Saúde Integral

Como o açúcar pode ser mais viciante do que as drogas?

Eu Sem Fronteiras
Escrito por Eu Sem Fronteiras

Açúcar afeta estruturas cerebrais e vicia.

Problemas no relacionamento. Problemas na família. Problemas no trabalho ou desemprego. Insatisfação com a aparência. Essas e várias outras frustrações parecem justificar abocanhar um simples bombom, ou até mesmo uma enorme barra de chocolate. Para ninguém achar exagero, pense em quantas vezes já viu cenas de filmes, seriados ou novelas onde a mocinha devora um pote de sorvete porque brigou com o namorado. Pense também no ar de conforto e satisfação após o doce. Você com certeza já protagonizou essa cena pelo menos uma vez. Porém, o problema começa quando a necessidade de ingerir açúcar domina a pessoa a tal ponto, que ela simplesmente não consegue resistir.

Compulsão por doces é tão grande quanto pela droga.

O vício em açúcar é algo tão grave quanto o vício em drogas. E todos nós estamos propensos a desenvolvê-lo. Pesquisas confirmam que os seres humanos são “programados” para gostar de doces desde a mais tenra idade. O vício começa quando ainda somos bebês, visto que o leite materno é muito doce. Essa capacidade de reconhecermos alimentos adocicados faz com que eles sejam desejados. Veja alguns sinais que revelam o vício em açúcar:

  • Se livrar do estresse: a produção do hormônio cortisol aumenta quando estamos estressados e ansiosos;
  • Preferir chocolate a sexo: pesquisas apontam que muitas pessoas preferem uma boa barra de chocolate a fazer sexo;
  • Quanto mais, melhor: nos viciados em açúcar, a insulina não consegue levá-lo para dentro das células e produzir energia. Assim, o corpo nunca fica saciado e continua a emitir sinais que precisa dele;
  • Comer escondido: comer doces escondidos após ser repreendido por familiares e amigos.
Açúcar x TPM

As mulheres têm uma relação emocional com os doces. Antes da menstruação o corpo fica mais sensível à ação da insulina. Quando a TPM se instala, acontece uma série de alterações hormonais, como a queda da serotonina, hormônio responsável pelo prazer. Isso propicia irritação, depressão, ansiedade e dores de cabeça. Por isso, as mulheres encontram nos doces o refúgio para esses sintomas, já que eles aumentam os níveis de serotonina. A dica para as mulheres diminuírem o consumo de açúcar durante a TPM é comerem alimentos ricos em vitamina C (laranja, abacaxi, acerola, rúcula, tomate e espinafre), vitamina E (fígado, castanha-do-pará e amêndoa) e magnésio (arroz integral, ameixa e espinafre).

Por que o açúcar vicia?

Após comermos um doce, o cérebro libera opioides. Essas substâncias químicas naturais são responsáveis pela sensação de prazer. Quando o cérebro reconhece isso, ele exige mais opioides (substâncias que provocam euforia, assim como o ópio), daí surge a compulsão. Os cientistas já mapearam o cérebro, e conseguiram identificar as áreas que são ativadas durante e após a ingestão de doces. Prova que o vício em açúcar não pode ser ignorado.

O que acontece quando ingerimos açúcar?

Quando o açúcar entra na corrente sanguínea, os níveis de glicose aumentam, estimulando o pâncreas a produzir e liberar insulina, hormônio que converte a glicose em energia e em reservas de gordura.

A fim de comprovar que o vício em açúcar leva à compulsão e à síndrome de abstinência, os pesquisadores das universidades de Princeton e Minnesota (Estados Unidos) fizeram o seguinte teste, colocaram imagens de sorvetes para um grupo de pessoas. As imagens cerebrais revelaram que a imagem de um sorvete traz ao cérebro a mesma sensação de prazer que as imagens de um cachimbo de crack em dependentes.

