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Taoismo: busca pela harmonia

Ao contrário da maior parte das religiões do Ocidente, que são focadas em deuses e seus mitos, a maior parte das religiões do Oriente é focada no autoconhecimento do ser humano e em seu autodesenvolvimento, além do equilíbrio entre ele, o mundo e a natureza. Uma dessas religiões é o taoísmo, que também é considerado uma filosofia e um estilo de vida para além da religião.

O taoísmo se resume na busca por harmonia e por equilíbrio na vida, por acreditar que o ser humano tem suas dualidades — suas luzes e suas sombras, por assim dizer —, então precisa estar sempre tentando harmonizar essas energias para que possa ser possível viver uma vida em equilíbrio. Conheça agora a origem e os principais fatos sobre o taoísmo.

O que é o taoísmo?

Taoísmo é uma tradição filosófica que se originou na China e é conhecida como Daoísmo e Tauísmo. É uma fusão entre ciência, filosofia e espiritualidade. A palavra chinesa “dao” significa “via”, “caminho” ou “princípio”. Essa tradição surgiu no século II a.C. (Dinastia Han) e foi atribuída ao filósofo chinês Lao Tzu, que viveu no século VI a.C.

Aqueles que seguem essa tradição acreditam no autodesenvolvimento, na liberdade e na busca da harmonia com a natureza, o meio ambiente e consigo mesmo. Essa doutrina tradicional pode ser resumida nas “Três Joias”, que é como são conhecidas as três virtudes essenciais segundo o taoísmo: delicadeza, simplicidade e bondade.

Taoísmo e harmonia

Um dos princípios básicos da filosofia (e da religião) taoísta é que devemos abrir mão de tudo aquilo que não nos é necessário. O taoísmo prega um reencontro do ser humano com a natureza, isto é, a natureza no sentido de meio ambiente mesmo, de estar em contato com a verdade, com os animais, com as paisagens e com a natureza verdadeira do ser, ou seja, as necessidades básicas do ser humano, não os desejos que surgem em nós ao longo da vida e que são frutos da nossa ganância.

Aqueles que seguem o estilo de vida taoísta, portanto, não abrem mão da vida em sociedade e da necessidade, por exemplo, de trabalhar e de pagar suas contas. Eles apenas tentam harmonizar isso com viver uma vida mais simples, pacata e afastada dos desejos consumistas do capitalismo. E você, tem sucumbido aos seus desejos ou tem conseguido controlá-los?

Taoísmo e dualidade

Outro conceito muito importante do taoísmo, representado pelo famoso símbolo yin-yang, é a dualidade. De acordo com essa filosofia, é impossível que algo seja completamente bom ou completamente ruim, porque sempre há algo positivo no que parece ruim e algo negativo no que parece bom.

Símbolo Yin Yang na areia.
Jben Beach Art / Pexels

Sabe quando passamos por uma situação desastrosa, como um luto pela perda de alguém querido, ou seja, um acontecimento que parece totalmente ruim, mas, depois de anos, percebemos como a ausência daquela pessoa moldou nossos caminhos e, muitas vezes, levou-nos a realizar sonhos e a fazer coisas que jamais teríamos feito antes? Isso é ver algo positivo em meio à negatividade.

Portanto, segundo o taoísmo, é preciso que nos equilibremos para encontrar a harmonia entre o bom e o mau, o frio e o quente, a luz e a sombra. Ser positivo o tempo todo é ruim e nos deixa pouco preparados para eventualidades. Por outro lado, ser negativo todos os dias nos impede de conquistar muita coisa boa e de ver diversos lados bons da vida. Equilíbrio é tudo!

Taoísmo e equilíbrio

E, assim, chegamos a outro pilar importantíssimo do taoísmo: o equilíbrio! Segundo os taoístas, bondade, delicadeza e empatia são atributos essenciais para que entendamos o mundo e façamos parte dele de maneira mais equilibrada e justa.

Quando olhamos com mais bondade para situações e pessoas, mesmo para aquelas que nos ofenderam, conseguimos nos abrir para ver a vida com mais oportunidade de perdão, de acolhimento e de generosidade.

A delicadeza, por sua vez, é um atributo que nos ajuda a combater a rudeza do mundo e do sistema em que vivemos, o qual incentiva a competição, o estresse, o pouco tempo para o repouso e para o descanso. A delicadeza está em todas as coisas, até mesmo nas pequenas, como quando nos alegramos ao ver uma flor desabrochada em meio a um dia ruim.

