Espiritualidade

O significado da Páscoa para as religiões

Criança segurando uma cesta com pequenos ovos de páscoa.
BlueOrange Studio / 123RF
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Uma das celebrações religiosas mais marcantes e respeitadas no mundo é a Páscoa, que tem origem na tradição judaico-cristã e em elementos ligados às celebrações do equinócio da primavera, além daqueles que foram sendo incorporados dos povos cristianizados ao longo do tempo.

Além disso, a Páscoa é uma das mais antigas celebrações, com data instituída pela Igreja Católica em 325 depois de Cristo, no Concílio de Niceia. Antes disso, as comemorações desse importante período, já ocorriam há centenas de anos entre os judeus.

A Páscoa, entretanto, não é celebrada por muitas religiões, em função do conjunto de dogmas próprios de cada uma. Assim vamos conhecer qual é o significado atribuído a ela por oito das principais religiões do mundo e com impacto no Brasil. Continue a leitura!

As principais religiões do mundo

Entre as muitas religiões, há várias formas para se relacionar com a espiritualidade e se ligar ao divino. Imagine pensar em todas essas maneiras, considerando a quantidade de povos, por exemplo, da Ásia e da África. Por isso vamos nos ater às religiões com as quais convivemos e com as quais de alguma forma interagimos. Considerando que o Brasil é uma terra acolhedora, que congrega povos do mundo todo e abraça a liberdade de suas crenças, entenda a seguir como a Páscoa é vista por elas:

Judaísmo

A palavra “Páscoa” deriva do hebraico (pessach) e significa passagem. A celebração relembra a libertação do povo hebreu da escravidão imposta pelo Egito há cerca de 3.500 anos. É a primeira das grandes festas, muito comemorada pelos judeus, pois as tradições são mantidas como uma orientação divina aos seus seguidores.

A Páscoa passou a ser celebrada pelo povo judeu como memória da passagem da décima e mais devastadora praga pelo Egito, informada a Moisés por Deus. A praga da morte dos primogênitos resultou na saída dos antepassados hebreus dessa região em direção à Terra Prometida, trajetória descrita no Antigo Testamento da Bíblia, no livro de Êxodo e que teria ocorrido no ano 1445 antes de Cristo.

Itens representativos da religião judaica.
ESchwartz / Pixabay

Moisés orientou cada família do seu povo a sacrificar a ovelha ou o carneiro mais jovem do rebanho, tirar o sangue e usá-lo para passar no umbral da porta de casa, permanecendo em vigília, sem sair dela, durante a noite e a madrugada. Assados inteiros, todos deveriam comê-los e as sobras deveriam ser incineradas. Nessa data, passou sobre as casas o Anjo Exterminador enviado por Deus e todas aquelas que não estavam marcadas tiveram o seu primogênito morto, assim como os filhotes mais jovens dos rebanhos, inclusive o primeiro filho do faraó morreu nessa noite. Foi assim que o faraó chamou Moisés e ordenou que ele deixasse o Egito com todo o povo hebreu.

Dessa forma, para o judaísmo, um dos significados da Páscoa é a passagem do anjo da morte sobre as casas de todos no Egito, com a vida poupada para quem precisava de justiça e libertação. Ela é comemorada no décimo quarto dia do Nissan, primeiro mês do calendário judaico, que é lunissolar (seguimos o gregoriano). Corresponde a março/abril e, como todos os meses judaicos, começa sempre na Lua Nova. Esse mês marca a primavera do Hemisfério Norte.

A Páscoa, para os judeus, tem um dia fixo a ser considerado para a celebração. A partir da Lua Nova do mês, conta-se 14 dias. O primeiro domingo, já com Lua Cheia, marca as comemorações, sempre com muito respeito às tradições, que incluem uma ceia em família, na qual todos relembram e celebram a libertação do povo hebreu. Ela é conhecida por Sêder e há a leitura do Hagadá, o livro que conta a história da saída dos antepassados do Egito rumo à Terra Prometida.

Depois, considerando que nenhum alimento consumido deva passar pelo processo de fermentação e seguindo à risca a ordem dos alimentos, são servidos:

Matzá — pão sem fermento, de massa fina, para lembrar que quando os hebreus saíram do Egito não houve tempo para esperar o pão fermentar.

Vinho — na Páscoa, ele não é fermentado e dele são servidas quatro taças individuais durante todo o jantar.

Zeroá — pedaço de osso bem tostado, com carne, para simbolizar sacrifício dos animais.

Maror — raiz amarga para lembrar da amargura do tempo de escravidão do povo hebreu no Egito. Também é utilizada a escarola, com a mesma simbologia.

