Autoconhecimento

O que a psicologia diz sobre infidelidade?

Mulher traída com representação de chifres na cabeçavendo o parceiro com outra pessoa jantando
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Escrito por Eu Sem Fronteiras

Traição. Palavra forte, que pode causar muita dor em um coração que ama e que pode destruir a vida de um casal, mas, mesmo assim, bastante comum… Tão comum que é tema quase que obrigatório em filmes, seriados, livros… “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”, sempre se perguntam os leitores de “Dom Casmurro”, obra de Machado de Assis. E as populares novelas? Seria praticamente impossível nomear uma delas em que não seja mostrada uma traição, não é mesmo?

A verdade é que a traição é uma ideia que, para o bem ou para o mal, é inserida desde cedo em nossa cabeça, desde que começamos a entender o mundo e a ouvir falar sobre aquele parente que traiu seu/sua companheiro/companheira ou desde que começamos a entrar em contato com essas obras de arte que mostram situações de traição.

Apesar de soar horrorosa, a traição é muito comum, ainda que, se sairmos perguntando por aí, pouquíssimos vão assumir suas traições ou dirão que trair é uma coisa que fariam. Segundo a pesquisa Mosaico 2.0, um estudo brasileiro feito pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP e parte do ProSex (Projeto Sexualidade), coordenado pela psiquiatra Carmita Abdo, publicado em 2017, 40,5% da população admite ter cometido traição em seu relacionamento; entre os infiéis confessos, 50,5% eram homens e 30,2% eram mulheres.

Por que a traição acontece?

Afinal de contas, por que a traição acontece? Quais são suas principais motivações?

Mulher chorando ao ver que é traída por parceiro
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É impossível dar uma resposta satisfatória a essa pergunta, porque as pessoas e seus relacionamentos amorosos são muito individuais e têm suas próprias características. É possível, é claro, reunir algumas das principais motivações para uma traição, mas somente uma terapia seria capaz de investigar por que é que essas motivações surgiram, o que levou a elas e como evitar que se repitam.

Compilamos abaixo uma lista com os quatro maiores motivos de traição, segundo uma pesquisa coordenada pela doutora em psicologia Patrícia Scheeren, de Porto Alegre (RS), em 2016.

Insatisfação com a relação

O principal motivo de uma traição (bastante disparado à frente) é a insatisfação com o relacionamento. Essa insatisfação pode se dar de diversas maneiras: pode ser uma ausência de amor, carinho e afeto, pode ser um esfriamento na relação sexual ou a ausência de atração pelo parceiro, pode ser uma série de discordâncias, brigas e discussões que mine a vontade de o casal ficar junto, além de problemas financeiros e preocupações cotidianas, que podem fazer com que duas pessoas que eram bastante apaixonadas se tornem cada vez mais estranhas. A lista de motivos que causam insatisfação é praticamente infinita, já que cada relacionamento tem sua dinâmica.

Apesar de a insatisfação ser um sentimento válido e real, que pode acometer qualquer um, trair baseado nela não é, provavelmente, uma boa escolha, porque a traição não resolve o problema do insatisfeito; em vez disso, pode agravá-lo e se tornar a famosa bola de neve, acumulando ainda mais problemas, que podem ter fins trágicos.

Mulher traindo o namorado segurando a mão de outro homem pelas costas do parceiro
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Se você está insatisfeito com o seu parceiro, há duas soluções para o problema. A primeira serve para o caso de você ainda ter sentimentos por ele e, assim sendo, desejar manter um relacionamento estável com essa pessoa: diálogo. Converse com o seu parceiro, exponha as suas insatisfações e ouça as insatisfações dele; se ainda houver amor, paixão e vontade de estar junto entre vocês, ambos vão se esforçar e encontrar meio-termos para que a relação continue sustentável e saudável para os envolvidos.

A segunda solução é para aqueles que já não sentem mais nada ou apenas têm um sentimento enfraquecido pelo seu parceiro: término. Sim, é uma palavra difícil e dolorosa, mas passar pela dor de um término é muito mais natural e muito menos doloroso do que a dor de ser ou ter traído. Lembre-se de uma coisa: um dia, provavelmente, você amou a pessoa que hoje já não te faz mais feliz e, além disso, ela tem sentimentos, assim como você, e não gostaria de ser traída.