A empatia, segundo o taoísmo, é o que nos permite enxergar ou ao menos tentar enxergar o mundo a partir dos olhos e da perspectiva do outro, entendendo suas dores, suas frustrações e tantos outros sentimentos. Quando fazemos isso, entendemos que todo mundo está passando por suas dificuldades e por seus problemas, então precisamos sempre tentar ser gentis e estender a mão, porque quem age com agressividade, nervosismo e irritação muitas vezes está precisando apenas de acolhimento. Quando tentamos tornar a dor do outro um pouquinho nossa, trazemos um pouco de luz para ele, para nós e, de quebra, para o mundo.

Taoísmo e finitude

Outro conceito muito importante do taoísmo é o entendimento de que tudo o que começa termina e é normal que nós, como seres humanos, vivamos tentando nos apegar a coisas, situações e pessoas, como a paixão avassaladora, o emprego que o deixa numa zona de conforto, a ideia de que as pessoas amadas viverão para sempre. Sim, a vida, às vezes, é tão dura que só queremos que as coisas e as pessoas que amamos durem para sempre. A verdade, no entanto, é que elas não vão durar, pois, por exemplo, a paixão pode esfriar, você pode ser demitido daquele emprego, as pessoas que amamos podem morrer. Amar, mas sem se apegar e entendendo que é natural que acabe aquilo que um dia começou, é um ensinamento do taoísmo. Assim como aceitamos de bom grado tudo o que aparece de positivo em nossa vida, precisamos aceitar com o mesmo ímpeto quando o fim finalmente chega. Só com doses de desapego é que sofreremos menos e não tentaremos impor os nossos desejos sobre a vida.

A filosofia taoísta

Quando Lao Tsé espalhava seus ensinamentos, ele não se via como líder religioso, apenas como um pensador. Foi assim que nasceu a filosofia taoísta, que não tem deuses ou crenças espirituais ou sobrenaturais; é apenas um estilo de vida, um conjunto de ideias que podem ser assimiladas para que a vida tenha mais equilíbrio e harmonia. Confira quais são os principais:

Jardim com o símbolo de Yin Yang.
Leonardo Marçal / Pexels
  • Todo o Universo é constituído de diferentes manifestações da unidade infinita (Tao);
  • Tudo se encontra em constantes transformações;
  • Todas as contrariedades são complementares;
  • Não há duas coisas absolutamente iguais;
  • Tudo possui frente e verso;
  • A frente e o verso são proporcionalmente do mesmo tamanho;
  • Tudo tem um começo e um fim.

As práticas do taoísmo

Com o tempo, os costumes taoístas foram incorporados a outras tradições, como o budismo, e misturados a crenças em deuses e a rituais religiosos e/ou com fins espirituais. O taoísmo, porém, em sua essência, independe de religião. É possível até mesmo não só seguir outra religião, mas também a filosofia de vida taoísta. O taoísmo apenas deseja passar às pessoas que elas podem viver uma vida simples, estar em contato com a natureza e abrir mão de seus deveres e da vida social, caso eles não sejam necessários ou naturais. Confira algumas práticas taoístas:

● Feng Shui: Essa técnica chinesa tenta coordenar a energia do céu e da Terra para manter o equilíbrio energético das pessoas e é uma prática bem conhecida no Brasil. Por meio de cores e posicionamento de móveis, ambientes e situações, o Feng Shui ensina a “limpar” vigorosamente sua casa, seu ambiente de trabalho e sua vida como um todo.

● Artes marciais internas: Ao contrário das artes marciais que têm como objetivo a agressividade e a violência, artes marciais como o tai chi chuan apenas pregam a harmonia consigo e com o seu próprio corpo, então tem movimentos suaves e nenhum de combate.

Meditação: Por meio da meditação é que nos desligamos do mundo e nos integramos ao todo, segundo o taoísmo. É extremamente, portanto, importante “escapar” da vida real para estar perto de si mesmo, ouvindo-se e também conversando consigo mesmo.

