Convivendo

Conscientização da Endometriose e o Março Amarelo — parte I

Mulher com as mãos na região abdominal baixa com fundo amarelo. Mês Mundial da Conscientização da Endometriose.
Jéssica Sojo
Escrito por Jéssica Sojo

Olá, amigos e amigas do Eu Sem Fronteiras, tudo bem? Quanto tempo que eu não apareço por aqui, né? Após partilhar a minha experiência em não fazer o uso do anticoncepcional e a jornada incrível que eu tive através do sagrado feminino — e também, após o retorno de alguns leitores me agradecendo por e-mail sobre essa incrível liberdade que é abraçar o autoconhecimento e se reencontrar através do sagrado feminino, eu decidi trazer em pauta, um assunto que é essencial para o entendimento de homens e mulheres.

Março é o mês de conscientização da endometriose — e eu tenho endometriose.

Por isso decidi compartilhar aqui toda a luta que passei para receber o diagnóstico de endometriose profunda.

Existe a semana internacional europeia e norte-americana, que vai de 4 a 11, mas o importante não é a data, mas sim o mês. Em março, muitos países ficam amarelo (a cor oficial da fita da endometriose), onde cada país celebra no mês sua data para conscientizar mais a população sobre a doença.

Calcula-se que, em todo o mundo, 176 milhões de mulheres sofram com a endometriose. É como se quase a população inteira do nosso país fosse formada por mulheres com o problema. Apesar de serem muitas as afetadas, conseguir um diagnóstico ainda é um desafio comum à maior parte delas. Um estudo feito nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália calculou em 9,28 anos o tempo que se leva desde o surgimento da doença até o diagnóstico.

Laço amarelo com frase "Março Amarelo" ao lado.

Metade desse período (4,67 anos) costuma ser o tempo que a própria paciente leva até buscar ajuda médica. A outra metade geralmente é gasta de médico em médico, de exame em exame, até se conseguir fechar o diagnóstico correto.

Isso mostra a importância de se educar tanto as pacientes quanto os profissionais de saúde sobre os sintomas e os métodos de diagnóstico da endometriose, uma doença que, além de muita dor, pode levar à infertilidade.

Se todos estiverem atentos aos sinais dados pela doença, é possível descobri-la muito mais rapidamente, tornando o tratamento muito mais efetivo. Por essa razão, foi criado o mês de conscientização sobre a endometriose.

Comemorado mundialmente em todos os meses de março, o período serve para levar informação à sociedade sobre o que é a doença e sobre como ela pode ser descoberta e controlada.

Sempre tive cólica, mas nada exagerado perto das cólicas horríveis que eu já vi pessoas próximas a mim sentirem. Comecei a sentir cólica mesmo, após iniciar o uso de contraceptivo oral — e daí, veio acompanhado: ciclos irregulares, fluxo intenso, dores insuportáveis para além do que eu já pude imaginar algum dia — e é sério, não é brincadeira.

Passei em diferentes ginecologistas e a história se repetia: “Ah, ter cólica é normal. Toma esse remedinho aqui que passa. Faça essa bateria de exames, Papanicolau, ultrassonografia pélvica, colposcopia etc.” — e nunca passava dor nenhuma, somente contribuía para que eu sofresse de dores e ciclos irregulares, ao ponto de quase cogitar que estivesse com um câncer.

Foram gastos com exames diferentes, com remédios, com consultas e uma dor de cabeça que não tinha fim. Para se ter ideia, cheguei ao ponto de não conseguir sair mais de casa. E não somente por sentir cólica. Lá foram mais gastos, solicitação de mais exames detalhados, até — finalmente — ser diagnosticada com endometriose profunda.

Mulher chocada e chateada com alguma notícia.

Que baque!

Fiquei muito chateada e sem chão, imaginei que fosse o fim — já que eu sempre cogitei engravidar um dia. Procurei participar de grupos, trocar informações com outras pessoas que também descobriram ter endo, encontros e todas as fontes possíveis para compreender e tratar a endometriose. Até que encontrei o GAPENDI, que é um grupo de apoio às portadoras de endometriose e infertilidade, e tive também a boa sorte de conhecer e participar do grupo Endometriose sem Censura, da Ariane Steffen.

