Autoconhecimento Energia em Equilíbrio Espiritualidade

O jovem místico precisa acabar

Imagem de um homem, usando uma túnica marrom, segurando uma bola de cristal, trazendo o conceito de jovem místico e espiritualidade.
Elnur / Canva
Escrito por Giselli Duarte

A verdadeira espiritualidade vai além de fotos, rituais e discursos. Ela se manifesta na honestidade com o próprio ego, na presença diante das responsabilidades, na compaixão pelo outro e na coragem de agir com integridade. Ser espiritual é viver de forma autêntica, sem máscaras ou aparências.

Nos últimos anos, cresceu uma figura curiosa e muito presente nas redes sociais: o jovem místico. Ele aparece em fotos com cristais, banhos de ervas, tarôs e frases que misturam autoconhecimento com estética de filtro vintage. É um personagem que diz viver pela intuição, guiado por sinais do universo, sempre em busca de “energia boa”. Só que, por trás da aura de sabedoria precoce, muitas vezes há uma desconexão com a vida real.

A própria mídia já percebeu esse fenômeno. Uma matéria do UOL chamou o jovem místico de um expoente da geração “nem, nem, nem”: nem trabalha, nem estuda, nem quer saber de responsabilidade. O discurso espiritual vira uma desculpa para se afastar do mundo. “Não estou improdutivo, estou em processo”, dizem. Só que o processo parece não ter fim. A espiritualidade é usada como um argumento para justificar o vazio, o tédio e até a inércia.

Mas o jovem místico não tem idade. Há também as senhoras místicas, os senhores, os coaches, os terapeutas improvisados. Pessoas que se apropriam do vocabulário espiritual para mascarar a própria confusão interna. Todos fazem parte do mesmo grupo que confunde espiritualidade com performance. É o fingimento de estar “em paz”, quando na verdade se vive um caos disfarçado de equilíbrio.

Esse tipo de comportamento precisa acabar. Precisa acabar o hábito de atribuir tudo ao “universo”. Nem sempre a intuição falou, às vezes foi ansiedade. Nem sempre a energia está pesada, às vezes é só falta de sono. Nem sempre o “sinal” é um aviso místico, pode ser o corpo pedindo atenção. É cômodo espiritualizar o que, na verdade, exige maturidade, cuidado e discernimento.

Há quem use frases prontas para parecer profundo, mas foge de conversas sinceras. Há quem acenda incensos e tome cacau ritualístico, mas trate mal os pais, os parceiros e os colegas de trabalho. Há quem diga que “não se envolve com energia densa”, mas está sempre falando mal dos outros. O discurso é puro, o comportamento nem tanto.

Essa versão de espiritualidade virou produto. Está no Instagram, em vídeos de um minuto, em feeds impecáveis, em retiros que prometem consciência em um fim de semana. Vende-se uma vida que parece calma, mas é só mais uma vitrine. O problema não está nas práticas em si, mas no uso vazio que se faz delas. Não é o cristal, o tarô ou o reiki que enganam, é a maneira como viraram cenário para uma vida inventada.

Espiritualidade de verdade é o que acontece fora do feed. É o modo como você lida com quem te irrita, com o vizinho barulhento, com o pai que pensa diferente. Está em respeitar o caixa do mercado, em ouvir antes de reagir, em reconhecer quando se erra. É quando você paga suas contas, encara suas falhas, pede desculpas e segue em frente. Não há nada de místico nisso, mas há verdade.

Imagem de uma pessoa usando uma camisa clara, de braços abertos, olhando para o céu e para a natureza. A foto traz o conceito de espiritualidade.
Aflo Images de アフロ(Aflo)/ Canva

Ela também aparece nas pequenas escolhas do cotidiano: comer com atenção, cuidar da casa, estar inteiro numa conversa, admitir que não sabe. Espiritualidade é humildade em forma de gesto. É perceber o divino no simples, sem precisar se exibir como alguém que vive “em vibração elevada”.

Já conheci muitos jovens místicos que causaram mais estragos emocionais do que pessoas consideradas céticas. A falsa iluminação é perigosa porque cria uma sensação de superioridade moral. Disfarça o ego com incensos e mantras. E o resultado são relações cheias de manipulação sutil, onde o outro é sempre o “menos desperto”.

Curiosamente, também já encontrei ateus que pareciam viver em profunda conexão com algo maior. Gente que não fala em alma, mas age com compaixão. Que não cita o universo, mas pratica a bondade. A espiritualidade pode existir sem religião, sem ritual e sem discurso. O que a define é a qualidade da presença, não a estética da fé.

Talvez o que precise acabar não seja o interesse pelo espiritual, mas a fantasia de que ele é um espetáculo. Que precisa ser mostrado, explicado, validado. A verdadeira busca é silenciosa e não precisa de aplausos.