Porém, as descobertas não param por aí. O neurocientista Ivan de Araújo e seu grupo que estudam como os alimentos calóricos estimulam os centros de recompensa do cérebro descobriram que o açúcar ativa uma região do duodeno (localizado no intestino delgado). O duodeno informa aos centros de recompensa do cérebro que o alimento é calórico. Outra conclusão dos cientistas é que o cérebro possui um grupo de neurônios sensíveis ao açúcar. Quando comemos um doce, ocorre a liberação de dopamina, hormônio responsável pela sensação de prazer, no mesmo local onde o hormônio é acionado nos viciados em cocaína. Araújo e seu grupo concluíram também que o cérebro tem compulsão pela quantidade de calorias, e não pelo sabor doce. Isso explica porque os adoçantes não provocam os mesmos efeitos do açúcar.

Como dissemos anteriormente, somos “programados” para consumirmos açúcar desde o nascimento, porque o leite materno é doce. Porém, as causas do vício não estão restritas a isso. O papel do cérebro vai além.  Para ele, o acúmulo de açúcar representa ter energia para fertilidade e reprodução. Como a escassez de comida acompanhou a humanidade por milhares de anos, o organismo aprendeu a acumular energia. Ou seja, o cérebro aprendeu a reconhecer e pedir alimentos calóricos para proteger o corpo. Entretanto, o cérebro humano não entendeu que os tempos são outros, e que hoje existe uma abundância de comida, e que não precisa mais dessa função de reconhecer e pedir alimentos calóricos.

Entretanto, nem todos concordam que o vício em açúcar é semelhante ao vício em cocaína. A endocrinologista Maria Edna de Melo, da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), por exemplo, compara os efeitos do vício em cocaína aos da cafeína, que também provocam crises de abstinência. A endocrinologista ressalta ainda que as pessoas predispostas a se viciarem em açúcar possuem a mesma variação genética que está associada ao comportamento compulsivo alimentar.

Açúcar? Só o que está embutido nos alimentos

shutterstock_194699561De acordo com o australiano David Gillespie, autor do livro da série de livros “Sweet Poison” (em português, “Doce Veneno”), como o açúcar refinado é metade frutose, metade glicose, nós não precisamos consumir outro tipo de açúcar além daquele que está presente em alguns alimentos, exatamente a frutose (açúcar das frutas) e a glicose (açúcar dos carboidratos). Nosso corpo aproveita a glicose como combustível, e isso nos dá energia, enquanto a frutose é transformada em gordura pelo fígado. Por isso, quanto maior a quantidade de glicose, maior a concentração de açúcar na corrente sanguínea, fator que propicia diabetes tipo 2.

Mas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece que uma pessoa adulta, deve consumir 25 gramas de açúcar por dia, o que corresponde a 5% de uma dieta de 2000 calorias.

Quais os males provocados

Consumir açúcar em excesso aumenta os níveis dos triglicerídeos, aumenta o mau colesterol e diminui o bom colesterol, dentre vários outros males:

  • Cáries: Consumir mais que 28 gramas por dia transforma o açúcar em agentes tóxicos para os dentes;
  • Alterações de humor: O açúcar estimula o sistema nervoso. Consumido em excesso, propicia um brusco aumento e queda dos níveis de glicemia. Depressão e fadiga acompanham essa oscilação, que acarreta na deficiência de vitamina B1, cuja atuação é proteger o sistema nervoso. Em crianças, provoca dificuldade de concentração e irritabilidade;
  • Obesidade central: Aumento da gordura visceral, que provoca hipertensão, resistência insulínica, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e esteatose hepática (gordura no fígado);
  • Diminui a resistência imunológica: Desativa o sistema imunológico, porque, o açúcar destrói a barreira intestinal, o que acarreta na diminuição das defesas orgânicas.
  • Desequilíbrio hormonal: O açúcar pode alterar os níveis de estrogênio em homens, exacerbar a TPM e diminuir os níveis do hormônio do crescimento;
  • Câncer: O excesso de açúcar estimula o crescimento tumoral. Algumas células cancerígenas precisam da insulina para crescer e se multiplicar. Pesquisas apontam que as células pré-cancerosas do câncer de mama, ovário, próstata, reto, pâncreas, trato biliar, pulmão, vesícula e estômago não se tornariam malignas sem a presença de insulina.