Recordo que enviei mensagem para a Ari, desesperada e sem muitas esperanças, e recebi todo o acalento que uma mãe tem para com o seu filho. Conheci diversas pessoas que também sofrem de endo profunda e hoje, através do veganismo, ioga, meditação e o autoconhecimento feminino, além de, claro, ter um acompanhamento com uma médica incrível e com mente aberta e que preza uma qualidade de vida com base em coisas naturais <3 eu consigo manter os focos da endometriose controlados. Sem uso de remédios e sem sentir o incômodo que eu sentia anteriormente.

Lembrando aqui e sempre que é essencial a procura por um profissional altamente capacitado e acompanhar constantemente a endometriose.

A endometriose é uma doença comum entre mulheres jovens — e o seu diagnóstico é essencial para que não prejudique a saúde das endo-amigas. Fui descobrir a endometriose profunda após a realização daquela bateria de exames, mas foi somente através mesmo da ressonância magnética da pelve e a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal com protocolo para endometriose. Em breve partilharei em partes sobre a minha experiência desde o início até o diagnóstico da endo, aqui no Eu Sem Fronteiras.

Mas, inicialmente e hoje, no primeiro artigo vou explicar o que é, quais os tipos e os sintomas da endometriose.

Mulher com mãos na região do útero.

Endometriose — o que é? 

Endometriose é uma afecção inflamatória provocada por células do endométrio que, em vez de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal.

Exemplificando melhor: o sangue que deveria ser expelido pela vagina, migra para outras regiões do corpo — principalmente os órgãos — causando uma inflamação crônica nestas áreas.

Os locais mais comuns em que ocorre endometriose são os ovários, as trompas de Falópio, o intestino e as áreas que rodeiam o útero. 

Nas formas graves da doença, as massas de endometriose podem atingir outros órgãos pélvicos, nomeadamente o reto, vagina, cólon sigmoide, ureteres, bexiga e nervos superficiais e profundos. Algumas formas de endometriose profunda podem, ainda, envolver outros órgãos, como o diafragma e o pulmão.

O endométrio é uma mucosa que reveste a parede interna do útero, sensível às alterações do ciclo menstrual, e onde o óvulo depois de fertilizado se implanta. Se não houve fecundação, boa parte do endométrio é eliminada durante a menstruação. O que sobra volta a crescer e o processo todo se repete a cada ciclo.

Endometriose é uma afecção inflamatória provocada por células do endométrio que, em vez de serem expelidas, migram no sentido oposto e caem nos ovários ou na cavidade abdominal, onde voltam a multiplicar-se e a sangrar.

Endometriose profunda é a forma mais grave da doença. As causas ainda não estão bem estabelecidas. Uma das hipóteses é que parte do sangue reflua através das trompas durante a menstruação e se deposite em outros órgãos. Outra hipótese é que a causa seja genética e esteja relacionada com possíveis deficiências do sistema imunológico.

Desenho gráfico para exemplificar o que é endometriose. Vetor de uma vagina nas cores rosa e vermelho.

Endometriose — tipos? 

Como vimos anteriormente, a endometriose profunda é considerada o tipo mais grave. A endometriose profunda, a forma mais severa da doença, é caracterizada por implantes de endométrio com mais de 5 mm de profundidade, que podem comprometer os ligamentos uterinos, a região posterior ao útero (retrocervical), a bexiga urinária e os intestinos (reto e sigmoide, que correspondem à parte final do intestino grosso; íleo, equivalente à porção terminal do intestino delgado; ceco, começo do intestino grosso; ou apêndice cecal). É a versão da enfermidade mais associada a sintomas de dor e que tem maior complexidade terapêutica.

Destaca-se aqui a endometriose de septo retovaginal, modalidade de endometriose profunda que compromete a região entre a vagina e o reto. Há uma frequente confusão entre septo retovaginal e doença retrocervical. A doença do septo retovaginal é mais baixa e de maior complexidade terapêutica.

Ovariana

Pode acometer os ovários superficialmente ou ocasionar os cistos de endometriose ovariana, conhecidos como endometriomas ou cistos chocolate. Recebem esta denominação porque apresentam sangue antigo espesso no seu interior, adquirindo aspecto marrom. Estudos recentes mostram que a doença de ovário se relaciona a quadros de dor quando está associada à endometriose profunda.