No fundo, tudo isso fala sobre honestidade. O jovem místico precisa acabar porque ele é, antes de tudo, uma invenção. Uma máscara de quem quer parecer evoluído, mas teme encarar o próprio ego. Quando essa máscara cai, o que sobra é o humano comum, frágil, contraditório, vivo. E é aí que começa a espiritualidade de verdade: quando se aceita ser só humano.

Então talvez a pergunta não seja “como se tornar mais espiritual”, mas algo mais direto e desafiador: quantas das suas atitudes espirituais ainda servem apenas para esconder quem você é?

Sobre o autor

Giselli Duarte

Sempre fui movida pela curiosidade e pela busca constante por aprendizado. Minha trajetória percorreu diferentes áreas, da carreira corporativa a experiências menos convencionais, como um curso de DJ. Esse caminho diverso ampliou meu repertório e me trouxe a compreensão de que cada fase contribui de forma concreta para o trabalho que realizo hoje.

Com espírito empreendedor desde cedo, iniciei minha vida profissional aos 14 anos como jovem aprendiz e, aos 21, legalizei meu primeiro negócio. Desde então, criei, conduzi e participei de projetos diversos, sempre unindo visão estratégica, organização e consistência na execução.

Atuo na interseção entre marketing, negócios e comportamento humano, apoiando profissionais e empresas na construção de estratégias claras, posicionamento consistente e processos de crescimento bem estruturados. Ao longo da minha trajetória, trabalhei como profissional PJ em projetos para empresas de diferentes segmentos, como engenharia, startups, agências de comunicação e administração de condomínios. Essa vivência trouxe uma visão prática sobre modelos de negócio, tomada de decisão, estrutura e posicionamento em contextos variados.

Sou formada em Marketing, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios, pós-graduação em Design Gráfico e Inteligência Artificial aplicada a Growth Marketing. Em paralelo, aprofundei meus estudos em comportamento humano, autoconhecimento e processos de autorregulação, com formações e pós-graduações em Psicanálise Clínica, Constelação Familiar Sistêmica e Inteligência Emocional.

A experiência com o burnout foi um ponto de inflexão na forma como conduzo minha vida e minha atuação profissional. A partir desse momento, o Yoga e a Meditação passaram a fazer parte do meu caminho, levando à formação em Hatha Yoga, à Especialização em Atenção Plena e Educação Emocional, à Formação de Instrutores de Yoga para Crianças, Jovens e Yoga na Educação e Terapias Integrativas. Esse percurso ampliou minha compreensão sobre saúde emocional, atenção e desenvolvimento humano em diferentes fases da vida.

Compartilho esse conhecimento como colunista aqui no Eu Sem Fronteiras. Também atuo como instrutora de meditação nas plataformas Insight Timer e Aura Health, onde desenvolvo práticas e conteúdos em áudio e formato de podcast, voltados ao cultivo de presença, clareza e equilíbrio.

Como autora, publiquei os livros No Caminho do Autoconhecimento, Lado B e Histórias de Jardim e Café, reunindo reflexões e vivências ligadas ao comportamento humano e à forma como nos relacionamos com a vida e o trabalho.

Atualmente, estou à frente da Terapeutas Digitais, uma agência de marketing especializada em profissionais da área terapêutica. Desenvolvo planejamento de marketing, mentoria, estratégia digital, gestão de redes sociais premium e estruturação de posicionamento, comunicação e processos que conectam marca, público e objetivos de negócio.

Minha atuação como mentora de negócios integra marketing, estratégia e autoconhecimento. Parto do princípio de que empreender exige clareza interna, postura e decisões conscientes, e que, muitas vezes, os desafios do negócio estão diretamente ligados à forma como a profissional se posiciona, escolhe e se relaciona com o próprio trabalho.

Também realizo trabalho voluntário como mentora na RME, Rede Mulher Empreendedora, idealizada por Ana Fontes, participando de mentorias pontuais voltadas ao apoio estratégico de mulheres empreendedoras.

Acredito que negócios alinhados com quem somos ganham mais sentido, direção e impacto. É assim que escolho atuar e é esse caminho que sigo construindo.

Curso
Meditação para quem não sabe meditar

Contatos
Email: [email protected]
Site: giselliduarte.com
Site dos livros: No Caminho do Autoconhecimento e Lado B
Facebook:: @giselli.d
Instagram: @giselliduarte_
Twitter: @gisellidu
Linkedin: Giselli Duarte
Spotify: No Caminho do Autoconhecimento
YouTube: No Caminho do Autoconhecimento
Medium: @giselliduarte

Aura Health: www.aurahealth.io/coaches/giselli-duarte

Insight Timer: insighttimer.com/br/professores/giselli