Nutrição

Glúten free? O que isso quer dizer?

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Alimentação é um assunto que rende. A toda hora surgem dietas, várias malucas e poucas sérias. A lista de mocinhos e vilões sofre constantes alterações. O ovo foi injustiçado por anos. Hoje, seus inúmeros benefícios são reconhecidos. Rico em colina e ácido fólico, o alimento impede a má formação do feto. O café também foi muito massacrado. Dor de estômago, gastrite e insônia eram os males atribuídos a bebida. Porém, os sintomas são frutos do exagero. A dose diária recomendada é de até quatro xícaras. O café age contra enxaquecas, melhora o humor e emagrece. Após as refeições, porque pode impedir a absorção de cálcio e ferro.

Outra discussão atrelada à alimentação são as alergias alimentares. A hipersensibilidade provoca problemas gastrointestinais e dificuldades respiratórias. Em crianças, pode haver presença de sangue nas fezes. Nunca foram registrados tantos casos e a tendência é piorar. Em todo o mundo o número aumentou 50% entre 1997 e 2013, segundo dados do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), no Canadá. As crianças são mais sensíveis ao problema. Na China os casos dobraram. Na Europa, os casos de alergia alimentares em crianças subiram 700%. No Brasil, são 2 milhões de pequenos alérgicos.

Qualquer alimento pode causar alergia. A alergista Ana Paula Castro aponta que 85% dos casos estão relacionados ao leite, ovo, amendoim, crustáceos e peixes. Há uma predisposição genética para as alergias alimentares. O sistema imunológico falha e causa uma doença. Pesquisas indicam que de 50 a 70% dos alérgicos possuem histórico familiar. A chance de uma criança ser alérgica é de 75% se o pai e a mãe tiverem o problema.

Corantes, conservantes e temperos explicam, em parte o aumento das alergias. O corante tartrazina é encontrado em remédios, balas, sorvetes (especialmente de passas ao rum, creme, maracujá e abacaxi), pudins pronto de baunilha, xampus e sabonetes.  Estudos realizados na Europa e Estados Unidos desde os anos 70 relatam sintomas como dor de cabeça, náuseas, urticárias e eczemas associados ao corante. A ANVISA determina que os rótulos devem mencionar a presença do tartrazina. O glutamato monossódico realça o sabor dos temperos industrializados, sopas e comida congelada. A alergia provoca sudorese, dor de cabeça, pressão ou inchaço facial e insensibilidade ou ardor ao redor da boca.

Glúten, o grande vilão

Metade das calorias vem do arroz, milho e trigo. Este é o mais cultivado e está presente em uma infinidade de alimentos. Cereais matinais, pães, massa de tomate, batata frita congelada, pizza e cerveja são alguns exemplos. O glúten é uma proteína encontrada no trigo, aveia, malte, cevada e centeio. O glúten confere elasticidade aos pães, bolos e biscoitos. É uma proteína de difícil digestão. Nos anos 50 já eram observados problemas de saúde relacionados ao glúten. Eles quadruplicaram no mundo desde então.

shutterstock_286114787O glúten teria se tornado um vilão devido a alterações na plantação. O neurologista americano David Perlmutter, autor do livro A Dieta da Mente afirma que ao X da questão está modificações realizadas no intuito de aumentar a produtividade. O trigo antigo não continha glúten e não era considerado bom para produzir pães. Hoje ele é menor, o que facilita a colheita mecanizada. O ciclo de vida mais curto permite a terra ser liberada rapidamente. As modificações conduzidas pelo homem são questionadas. Pesquisadores explicam que alguns cruzamentos genéticos aconteceram naturalmente. Ainda faltam estudos que comprovem a crescente dificuldade em digerir esse trigo modificado.

O glúten virou um inimigo a ser combatido. Mesmo sem o diagnóstico de doença atribuída, muitas pessoas querem reduzir ou eliminar essa proteína da dieta. Apenas nos Estados Unidos 28,5% da população revelam tal intenção. O mercado acompanha a tendência. Nos Estados Unidos, os alimentos sem glúten movimentam mais de US$ 10 bilhões por ano. De 2012 para cá foram lançados 1500 produtos nos EUA.

Doença Celíaca, Intolerância ao Glúten e Alergia ao Trigo

Existe muita confusão entre os termos. Para acabar com os equívocos, abordaremos os principais tópicos sobre as doenças.