O símbolo do taoísmo

O símbolo do taoísmo, talvez um dos mais famosos da História, é o yin-yang. Yin e yang representam o princípio dos prós e contras. É o conceito da dualidade, em que o yang não pode ser separado do yin e vice-versa, já que um precisa do outro para existir. Yin representa escuridão, feminilidade, frio e atividade noturna. Yang representa leveza, masculinidade, calor e clareza. Ainda de acordo com o taoísmo, não há mal completo e absoluto nem bem completo e absoluto, já que os dois se alimentam e são necessários para a existência do outro.

O que é o Tao?

O Tao (道, em chinês) é o conceito fundamental do Taoísmo. Entre outras adaptações possíveis, a palavra pode ser traduzida como “estrada” ou “caminho”.

Conforme descrito no Tao Te Ching, Tao é o conhecimento intuitivo e inerente à vida. Isso não é algo que os humanos possam entender totalmente, porque sua sabedoria é limitada para tamanha compreensão. O Tao, portanto, deve ser sentido e vivido, já que sua compreensão é impossível. Viver o Tao é viver de maneira harmoniosa e no caminho rumo ao seu autodesenvolvimento e ao desenvolvimento sustentável da sociedade e do mundo.

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Ao contrário da maioria das religiões ocidentais, que têm um grandioso objetivo final (como o céu/paraíso da Bíblia), o taoísmo trata a estrada como o meio e o fim. Não há, portanto, recompensa real no final da estrada, porque o importante é a própria estrada. O Tao é, em essência, uma doutrina que prega que devemos aproveitar a caminhada em vez de nos preocuparmos com o que nos espera no final dela.

O que é wu wei?

O wu wei (無為, em chinês) é o princípio prático do Taoísmo, enquanto o Tao é o princípio filosófico/espiritual. O Tao é uma metáfora para a maneira como devemos viver e nos dedicarmos a nós mesmos e à vida, enquanto o wu wei é a parte prática desse ensinamento.

Esse termo se refere a um modo de vida em que é necessário haver harmonia consigo mesmo, com o meio ambiente, com o mundo, com a vida e com o Tao, o caminho. Enquanto o Tao é algo exterior ao ser humano, visto que é a força fundamental de tudo o que existe, o wu wei é o estilo de vida e o conjunto de ações adotadas pelo ser humano.

Resumindo o conceito do wu wei, seu principal ensinamento é evitar qualquer medida ou atitude que não seja necessária e/ou natural. Ou seja, segundo essa ideia, não podemos fazer nada que seja baseado em desejos ou vontades nossas, apenas o que é natural ao ser humano, porque os desejos cegam nossos olhos e passamos a querer o que achamos que é melhor para nós, não o que a vida tem a oferecer de maneira espontânea. Por fim, é um conceito prático que prega que devemos aceitar a vida como ela é, sem reclamar de absolutamente nada.

O que é a religião taoísta?

As obras do Tao Te Ching não introduzem elementos espirituais ou esotéricos. Os ensinamentos de Lao Tzu são, em sua maioria, filosóficos e morais, mas também políticos, emocionais e psicológicos. Somente após cerca de quinhentos anos após sua morte é que algumas pessoas formaram o conjunto de doutrinas e de costumes religiosos que constituem o taoísmo. Essa tendência religiosa se baseia em alguns costumes religiosos e culturais do budismo e prega o culto a divindades e a seres humanos geniais, que devem ser respeitados como deuses, a exemplo de Buda e Lao Tsé.

Outros conceitos pertencentes à religião taoísta incluem alquimia, a teoria dos cinco elementos (chamada “Wu Xing”, que prega que o mundo material é todo formado pela interação entre fogo, terra, metal, água e madeira), respeito aos mortos e aos antepassados, integração da medicina tradicional chinesa e dos costumes orientais das artes marciais. Além disso, há a crença no qi, a suposta energia interna que cada um de nós tem em si, a energia básica que promove o desenvolvimento de todo mundo.

Dragões coloridos.
Chen Te / Pexels

Estima-se que pelo menos 400 milhões de pessoas (alguns cálculos chegam a 1 bilhão de pessoas) são seguidoras do taoísmo no mundo (quase 90% delas na China), o que coloca essa tradição religiosa entre as sete religiões mais populares do mundo (cristianismo, islamismo, ateísmo, hinduísmo, budismo, folclore local), de acordo com os dados do “World Survey” compilado pela CIA, a Agência de Inteligência dos Estados Unidos.

