Sempre que um psicólogo, terapeuta, psiquiatra ou outro profissional da saúde mental perde a vida por suicídio, a notícia costuma provocar espanto. A pergunta aparece quase imediatamente: como alguém que dedicou tantos anos ao estudo da mente humana chegou a esse ponto?
Essa reação revela uma expectativa antiga. Muitas pessoas acreditam que compreender o sofrimento oferece algum tipo de proteção contra ele. A profissão passa a ocupar um lugar tão grande que a pessoa por trás dela quase desaparece.
Quem trabalha com saúde mental escuta diariamente histórias que poucas pessoas conhecerão ao longo da vida. São relatos de abuso, violência, abandono, depressão, ansiedade, luto, tentativas de suicídio, conflitos familiares e perdas profundas. Cada atendimento exige atenção, responsabilidade e equilíbrio para conduzir situações delicadas. Ao final da sessão, o paciente vai embora. O profissional segue para o próximo atendimento, levando consigo a responsabilidade de cuidar de tantas histórias diferentes.
Ao mesmo tempo, continua vivendo a própria vida.
Também enfrenta problemas financeiros, dificuldades nos relacionamentos, doenças, perdas, preocupações e crises pessoais. O diploma não modifica essa condição. A experiência clínica também não.
Existe outro aspecto que merece atenção.
Durante anos, esses profissionais orientam pacientes a procurar ajuda, reconhecer limites e cuidar da própria saúde mental. Quando o sofrimento passa a fazer parte da própria vida, muitos encontram dificuldade para ocupar esse lugar. Alguns sentem vergonha. Outros acreditam que deveriam conseguir lidar sozinhos com aquilo que estão vivendo. Também existe o receio de serem vistos como menos preparados pelos próprios colegas ou pacientes.
Essa cultura produz um isolamento perigoso.
A literatura científica já identificou níveis elevados de burnout, exaustão emocional e estresse ocupacional entre profissionais da saúde mental. O contato permanente com o sofrimento humano, somado à responsabilidade clínica e à dificuldade de estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal, aumenta o desgaste ao longo dos anos. Esse cenário tem levado pesquisadores a defender programas permanentes de prevenção, supervisão e apoio psicológico para quem trabalha nessas áreas.
Apesar disso, o assunto continua sendo pouco discutido.
Quando um profissional da saúde mental morre por suicídio, a notícia costuma permanecer restrita aos colegas, amigos e familiares. Pouco se fala sobre as condições de trabalho, sobre o impacto emocional da profissão ou sobre a importância de cuidar de quem dedica a vida a cuidar dos outros.
Esse silêncio favorece interpretações equivocadas. Algumas pessoas concluem que o profissional fracassou. Outras passam a questionar sua competência. Nenhuma dessas leituras ajuda a compreender a complexidade do sofrimento humano.
O suicídio nunca possui uma única explicação. Ele resulta da interação de diversos fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Reduzi-lo à profissão de alguém impede uma compreensão mais ampla do problema.
Falar sobre esse tema exige responsabilidade, informação e respeito. Também exige abandonar a ideia de que terapeutas, psicólogos e outros profissionais da saúde mental ocupam uma posição diferente da condição humana.
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Eles estudam o sofrimento.
Acolhem o sofrimento.
Trabalham diariamente diante do sofrimento.
Nenhuma dessas experiências impede que também sofram.
Reconhecer essa realidade não diminui a confiança nesses profissionais. Pelo contrário. Permite enxergá-los de forma mais humana e cria condições para que pedir ajuda deixe de ser interpretado como sinal de fraqueza. Quem dedica a vida ao cuidado também precisa encontrar lugares onde possa falar da própria dor antes que ela se torne grande demais para ser carregada sozinho.
