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Quando a vida do outro vira uma régua: como a comparação nas redes sociais afeta a autoestima

Casal olha para os celulares, aparentando surpresa durante uma conversa.
Dean Drobot / Canva

Por que a vida parece menor depois de alguns minutos nas redes sociais? Entenda como a comparação pode afetar a autoestima, alimentar a sensação de estar atrasado e nos afastar dos nossos próprios desejos.

Você abre o celular apenas para olhar uma mensagem. Alguns minutos depois, já viu alguém viajando para um lugar que gostaria de conhecer, uma pessoa comemorando uma conquista profissional, um casal aparentemente apaixonado, um corpo que parece não ter defeitos e uma casa que parece estar sempre organizada.

Então você fecha o aplicativo.

Nada aconteceu concretamente na sua vida durante aqueles minutos. Seus relacionamentos continuam os mesmos, seu trabalho é o mesmo, seu corpo não mudou e sua história também não. Ainda assim, alguma coisa parece diferente…

Talvez a sua vida, após ter visto tudo aquilo, tenha parecido ter ficado menos extraordinária…

A comparação nas redes sociais pode acontecer dessa forma: silenciosa, cotidiana e, muitas vezes, quase imperceptível. O problema não está simplesmente em observar a vida de outras pessoas, até porque comparar-se faz parte da experiência humana.

A grande questão que pode vir a ser problemática começa quando a vida do outro deixa de ser apenas uma referência e passa a funcionar como uma régua para medir o nosso próprio valor. Começamos a medir as nossas vidas com um recorte artificial da vida dos outros.

Por que nos comparamos tanto?

A comparação não nasceu com as redes sociais. Na verdade, tem início muito antes delas, já observávamos outras pessoas para compreender quem somos, onde estamos e como estamos vivendo. Faz parte do funcionamento do nosso raciocínio.

Duas mulheres conversam durante uma atividade em grupo.
Laflor / Getty Images Signature / Canva

Em certa medida, isso pode ser útil. Ver alguém realizando algo pode inspirar, apresentar possibilidades e até nos ajudar a reconhecer desejos que ainda não havíamos nomeado.

As redes sociais, porém, mudaram a frequência e a dimensão dessa experiência. Hoje podemos entrar em contato, em poucos minutos, com dezenas de pessoas aparentemente mais bonitas, felizes, produtivas, amadas ou bem-sucedidas.

E um ponto importante que vale ressaltar é que, no caso das redes sociais, geralmente não encontramos a versão “real” das pessoas, vemos muitas vezes recortes conscientemente selecionados de uma parte da vida dessas pessoas.

Vemos a viagem, mas não necessariamente as dificuldades financeiras ou os “problemas” dos bastidores dessas viagens. Vemos a promoção profissional, mas não os anos de insegurança, das dificuldades que tiveram até conseguir esta promoção.
Vemos a fotografia do casal sorrindo, mas não conhecemos seus conflitos.

Mesmo sabendo racionalmente que as redes mostram recortes, podemos reagir emocionalmente a esses recortes como se estivéssemos diante da realidade completa.

Agora pare e pense: imagine que você encontre nas redes uma antiga colega de escola. Ela está comemorando uma conquista profissional importante.

Você pode pensar: “Que bom, ela conseguiu”.

Mas também pode surgir outra frase, quase automática: “Ela conseguiu. E eu, o que fiz da minha vida?” A diferença entre essas duas respostas é enorme.

Na primeira, a conquista pertence ao outro. Na segunda, a conquista do outro se transforma em uma avaliação sobre você.
Esse processo é especialmente importante quando falamos da chamada comparação social ascendente, aquela que fazemos com pessoas que percebemos como estando em uma situação superior à nossa em determinado aspecto.

Uma ampla análise de pesquisas publicada em 2026, reunindo mais de 36 mil participantes, encontrou associação entre esse tipo de comparação nas redes sociais e diferentes indicadores de sofrimento psicológico, incluindo ansiedade, menor autoestima e menor bem-estar.

Isso não significa que olhar uma fotografia bonita provocará necessariamente ansiedade ou baixa autoestima. A relação entre redes sociais e saúde mental é muito mais complexa.

O que precisamos cuidar e analisar em nós mesmos é o que nós passamos a concluir sobre nós mesmos depois de olhar para o outro?

Esta reflexão é importantíssima para entendermos nossa relação com as redes, pois duas pessoas podem olhar para a mesma publicação e reagir de maneiras completamente diferentes.

Uma vê alguém viajando e pensa: “Gostaria de conhecer esse lugar”.

Outra vê exatamente a mesma imagem e sente: “Todo mundo está vivendo e eu estou ficando para trás”.

É por isso que compreender a comparação nas redes sociais exige ir além do tempo de tela. A comparação pode tocar pontos muito particulares da nossa história e aquilo que desperta uma sensação intensa de inadequação pode revelar áreas nas quais nossa autoestima está mais vulnerável.

Por exemplo: para alguém inseguro profissionalmente, a promoção de um conhecido pode doer. Para quem vive conflitos com o próprio corpo, determinadas imagens podem provocar uma sensação imediata de inadequação. Para quem deseja construir uma relação afetiva, anúncios de casamento podem despertar tristeza, ansiedade ou a sensação de atraso.

A publicação é externa, mas o significado que atribuímos a ela encontra algo que já existe dentro de nós.