Charósset — pasta de maçã, uva e nozes ou tâmara, canela e vinho não fermentado, que simboliza a argamassa feita pelos hebreus nas construções faraônicas.

Água salgada — simboliza o suor e as lágrimas do tempo da escravidão dos hebreus no Egito. Nela são molhadas as verduras amargas.

Beitzá — é ovo cozido para simbolizar a resistência do povo hebreu durante a escravidão. Ao contrário de outros alimentos, quanto mais se cozinha o ovo, mais rígido ele fica.

Mulher se serve de alimentos típicos da cultura judaica.
cottonbro / Pexels

Após os alimentos ritualísticos, os judeus consomem outros pratos próprios da culinária Kasher, por exemplo o Gefilte Fish (bolinho de peixe). É importante ressaltar que o Sêder era tão importante para os hebreus que Cristo, sendo judeu, na Última Ceia, estava celebrando um deles.

Entre os costumes, atualmente, as crianças judias participam da busca por pedaços embrulhados de matzá, aleatoriamente guardados pela casa, após o jantar. Há jejum e orações são recitadas durante o Sêder e na sinagoga. As comemorações duram sete dias e os judeus mais abastados costumam celebrar a Páscoa em Jerusalém. No ano de 2021, por exemplo, a celebração dessa tradição religiosa deverá ocorrer entre 27 e 28 de março.

Cristianismo

A palavra “cristianismo” remete a Cristo e representa a religião com o maior número de seguidores no mundo. Tem raízes semelhantes ao judaísmo e entende Jesus Cristo como o Messias ou o próprio Deus. Ao longo da história da Humanidade, o cristianismo sofreu cisões e o surgimento de divisões. Assim sendo, temos o catolicismo romano, a igreja oriental (ou ortodoxa) e o protestantismo.

Embora com atuações diferentes, todas as divisões do cristianismo ideologicamente entendem Jesus Cristo como o Eleito, o Filho de Deus. E a celebração da Páscoa é sobre a ressurreição de Jesus e a salvação da Humanidade, um ponto central da fé cristã. Desse modo, veja como cada uma das três divisões celebra o período:

Catolicismo romano

Terço vermelho em fundo rosa.
Karolina Grabowska / Pexels

Foi no Concílio de Niceia que o Imperador Constantino e o Papa Silvestre I consolidaram a doutrina da Igreja Católica e o catolicismo como a religião oficial do Império Romano, que já havia admitido a livre escolha da crença religiosa pelo povo, sem as perseguições e mortes que muitos haviam anteriormente sofrido. Foi neste Concílio que se instituiu a Semana Santa entre o Sábado de Aleluia e o Domingo da Ressurreição, que é o Domingo de Páscoa. O termo Páscoa significa passagem, mas, nesse caso, para a vida eterna, passagem esta que Jesus Cristo teria feito quando ascendeu aos céus e se juntou ao Pai.

A Páscoa, para os católicos, é a celebração da ressurreição de Jesus Cristo, depois de ter percorrido a Via Crucis, ter sido humilhado, torturado, crucificado e morto. Ela traz esperança na vida eterna e a crença de que o Filho de Deus aqui esteve para que o ser humano fosse salvo de seus pecados, principalmente porque, à época de sua vida terrena, a conduta humana era dissonante dos preceitos religiosos deixados pelos profetas. A morte de Cristo foi um sacrifício voluntário dEle para salvar a Humanidade de seus pecados e, devido a Ele, o ser humano recebeu uma segunda oportunidade.

A data de celebração da Páscoa é móvel e corresponde ao primeiro domingo da primeira Lua Cheia após o equinócio de primavera no Hemisfério Norte e do equinócio de outono no Hemisfério Sul, entre 22 de março e 25 de abril, de acordo com o calendário gregoriano.

Para a comemoração da Páscoa, os católicos vão à missa, assistem à encenação da crucificação e da ressurreição de Cristo, participam de procissões e almoçam com os familiares. Nesse dia, a carne vermelha pode ser consumida nas refeições, pois durante toda a Quaresma, incluindo a Semana Santa e a Sexta-Feira Santa, ela foi um item de jejum, tal qual outras penitências do período para se redimir dos pecados. No domingo de Páscoa, durante as missas, os párocos utilizam vestuário branco ou dourado, simbolizando o renascimento.

Igreja Ortodoxa

Embora a Páscoa, para os ortodoxos, tenha o mesmo significado daquele atribuído pelos católicos romanos quanto à ressurreição de Jesus Cristo, eles festejam a data de forma bem rigorosa, com idas às missas, uso de muito vermelho (considerada por eles a cor da vida) e jejuns seguidos à risca, nos quais não são consumidos defumados, carnes, manteigas e linguiças.