O taoísmo no Brasil

O maior representante do taoísmo no Brasil é a Associação Taoísta do Brasil, que surgiu no Rio de Janeiro, em janeiro de 1991. A entidade tem como objetivo divulgar os ensinamentos dessa tradição religiosa e filosófica. Seu fundador foi o taiwanês Wu Jyh Cherng (1958-2004), que traduziu diretamente do chinês antigo para o português a maioria dos ensinamentos taoístas. Além disso, ele fundou o Templo da Transparência Sublimem no Rio de Janeiro, onde lecionou até os 45 anos, quando morreu vítima de um câncer. Ademais, inaugurou o Templo Tesouro do Espírito, em São Paulo.

No censo do IBGE de 2010, o taoísmo foi incluído na categoria “outras religiões”, escolhida por 11 mil brasileiros, mas não havia distinção entre essas outras religiões.

Enfim, essa filosofia de vida (religião, para alguns) milenar chinesa prega o equilíbrio e a harmonia em nossa vida, defendendo que devemos estar em conexão com o todo e sempre tentando harmonizar as energias negativas e positivas em nossas vidas, para que a balança fique equilibrada e não sejamos nem luz demais, nem sombra demais. Agora que você conhece a busca por harmonia do taoísmo, que tal incorporar alguns dos ensinamentos dessa filosofia de vida em sua caminhada?

Uma breve história do taoísmo

A origem do taoísmo está relacionada à sabedoria de Lao Tsé, que viveu entre 604 e 517 a.C. Ele é o autor do Tao Te Ching, que se tornou um livro sagrado do taoísmo, no qual estão compilados seus principais ensinamentos.

Nessa doutrina, ao menos na parte religiosa dela, Deus é o criador e é considerado a única fonte do Universo. O taoísmo, porém, é dividido em dois ramos: filosofia e religião. O taoísmo filosófico é ateu e se considera panteísta, enquanto o taoísmo religioso é politeísta, idólatra e aberto à comunicação com os mortos.

Lao Tsé

Lao Tsé (a tradução literal é “velho mestre”, às vezes também chamado de Lao Zi, Lao Tze ou Lao Tzu) entrou para a História como o autor do Tao Te Ching, o livro sagrado do taoísmo. Esse homem chinês viveu em algum momento entre os séculos XIV e IV; historiadores supõem que ele tenha morrido no ano de 531 a.C.

Lao Tsé, segundo as fontes mais confiáveis da época, era um intelectual que trabalhava cuidando dos arquivos e da biblioteca da corte real da dinastia Zhou. Por ser responsável por lidar com livros, ele teve acesso a muito conhecimento, o que o tornou um grande sábio respeitado na época, capaz de arregimentar uma horda de discípulos, que cuidaram de espalhar os seus ensinamentos pela China da época. Quando morreu, Lao Tsé era apenas um sábio, um filósofo da época, não um líder religioso, pois isso ele nunca pretendeu ser.

Tao Te Ching

O Tao Te Ching, geralmente traduzido como “O livro do caminho e da virtude”, é considerado a obra mais importante da literatura chinesa. Estima-se que foi escrito por Lao Tzu entre 350 e 250 a.C. Alguns historiadores e estudiosos supõem que Lao Tzu, na verdade, não existiu e que o Tao Te Ching é um compilado de provérbios e de sabedorias da época. Há teorias semelhantes para as obras de Homero e de Shakespeare, por exemplo, então não é bem uma novidade.

Além de encorajar o surgimento do taoísmo, que apenas influenciou indiretamente já que a religião surgiu quase cinco séculos após a sua morte, Lao Tsé também influenciou o estabelecimento do Zen Budismo e do Chan Budismo, já que os seus conceitos de harmonia com a natureza, de pregação da paz e da integração à natureza se alinharam aos ensinamentos atribuídos a Buda.

Confira abaixo alguns trechos do Tao Te Ching:

“Ser profundamente amado por alguém nos dá força; amar alguém profundamente nos dá coragem.”

“As palavras verdadeiras não são agradáveis e as agradáveis não são verdadeiras.”

“Conhecer os outros é inteligência, conhecer-se a si próprio é verdadeira sabedoria. Controlar os outros é força, controlar-se a si próprio é verdadeiro poder.”

“É fácil apagar as pegadas; difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão.”

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