Mulher sentada na cama, olhando para o celular enquanto apoia a cabeça com a mão.
LittleBee80 / Getty Images / Canva

Existe ainda uma consequência mais sutil da comparação constante. Depois de olhar tantas vezes para o que os outros conquistaram, compraram, construíram ou escolheram, devemos olhar para dentro de nós mesmos e aproveitar essas reflexões para pensarmos o que realmente nós queremos, o que faz sentido para nós, que tipo de conteúdo nos chama mais atenção, como estamos usando as redes sociais conscientemente é a chave para usarmos de maneira mais “saudável”.

Em psicoterapia, questões relacionadas à autoestima frequentemente nos levam a essa diferença entre valor pessoal e validação externa. Quando nossa percepção de valor depende excessivamente de aprovação, desempenho ou comparação, qualquer pessoa aparentemente “à nossa frente” pode se transformar em uma ameaça.

Sempre haverá alguém ganhando mais, viajando mais, aparentando maior felicidade, tendo um relacionamento diferente, um corpo diferente ou alcançando alguma coisa antes de nós. Se a autoestima depender de vencer essa corrida, dificilmente haverá uma linha de chegada.

Ainda há o perigo de transformar fases da vida em uma competição. Há uma frase que aparece de diferentes maneiras no sofrimento de muitas pessoas: “Eu já deveria…”.

Por exemplo:
“Eu já deveria ter me casado.”
“Já deveria ganhar mais.”
“Já deveria ter comprado minha casa.”
“Já deveria ter filhos.”

As redes sociais não criaram por si só todas essas cobranças, mas podem oferecer um fluxo quase infinito de pessoas que parecem confirmar que estamos atrasados.

O problema é que vidas diferentes não obedecem ao mesmo relógio. Cada pessoa tem seu próprio tempo, sua própria narrativa. Quando transformamos trajetórias humanas em uma linha única de progresso, começamos a interpretar diferenças como fracassos.

O casamento de alguém não significa que você esteja atrasado. O sucesso profissional de um conhecido não prova que você fracassou. O corpo de outra pessoa não determina o valor do seu.

Parece simples quando colocado em palavras. Emocionalmente, nem sempre é.

Não é preciso abandonar as redes sociais para perceber o que elas despertam. Uma resposta comum para esse assunto seria simplesmente recomendar menos tempo no celular ou se tornar mais consciente daquilo que tem sido consumido na internet.

Em alguns casos, reduzir a exposição realmente pode ser saudável. Mas talvez exista uma pergunta anterior e mais interessante: como você se sente depois de usar as redes sociais?

Observe.

Há perfis depois dos quais você frequentemente se sente inadequado?

Existem conteúdos que despertam inspiração e outros que provocam uma sensação recorrente de fracasso?

Você entra nas redes sentindo-se razoavelmente bem e sai acreditando que deveria mudar seu corpo, sua carreira, seu relacionamento ou sua vida inteira?

Essas percepções podem ser mais importantes do que simplesmente contar minutos de uso.

Também vale perceber quando a comparação deixou de ser ocasional e passou a ocupar espaço demais. Quando ela provoca sofrimento frequente, interfere na autoestima, aumenta a ansiedade ou faz com que a pessoa esteja permanentemente se sentindo inferior, conversar sobre isso em psicoterapia pode ajudar a compreender o que está por trás dessa necessidade constante de medir-se pelo outro.

A questão não é usar ou não utilizar as redes sociais ou “evitar” a comparação. Até porque eliminar completamente a comparação ou, até mesmo o uso, provavelmente não é uma expectativa realista.

Podemos, entretanto, aprender a reconhecê-la, entendê-la e fazer um uso mais consciente e saudável.

Quando a vida de alguém provocar aquela sensação conhecida de que você está ficando para trás, experimente perceber o que aconteceu antes de aceitar automaticamente essa conclusão.

Um exercício simples, mas importante, que pode nos ajudar a ampliar a consciência sobre esse tema é fazer a nós mesmos a seguinte pergunta:

Se ninguém pudesse ver, admirar, curtir ou comparar a minha vida, o que eu ainda escolheria para mim?

Talvez essa reflexão ajude a perceber com mais clareza o que realmente desejamos, o que fazemos por nós mesmos e o que, muitas vezes, passamos a buscar apenas porque aprendemos a olhar para a vida a partir da régua dos outros.

Porque uma vida significativa não precisa parecer extraordinária quando vista de fora.

Ela precisa fazer sentido para quem a vive.

  • Psicóloga Camila Freitas

    Psicóloga Camila Freitas

    Psicóloga Clínica
    [email protected]@psi.cavfreitaspsicavfreitas.com.br@PsicologaCamilaFreitaspsicologacamilafreitas

    Camila Freitas é psicóloga clínica, formada pela PUC-SP, com atuação em psicoterapia para adultos e adolescentes. Realiza atendimentos presenciais em São Paulo e online para brasileiros em qualquer lugar do mundo, oferecendo um espaço de escuta acolhedora, ética e sigilosa.

    Seu trabalho é voltado para pessoas que enfrentam ansiedade, depressão, baixa autoestima, dificuldades nos relacionamentos, sofrimento emocional, dependência afetiva, excesso de redes sociais, inseguranças e conflitos ligados ao autoconhecimento e à construção da identidade emocional.

    A proposta terapêutica busca auxiliar cada paciente no desenvolvimento de maior consciência emocional, fortalecimento pessoal e melhora na qualidade de vida e nos vínculos afetivos. O atendimento é conduzido de forma humanizada, respeitando a singularidade de cada história e processo.