Interior de catedral.
Julia Volk / Pexels

Contudo ele é encerrado na primeira Lua Cheia após o equinócio de primavera no Oriente, uma data móvel, quando é servido um pão de frutas secas, além de ovos cozidos e todos pintados de vermelho, lembrando o sangue derramado por Cristo para salvar a vida dos Homens.

Quanto à data da Páscoa em si, pelo fato de os ortodoxos adotarem o calendário juliano (referência ao imperador romano Júlio César, que o instituiu no ano 46 antes de Cristo), ela sempre vai ocorrer após a celebração da Páscoa judaica. Para se ter uma ideia da diferença, em 2021, os ortodoxos vão celebrar a Páscoa em 2 de maio. Aliás, diferentemente dos católicos romanos, a celebração é feita durante toda a semana que segue o domingo de Páscoa. No período da Quaresma, os representantes religiosos ortodoxos celebram missas abertas a todos (ortodoxos ou não), com cantos em latim.

Protestantes

Reverendo lê bíblia em igreja vazia.
MART PRODUCTION / Pexels

Os protestantes se dividem em luteranos, anglicanos, pentecostais e outros. Contudo a Páscoa tem o mesmo significado para todos os cristãos, variando apenas a forma de celebrar. De um modo geral, as celebrações são feitas com reflexão e orações. Na sexta-feira da Paixão, acontece um culto especial com apresentações de teatro, música e dança. No domingo de Páscoa há um louvor à ressurreição. Quanto à data a ser comemorada, ela segue basicamente o mesmo calendário da Igreja Católica.

Islamismo

Os muçulmanos acreditam num único Deus, Criador de todas as coisas, a quem atribuem o nome de Alá e recebem os Seus ensinamentos por meio dos profetas, como é o caso de Maomé. Eles enxergam Jesus Cristo como um profeta. Para os muçulmanos, Jesus Cristo não morreu após a Última Ceia, mas foi arrebatado, indo para perto de Alá sem ter passado pelo sacrifício da crucificação e lá permanece até o momento de voltar à Terra. Desse ponto de vista, a Páscoa e a semana que a antecede não têm significado especial para eles.

Muçulmano em oração.
Gabby K / Pexels

Mesmo tendo as mesmas origens e profetas como Abraão, Noé e Moisés, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo seguiram destinos históricos diferentes. Lembrando que esta última religião surgiu no ano 570 depois de Cristo. Para a crença islâmica, o profeta é um ser sagrado com a missão de trazer a palavra de Deus e, por tal motivo, nunca poderia ser crucificado. Para eles, a Páscoa significa a renovação da fé, mas eles não a celebram, sendo o Ramadã o mês de jejum.

No Brasil, há cerca de 35.167 muçulmanos, conforme o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feito em 2010. Entretanto instituições islâmicas no país apontam que o número de seguidores da religião é superior a 1,5 milhão, sendo a maior comunidade no estado do Rio Grande do Sul.

Budismo

Estatueta de Buda.
Karolina Grabowska / Pexels

O budismo é uma religião que surgiu com Buda (Siddhartha Gautama) no norte da Índia, por volta do século V antes de Cristo. Atualmente, ela abrange países como China, Japão, Paquistão, Nepal, Sri Lanka, Afeganistão, Tailândia e outros. No Brasil, há 243.966 praticantes, conforme dados do IBGE no censo de 2010. Os adeptos dessa religião não celebram a Páscoa, que não faz parte de suas doutrinas.

Sikhismo

Embora com cerca de mil adeptos no Brasil, essa é a quinta maior religião do mundo, com aproximadamente 20 milhões de seguidores. Entendida como sincrética entre o hinduísmo, o islamismo e o sufismo (uma das linhas do islamismo), ela concebe Deus como eterno e sem forma e que todos os seres humanos estão separados dEle devido ao egocentrismo, por isso todos permanecem num ciclo de renascimento.

Pessoas adeptas do sikhismo.
Jeevan / Pixabay

Entre suas doutrinas está a crença no karma, para o qual ações positivas geram resultados positivos e permitem atingir elevação espiritual. Contudo não entende Jesus Cristo como um ser especial e rejeita o sacrifício dEle como meio de salvação do ser humano. Para os sikhs, Deus, sendo justo, não pode perdoar um pecado sem que cada um pague individualmente pela justa dívida. Assim, no sikhismo não existe significado para a Páscoa.