Doença Celíaca

Segundo a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (FENACELBRA) dois milhões de brasileiros são portadores da doença celíaca. Esta condição é uma predisposição genética caracterizada pela inflamação crônica do intestino delgado. A doença celíaca causa danos à parede do intestino e atrofia nas vilosidades intestinais, dobras do intestino responsáveis por aumentar a superfície de absorção dos nutrientes. Por ser uma intolerância permanente, é preciso excluir o glúten da alimentação. A doença celíaca surge na infância, entre crianças de 1 a 3 anos, porém, pode vir a manifestar-se na vida adulta. A doença é predominante em mulheres.

Sintomas

  • Atraso no crescimento
  • Irritabilidade ou desânimo
  • Dor de barriga
  • Barriga inchada
  • Vômitos
  • Falta de apetite
  • Emagrecimento
  • Prisão de ventre
  • Diarreia crônica (mais de 30 dias): fezes volumosas de cor pálida e mal cheirosa
  • Anemia
  • Osteopenia: perda de massa óssea que pode levar à osteoporose

Diagnóstico

O diagnóstico é feito pelo gastroenterologista, profissional que estuda e trata doenças do aparelho digestivo. São pedidos exames de urina, fezes, exames de sangue do antitransglutaminase tecidular (AAT) e do anticorpo antiendomísio (AAE) e uma biópsia do intestino delgado através de uma endoscopia digestiva alta. O médico ainda pode pedir ao paciente para não ingerir glúten de 2 a 6 semanas e solicitar outra biópsia para confirmar o diagnóstico.

Tratamento

Alimentação sem glúten por toda a vida, sempre com acompanhamento de um nutricionista. O celíaco não pode comer trigo, aveia, centeio, cevada e malte e derivados (farinha de trigo, pão, farinha de rosca, macarrão, bolachas, biscoitos, bolos e outros). Em alguns casos são indicados suplementação de vitaminas.

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Alimentos permitidos

  • Frutas: todas, ao natural e sucos
  • Hortaliças e leguminosas: folhas, cenoura, tomate, vagem, feijão, soja, grão de bico, ervilha, lentilha, cará, inhame, batata, mandioca e outros
  • Cereais: arroz, milho
  • Farinhas: mandioca, arroz, milho, fubá, féculas
  • Laticínios: leite, manteiga, queijos e derivados
  • Carnes e ovos: aves, suínos, bovinos, peixes e frutos do mar
  • Gorduras: óleos, margarinas

Alimentos proibidos

  • Pão francês, tortas, salgadinhos, massas a base de trigo, sêmola ou semolina
  • Achocolatados com malte na formulação
  • Bebidas alcoólicas
  • Farofa industrializada
  • Molho shoyo contendo trigo

Cuidados:

  • Ler atentamente os rótulos. A lei federal nº 10.674, de 16/05/2003 determina que os alimentos industrializados apresentem rótulos com as mensagens “contém” ou “não contém glúten”.
  • Alimentos isentos de glúten preparados em maquinário onde são preparados alimentos com glúten. Neste caso, os rótulos têm a informação “pode conter traços de glúten”.
  • Biscoitos de polvilho e pão de queijo feitos em locais onde é utilizado farinha de trigo.
Intolerância ao Glúten

Também conhecida como sensibilidade ao glúten não-celíaca. A intolerância é a incapacidade ou dificuldade do organismo em digerir o glúten. O diagnóstico é feito após serem excluídas as possibilidades de doença celíaca e de alergia ao trigo. São realizados exames de fezes, urina, teste sorológico e biópsia intestinal. A intolerância ao glúten ocorre em decorrência à exposição frequente ao trigo, aveia, malte, cevada e centeio. Nesta condição, a proteína se aloja na parede do intestino. Estima-se 6 a 10% da população sejam intolerantes.

Sintomas

  • Irritabilidade e fadiga
  • Enxaqueca
  • Perda do apetite
  • Emagrecimento
  • Dor de barriga
  • Barriga inchada
  • Diarreia frequente, de 3 a 4 vezes ao dia, com grande volume de fezes
  • Vômito persistente
  • Palidez
  • Anemia
  • Diminuição da massa muscular

Os intolerantes ao glúten também devem excluir a proteína da alimentação. A lista de alimentos permitidos e proibidos é semelhante à dos celíacos.

Alergia ao Trigo

Nada tem a ver com a doença celíaca ou intolerância ao glúten. Alergia é uma reação exagerada, podendo ser imediata ou de curto prazo. Na alergia ao trigo, o organismo age como se o alimento fosse um agente agressor. Os sintomas são náuseas, vômitos, dor de cabeça, diarreia, prisão de ventre, manchas na pele, podendo chegar a um choque anafilático. No choque anafilático há dificuldade em respirar, inchaço da boca, sudorese e aumento dos batimentos cardíacos.