Qualquer término, se feito com responsabilidade, por mais doloroso que seja, é melhor do que a dor de descobrir que uma pessoa em quem você confiava traiu o relacionamento, mesmo que ele já não funcionasse mais.

Insatisfação pessoal

A segunda causa mais comum de traição é a insatisfação pessoal, isto é, uma insatisfação consigo mesmo. Essa insatisfação pode se originar de diversas maneiras: decepções na vida profissional e pessoal, falta de objetivos e motivação na vida, problemas financeiros, estresse, baixa autoestima… Diversos problemas bastante pessoais, que nada têm a ver com a relação, podem levar alguém a trair.

Chamada da namorada tocando enquanto namorado a trai com outra mulher
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Vamos a dois exemplos que ilustram isso! Pense em uma pessoa que vive um relacionamento estável saudável e que está feliz nele, mas está com a autoestima muito baixa, seja física ou psicologicamente; ou seja, essa pessoa não se sente atraente e acha que não há possibilidade de alguém se interessar por ela. Até que surge alguém minimamente atraente e interessante dando corda a essa pessoa e demonstrando interesse nela. Envolver-se com essa pessoa pode ser uma maneira de aquela que está passando por um período de baixa autoestima se autoafirmar ou “agarrar” uma oportunidade por achar que essa possibilidade nunca vai surgir de novo, já que ela imagina ser uma pessoa sem atrativos, né?

Segundo exemplo: uma pessoa passa por um período profissional ruim, com uma demissão e, subsequentemente, problemas financeiros surgidos a partir dela. Os níveis de estresse sobem e, apesar de essa pessoa estar profundamente envolvida com seu parceiro em um relacionamento saudável, o estresse e as decepções podem dar margem para viver uma conquista, um processo de sedução ou uma aventura com alguém externo ao relacionamento.

Se chegar à conclusão de que a possibilidade de uma traição que surgiu em sua vida é motivada por uma insatisfação pessoal, converse com o seu parceiro, afinal vocês são companheiros, estão dividindo a vida. Você não precisa, obviamente, falar nada a respeito de uma traição que nem mesmo aconteceu, mas divida seus problemas com a pessoa com quem você se relaciona, peça ajuda, peça que ela se envolva mais. Se vocês superarem os problemas juntos, tudo tende a ficar bem.

Se você preferir não expor suas dificuldades para o seu parceiro, ao menos deixe que os seus problemas pessoais interfiram na vida dele. Não é justo que a pessoa com quem você se relaciona precise passar pela dor de uma traição apenas porque você não soube lidar com suas frustrações e suas fraquezas. Ainda que você precise pedir um tempo, esforce-se para não ferir quem não tem nada a ver com os seus problemas.

Busca por uma aventura

O terceiro motivo mais apontado pelos homens como impulsionador de uma traição, segundo a pesquisa da psiquiatra Patrícia Scheeren, é a busca por uma aventura fora do relacionamento/casamento. Se esse é o seu caso, você precisa se perguntar seriamente o que está fazendo em um relacionamento.

Quando decidimos começar um relacionamento, isso deve acontecer, essencialmente, por causa da soma de dois fatores: encontramos alguém que combina com quem somos, com os planos que temos e com a nossa personalidade e também porque desejamos estar em uma relação estável, dividindo a vida com alguém. Se você não sente que o seu parceiro combina com quem você é ou que não deseja estar numa relação estável neste momento, por que está em uma?

Homem traindo a namorada segurando a mão de outro homem pelas costas da parceira
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Se o que você busca é se envolver com mais de uma pessoa ao mesmo tempo ou de maneira descompromissada, não há problema algum, apenas não esteja em um relacionamento e curta a sua solteirice. Se, depois de algum tempo de relacionamento, você percebe que a pessoa que está ao seu lado não tem mesmo muito a ver com você e com o que você deseja para a sua vida, termine o relacionamento. Repetindo: qualquer término é, provavelmente, muito menos doloroso do que uma traição.