Espiritismo

No Brasil, há 123.4 milhões de fiéis ao espiritismo, conforme o censo de 2010 do IBGE. Segundo a doutrina da religião, os espíritas reconhecem em Jesus Cristo um grande Mestre Ascensionado que veio ensinar aos homens os meios para a evolução espiritual. Eles respeitam todas as manifestações religiosas, contudo entendem que esse período de Páscoa deve ser destinado à reflexão e à renovação de pensamentos e atitudes, para fazer surgir uma nova pessoa.

Mulher sentada em pedras à frente do mar.
Eternal Happiness / Pexels

Essa doutrina religiosa percebe a reforma íntima pela qual os discípulos de Jesus passaram, quando sentiram o amor do Mestre e entenderam a possibilidade da vida além do túmulo. Logo, a celebração da Páscoa deve se destinar à conexão com Jesus Cristo e Sua presença no coração de cada um. A Semana Santa, a exemplo da conduta do Mestre, deve ser de ajuda ao próximo, similar ao que Ele ensinou, como forma de homenageá-lo.

Na doutrina espírita, Jesus Cristo é a materialização do corpo espiritual no corpo físico, que cumpriu a sua missão na Terra, ensinando aos seres humanos o amor divino. Ele passou pela desencarnação e retornou ao plano espiritual do qual já fazia parte sem ressurreição do corpo.

Hinduísmo

Embora tenha poucos adeptos da religião no Brasil, ela é a maior entre as politeístas e uma das oito que mais têm seguidores no mundo. As divindades mais importantes são Brahma (que representa a força criadora do universo), Krishna, Ganesha, Vishnu e Shiva.

Estatueta de Ganesha.
Artem Beliaikin / Pexels

Jesus Cristo, para os hindus, é compreendido como Deus que se manifesta em forma humana e protege o povo das forças malignas, como um avatar. Ele é visto como aquele que vem à História humana para conduzi-la à sua plenitude, estando inserido nela. Desse ponto de vista, não há morte nem tampouco ressurreição, por isso os hindus, principalmente na Índia, celebram a Páscoa como o surgimento do deus Krishna e a chegada da primavera, quando acontece o Festival Holi, com música, dança, cor e comidas especiais.

Religião tradicional chinesa

A China é uma nação que tem em suas raízes três grandes bases filosóficas e religiosas: o confucionismo, o taoísmo e o budismo. Outras menores ou vertentes dessas três maiores constituem a chamada religião tradicional chinesa, um conjunto de valores, crenças e práticas espirituais com várias divindades desenvolvido ao longo dos séculos e que valoriza o culto e o respeito aos antepassados. É uma das principais do mundo, com cerca de 454 milhões de seguidores. Nela, a Páscoa não é celebrada.

Decoração chinesa suspensa.
Angela Roma / Pexels

No Brasil, essa religião não é significativa, embora haja em São Paulo e no Rio de Janeiro dois templos taoístas. Estima-se que a população de chineses e descendentes no país seja de cerca de 200 mil, embora os dados da imigração na Polícia Federal, publicados em 2014, apontem apenas 37.417 chineses, concentrados 80% na região sudeste.

Religiões de matriz africana

Os seguidores do candomblé e da umbanda, religiões de matriz africana, não celebram a Páscoa, embora respeitem as tradições relacionadas à Igreja Católica. O período da Quaresma, por exemplo, tem como significado o combate dos orixás ao mal, por isso as atividades nos terreiros são interrompidas. No Brasil, segundo dados do IBGE, publicados no censo demográfico de 2010, as duas religiões, juntas, representam 500.219 praticantes, porém abrangem ainda outras religiões menos expressivas.

Fitas senhor do Bonfim. Ao fundo, festa religiosa do candomblé.
jecosta / Pixabay

Para finalizar, vimos que a Páscoa tem significados religiosos profundos, de épocas milenares, que permanecem vivos nas tradições de celebração da data. Diferentemente das religiões politeístas e com divindades muito específicas, Jesus Cristo é respeitado como um grande líder influenciador no aperfeiçoamento do espírito humano e na conexão do humano com o divino. Renovação, renascimento, amor ao próximo, caridade, união familiar e fé são alguns temas centrais com os quais devemos ter contato rotineiramente, especialmente nesse período. Assim, mantenha a ligação com o que te faz evoluir espiritualmente nesse mosaico que se chama Humanidade!

Sobre o autor

Eu Sem Fronteiras

O Eu Sem Fronteiras conta com uma equipe de jornalistas e profissionais de comunicação empenhados em trazer sempre informações atualizadas. Aqui você não encontrará textos copiados de outros sites. Nossa proposta é a de propagar o bem sempre, respeitando os direitos alheios.

"O que a gente não quer para nós, não desejamos aos outros"

Sejam Bem-vindos!

Torne-se também um colunista. Envie um e-mail para [email protected]