A alergia ao trigo surge ainda na infância. Embora seja necessário excluir o trigo, o organismo pode se adaptar e não encarar o trigo como inimigo. O acompanhamento com médico alergologista é fundamental. Porém, é bom saber quais alimentos perigosos aos alérgicos.

  • Farinha de trigo, cereais, pães e massas
  • Molho de soja
  • Maionese
  • Alimentos à milanesa
  • Patês e salsicha
  • Sopas industrializadas
  • Chocolate
  • Achocolatado com malte na formulação
  • Bebidas alcoólicas

O alérgico não pode consumir alimentos com amido, amido alimentar modificado, amido gelatinado, amido modificado, amido vegetal, goma vegetal ou hidrolisado proteico de vegetais. Amêndoas, avelãs, batata doce cozida, grão-de-bico e lentilha são exemplos de alimentos com amido.

Dieta sem glúten emagrece?

Muitas pessoas relatam que emagreceram após eliminar o glúten da dieta. O glúten não influencia na perda ou ganho de peso. A nutróloga Tamara Mazaracki, membro da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), esclarece que não há nenhuma relação. Alimentos sem glúten podem ser tão calóricos quanto os sem a substância. Estudo publicado no American Journal of Gastroenterology em 2006 analisou 188 celíacos. Metade do grupo estava acima do peso ou era obeso. Após dois anos de dieta sem glúten, 81% dos participantes ganharam peso.

Para quem ainda quer excluir a proteína, o cientista de alimentos Jaime Amaya Farfan afirma que o glúten não fornece benefícios, por isso é dispensável. Entretanto, é preciso consultar um nutricionista antes de adotar uma dieta sem glúten. A proteína está presente nos pães e massas, grandes fontes de carboidratos.

Vida sem glúten

Recebeu o aval do nutricionista para uma dieta sem glúten? Preparamos uma lista dos efeitos dessa escolha.

Você vai gastar mais dinheiro

É difícil encontrar alimentos sem glúten. Os que se encaixam nessa categoria são três vezes mais caros. A produção é mais cara, pois, são utilizados grãos especiais e procedimentos especiais evitam a contaminação cruzada.

Pode sofrer com intestino preso

Dieta livre de glúten pode prender o intestino. A proteína está presente nos cereais, alimento rico em fibras. Sem elas, o intestino sofre inflamações, irritações e dores.

Sentir fraqueza

Tirar o trigo, cevada, centeio e outros grãos elimina nutrientes como ferro, fibras, ácido fólico, zinco e vitamina D. Celíacos, intolerantes e pessoas que desejam adotar uma dieta sem glúten devem procurar orientação do nutricionista. Fazer substituições alimentares por conta própria corre o risco de ter alterações no humor, fadiga, fraqueza e queda de cabelo.

Consumir mais conservantes

Para tirar o glúten, a indústria alimentícia costuma colocar arroz. O arroz possui arsênico inorgânico, mineral utilizado em fertilizantes e conservantes que aumenta o risco de doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e câncer de pulmão.

Aumentar o risco de câncer

A dieta Paleo é um dos responsáveis pela corrida desenfreada contra o glúten. Tornou-se popular na década de 70 graças ao gastroenterologista Walter L. Voegtlin. Também conhecida como “dieta do homem das cavernas”, a dieta Paleo proíbe a ingestão de grãos e estimula o aumento do consumo de carne. Porém, isso aumenta em quatro vezes o risco de câncer. Nutricionistas ressaltam que a obtenção de proteínas deve vir de animais e vegetais.

Doença celíaca, intolerância ao glúten e alergia ao trigo são assuntos sérios. Sintomas repetitivos precisam ser investigados imediatamente. Por serem parecidos com outras doenças, muitas pessoas ingerem medicamentos e acabam mascarando o problema. Caso não identificadas e tratadas corretamente, a doença celíaca, intolerância ao glúten e alergia ao trigo podem trazer consequências graves.

Excluir o glúten da alimentação exige acompanhamento. Tirar essa proteína por conta não emagrece. A dieta sem glúten pode aumentar a ingestão de conservantes. Você ainda pode causar desnutrição, já que a proteína está presente nos pães e massas, principais fontes de carboidrato. A ausência também pode aumentar o risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e até câncer de pulmão. A alimentação sempre é alvo de modismos, muitas vezes influenciados pelas celebridades. Não siga moda e faça somente o que trará benefícios à sua saúde.  Você até pode adotar uma dieta sem glúten, entretanto, nunca sem o aval de um nutricionista.


  • Escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras.

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