Superficial

Corresponde ao implante do endométrio na superfície do peritônio, tecido que reveste a cavidade peritoneal (recobrindo as paredes do abdome e a superfície dos órgãos digestivos). Podem aparecer como implantes vermelhos (mais ativos), pretos (em fase de remissão) e brancos (cicatriciais). Apesar de superficiais, podem ser responsáveis por dor de forte intensidade.

Septo retovaginal

Esse tipo é muito raro e acomete a região entre o reto e a vagina. Ainda existem poucas informações a respeito de como o tecido endometrial chega nessa região.

Endometriose de parede

Acontece frequentemente após a realização de procedimentos cirúrgicos. É comum o aparecimento de cistos que se localizam próximos à região da cirurgia.

Endometriose pulmonar ou pleural

Um dos casos mais raros. A endometriose pulmonar consegue alcançar vasos sanguíneos localizados no pulmão. O problema é grave e muitas vezes pode causar tosse com sangue.

Endometriose intestinal

A endometriose intestinal é quando o tecido endometrial (que reveste o útero internamente) se espalha pelo corpo e chega até o intestino, causando aderências. Esse tecido também responde aos hormônios, e por isso também sangra durante a menstruação. Assim durante essa fase a mulher apresenta também sangramento pelo ânus, além de ter cólicas muito fortes.

Endometriose — sintomas? 

A endometriose pode ser assintomática. Quando os sintomas aparecem, merecem destaque:

• dismenorreia — cólica menstrual que, com a evolução da doença, aumenta de intensidade e pode incapacitar as mulheres de exercerem suas atividades habituais;
• dispareunia — dor durante as relações sexuais;
• dor e sangramento intestinais e urinários durante a menstruação;
• infertilidade.

Mulher em fundo amarelo, segurando uma fita amarela em sinal de conscientizar sobre a endometriose.

Existem mulheres que sofrem dores incapacitantes e outras que não sentem nenhum tipo de desconforto. Cólicas menstruais intensas e dor durante a menstruação, dor pré-menstrual, dor difusa ou crônica na região pélvica, fadiga crônica e exaustão, sangramento menstrual intenso ou irregular, alterações intestinais ou urinárias durante a menstruação, dificuldade para engravidar e infertilidade.

De todos os sintomas acima mencionados, eu sempre tive muita cólica, sangramento mesmo nos períodos em que eu não estava menstruada, dor nas relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e inchaço constante na barriga.

Com toda a minha gratidão, até a próxima.

Fontes: 

http://eutenhoendometriose.blogspot.com
http://aendometriosenomeudiaadia.blogspot.com
https://endometriosesemcensura.com.br
https://www.gineco.com.br
https://drauziovarella.uol.com.br
https://www.hospitaldaluz.pt/povoa/pt/informacao-de-saude/endometriose
http://www.endopelvic.com/noticias/marco-mes-mundial-da-conscientizacao-da-endometriose
https://www.unimedfranca.com.br/noticias/marco-amarelo–mes-mundial-de-conscientizacao-da-endometriose


Você também pode gostar de outro artigo desta autora. Acesse: Setembro Verde – precisamos dialogar sobre a primordialidade da doação de órgãos.

Sobre o autor

Jéssica Sojo

Jéssica Sojo

É custoso descrever quem sou eu – já que constantemente lapido, modifico e me transformo em um pouco de tudo e muito de cada pouco. Inicialmente posso compartilhar dizendo que sou extremamente curiosa, apaixonada pela comunidade surda, pela língua de sinais e por tudo que envolve a linguística.

Foi na faculdade de medicina e como acadêmica há alguns anos (com a esperança de trabalhar com o ser humano e suas limitações) que eu adentrei para um universo de que eu não fazia ideia que fosse possível existir e que pudesse trazer a bagagem que tenho hoje. Minha busca incessante pelo autoconhecimento e entendimento para muitos dos questionamentos que já tive (e continuo tendo) me fez despertar para o meu atual desígnio.

Minhas tantas outras peregrinações e experiências também contribuíram e muito com o meu desígnio – a começar pelo de compartilhar junto a vocês, leitores do EuSemFronteiras, sobre a primordialidade de enxergarmos para além do que nos visibiliza os olhos e lembrarmo-nos sempre de sermos semelhantes ao sol, mesmo em meio às sombras escarpadas montanhosas da vida.

Com todo o meu carinho e gratidão imensa,

Mãos em prece e um saudoso e caloroso abraço em cada um.

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