Caso você esteja em busca de aventuras sexuais, por que não envolver o seu parceiro ou a sua parceira nisso? Relacionamentos a três, também conhecidos como trisais, relações sexuais a três, conhecidas como ménage à trois, relacionamentos abertos (em que os parceiros podem se envolver com outras pessoas) ou poliamorosos (em que várias pessoas se envolvem na relação) existem e fazem muitos parceiros felizes. Exponha seus desejos para o seu par (de maneira delicada, é claro, porque essa ideia pode estar na sua cabeça faz tempo, mas será novidade para ele…) e espere a resposta dele.

Se ele topar, conversem bastante sobre para evitar futuros arrependimentos. Se ele não topar e você realmente fizer questão de novas aventuras, talvez seja preciso repensar a existência e a consistência do relacionamento, mas não traia! Tome uma decisão de manter ou continuar o relacionamento antes de fazer qualquer coisa. Relacionamentos não monogâmicos existem, mas precisam ter um acordo aceito entre ambas as partes.

Interesse/atração por outra pessoa

Já entre as mulheres, segundo a pesquisa da psiquiatra Patrícia Scheeren, o terceiro motivo mais comum para traições é o interesse ou a atração por outra pessoa.

Muitas vezes, mesmo apaixonada e feliz com um relacionamento estável, surge uma pessoa bastante atraente e/ou interessante no trabalho, na academia, na faculdade… Pouco a pouco, essa pessoa vai despertando cada vez mais interesse. Quando percebe que esse interesse existe, talvez essa pessoa decida investir e tentar seduzir aquele que está comprometido em um relacionamento…

Olhos de uma mulher refletindo um casal junto
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Num caso como esse, as dicas são parecidas com as do primeiro tópico, sobre insatisfação na relação. Mas aqui vai uma primeira pergunta: será que você está mesmo feliz em seu relacionamento? Às vezes temos a impressão de que estamos plenos e contentes em um relacionamento saudável, até que o súbito interesse em alguém mostra que já não estamos mais tão interessados assim naquela pessoa com quem estamos dividindo a vida. Pense a respeito disso.

Se você ainda gosta, sim, da pessoa que está ao seu lado, mas sente atração e/ou interesse por outra pessoa, analise a situação: o que essa pessoa tem que o seu parceiro não tem? O que despertou o seu interesse? Você deseja um parceiro com determinado tipo de beleza? Deseja um parceiro mais inteligente, mais carinhoso, mais interessado em você, com interesses mais próximos aos seus? Se a resposta para alguma dessas perguntas for “sim”, talvez você esteja envolvido com a pessoa errada e seja hora de repensar o relacionamento.

Se você pensou e percebeu que gosta, sim, do seu parceiro e que o interesse em outra pessoa foi um “momento de fraqueza”, não se sinta culpado. Não é porque você está envolvido com alguém que não pode se sentir atraído ou interessado por outra pessoa, basta apenas que você (se) imponha limites e respeite o seu relacionamento e a pessoa que está ao seu lado. E fique atenta! Será que não é melhor se afastar um pouquinho dessa pessoa que mexe com você? Será que vale a pena mesmo deixar essa porta aberta?

Sempre reflita sobre o seu relacionamento

Diferentemente do “felizes para sempre” dos contos de fadas, relacionamentos reais são cheios de altos e baixos, momentos de alegria extrema, mas também de tristeza e de decepção. É sempre necessário, portanto, estar constantemente repensando o seu relacionamento e se perguntando de novo e de novo e de novo por que está nele e dividindo a vida com essa pessoa. Se a resposta for sempre satisfatória e positiva, você está num relacionamento saudável, mesmo que o casal passe por problemas.

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Se as respostas forem negativas, dialogue com o seu parceiro ou, se necessário, coloque um ponto final no relacionamento antes de machucar uma pessoa, ainda que ela tenha machucado você anteriormente ou de outras formas. Lembre-se: não “pague na mesma moeda” uma traição, porque, se você está fazendo isso, pensa que está se vingando da outra pessoa, mas na verdade está lidando mal com suas próprias frustrações e decepções.

Sempre que se vir diante de cometer uma traição, pense a respeito do que levou você a essa situação, fuja dela se você está num relacionamento saudável, converse com o seu parceiro se você o ama, mas o relacionamento não está muito bom, ou então decida terminar o relacionamento, caso ele já não esteja mais satisfatório. O doloroso processo de um término será muito menos doloroso do que o de uma traição. Para ambos os lados.

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