTQIA" nas cores do arco-íris.
Sharon McCutcheon / Unsplash

Mas a prática da masturbação por pessoas assexuais não é uma regra e, enquanto algumas pessoas assexuais a praticam como algo desvinculado de qualquer interesse sexual por outra pessoa, outros assexuais nem mesmo sentem vontade de praticar a masturbação.

A Rede de Educação e Visibilidade Assexual – AVEN (Asexual Visibility and Education Network) elaborou subclassificações para a assexualidade para facilitar a compreensão sobre essa orientação assexual e para que mais pessoas pudessem compreender como elas se classificam nessa comunidade. As principais subclassificações são:

Tipos de assexualidade

Uma ONG chamada AVEN (Rede de Educação e Visibilidade Assexual, em tradução livre), que tem como objetivo difundir informações sobre assexualidade e promover conscientização sobre o tema, elaborou uma lista com subclassificações para facilitar a compreensão dessa orientação sexual. É importante lembrar que, como somos indivíduos, seria impossível afirmar que as pessoas se encaixam nesses tipos predefinidos, então eles servem apenas para nortear o entendimento do que é a assexualidade. Veja:

1) Assexual romântico

O assexual romântico é aquele que não tem interesse ou vontade de praticar o ato sexual com alguém, mas que tem o desejo de se apaixonar, amar e/ou estar em um relacionamento amoroso com outra pessoa, desde que esse relacionamento não inclua relações sexuais.

2) Assexual arromântico

Além de não sentir interesse ou atração sexual por ninguém, independentemente de quem seja, essa pessoa também não se interessa por relacionamentos amorosos de nenhum tipo, então não se envolve romanticamente com ninguém, não tem desejo de se apaixonar nem de estar em um relacionamento amoroso.

3) Assexual lithromântico

Bandeira assexual com marcas de mãos em tinta preta.
Mikhail Tsikhanovich / 123rf

Essa pessoa até tem vontade de manter um relacionamento afetivo e romântico com alguém, tendo desejo de se apaixonar, mas não concretiza nenhum desses desejos. É uma pessoa que sempre terá paixões e relações platônicas, e que tende a gostar disso — quando, de fato, se envolve com alguém, pode ser que não encontre prazer nenhum nisso.

4) Assexual gray-a

Segundo a classificação da AVEN, o assexual gray-a é aquele que pode sentir desejo sexual raramente, em situações muito específicas ou diante de estímulos específicos.

5) Demissexual

Talvez a classificação mais comum dentre todas, a pessoa demissexual é aquela que só sente atração ou desejo sexual por alguém quando se sente romanticamente envolvida com uma pessoa, ou seja, ela não sente desejo por causa de atração física, mas por causa dos sentimentos envolvidos na relação.

Relacionamentos amorosos para assexuais

Se você leu atentamente o tópico anterior, que apresentou os tipos de assexualidade, compreendeu que é possível que uma pessoa assexual se envolva romanticamente e esteja num relacionamento com alguém. Pessoas demissexuais e gray-a, por exemplo, podem até mesmo se envolver sexualmente, se forem respeitadas as condições que fazem com que elas se sintam excitadas.

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Além disso, ainda que o relacionamento amoroso com relações sexuais seja mais comum, estar em um relacionamento não implica obrigatoriamente fazer sexo, então é possível que duas pessoas sexuais se envolvam e mantenham um relacionamento saudável sem fazer sexo, que uma pessoa não assexual se envolva com uma assexual e aceite as condições dela ou que algum acordo — como um relacionamento aberto — seja feito entre uma pessoa não assexual e uma assexual, proporcionando um relacionamento satisfatório para ambos.

Como explicado também no tópico anterior, é impossível generalizar e categorizar satisfatoriamente as pessoas de acordo com seus desejos e vontades, que são tão íntimos e individuais. Cada pessoa assexual é de um jeito e manifesta (ou não) suas vontades à sua maneira. Assim como, segundo a escala Kinsey, é impossível dividir todas as pessoas como exclusivamente hetero ou homossexuais, a assexualidade tem muitos “tons”, não é uma escala de preto ou branco.

A felicidade e a assexualidade

Para aqueles que são sexuais, que têm desejos e sentem prazer e felicidade ao realizar seus desejos sexuais, pode parecer difícil imaginar alguém que não faz sexo ou que mantém um relacionamento sem sexo sendo feliz, mas isso é um preconceito. O sexo pode ser importante e fonte de prazer para uma pessoa, mas insignificante para outra.

O mesmo se aplica a várias outras situações na vida: há pessoas que desejam estudar e se graduar, enquanto outras não sentem o menor prazer nisso; algumas pessoas amam estar cercadas de amigos e de desconhecidos, enquanto outras preferem a solidão ou a presença de poucas pessoas; algumas pessoas têm hobbies que dão muita alegria e muito prazer a elas, enquanto outras pessoas preferem viver a vida sem focar em nenhuma atividade específica.

Pessoa segurando lousa branca com palavras coloridas.
Sharon McCutcheon / Unsplash

Ou seja, cada um é feliz à sua maneira, com seus próprios desejos. Não é porque algo é essencial ou muito importante para a sua vida ou para a vida da maioria das pessoas que isso se torna fundamental para todo mundo. Há muitas maneiras de ser feliz.

Como saber se sou assexual?

A assexualidade não é uma doença, então não há diagnóstico. Como a sexualidade de cada pessoa é algo tão individual e específico, você é o único que pode analisar os seus traços, o modo como a sua sexualidade se expressa e como são manifestados os seus desejos, com o objetivo de responder a essa pergunta.

Mas o mais importante é: não se preocupe com rótulos! Se você conversar com muitas pessoas por aí, vai descobrir que muita gente já gostou muito de sexo durante um período da vida, mas hoje já não gosta tanto — o contrário também acontece —, assim como pessoas que até então eram heterossexuais se descobrem bi ou homossexuais ao longo da vida (e vice-versa).

Não se preocupe, portanto, em colocar um rótulo sobre si. Entenda os seus desejos para que possa tentar realizá-los e, acima de tudo, não se sinta triste ou se diminua se descobrir que é assexual — o mundo está cheio de gente como você; e por que você não encontra um grupo de pessoas também assexuais para que possa conversar sobre isso?

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