Superar o vício em açúcar é algo extremamente difícil. Ele está presente emshutterstock_202069465 sucos,refrigerantes, ketchup, até mesmo nos cereais. O amido presente na batata frita, salgadinhos e pão branco rapidamente transforma-se em açúcar. Mesmo que a palavra açúcar não esteja no rótulo, ele se faz presente. Néctar de agave, xarope de arroz marrom ou de frutose, dextrose ou suco de cana evaporado são os nomes que camuflam o açúcar.

Em casos mais brandos, algumas medidas conseguem diminuir consideravelmente o consumo de açúcar:

  • Evitar ter doces em casa: Quando tiver com muita vontade de comer um doce, vá até uma ou doceria, coma apenas um e volte para casa;
  • Aumentar a ingestão de água: O cérebro confunde desidratação com fome;
  • Não adoçar os sucos naturais: Aproveite a frutose;
  • Carboidratos integrais: Consuma apenas pães e biscoitos integrais. As fibras provocam saciedade;
  • Adoçantes: Apenas os naturais, stévia, sucralose ou extrato de agave;
  • Exercícios físicos: Aumenta os níveis de serotonina, dopamina e endorfina. Quem malha passa a querer alimentos mais saudáveis.

E quando essas medidas simples não resolvem? Nesse caso é recomendado um acompanhamento multidisciplinar (nutricionista e psicólogo). Conforme foi dito anteriormente, o açúcar é usado como uma válvula de escape para aplacar as frustrações. Enquanto o profissional de nutrição elabora um plano de reeducação alimentar, o psicólogo ajudará você a lidar com os problemas de uma forma saudável. Discutir seus problemas com uma pessoa que não faça parte da sua família, nem faça parte do seu círculo de amizades ajuda a ver as coisas sob outro prisma.  Mas, existem outras terapias que ajudam na superação do vício em açúcar.

Tratamentos alternativos
  • Tomar chás: Chás de camomila, kava e hipericão trazem relaxamento. É uma forma saudável de aliviar a ansiedade;
  • Meditação: Pode ser feito em casa. Desligue os telefones, computadores, televisões e qualquer aparelho eletrônico. Desligue-se do mundo e concentre-se em seu bem-estar;
  • Yoga: Essa prática oriental é um meio termo entre a meditação e o exercício físico. É uma forma de ajudar a regular os níveis de serotonina, dopamina e endorfina.
Como a EFT pode ajudar?

A EFT Emotional Freedom Techniques (Técnica de Libertação Emocional), também conhecida como “Acupuntura Emocional sem Agulhas”, foi desenvolvido pelo Dr. Roger Callahan, psicólogo americano estuda acupuntura. Essa “acupuntura emocional” desbloqueia os canais energéticos, por intermédio de leves batidas com as pontas dos dedos em pontos específicos no rosto e no corpo, enquanto o paciente entra em contato com seus conflitos, repetindo frases lembretes (frases que trazem sentimentos negativos). A EFT ajuda em qualquer conflito emocional. É útil também em casos de dores crônicas, pois, de acordo com as terapias holísticas, as doenças físicas estão intimamente ligadas aos problemas emocionais.

É importante salientar que a técnica ainda está em estágio experimental. Não substitui a psicologia, portanto, consulte sempre os médicos que acompanham seu caso.

A família também pode ajudar

shutterstock_242270665A família é importante para a superação de qualquer vício. Muitas vezes, a compulsão é intensificada por ela. Lanches da tarde cheio de bolos e tortas. Chocolate quente, pacotes de balas e demais guloseimas são oferecidas pela família como uma “recompensa” por um dia difícil de trabalho. Mal sabe ela que essa “compensação” representa trazer para dentro de casa uma das drogas mais consumidas do mundo.

Ela pode ajudar conversando com a pessoa viciada em açúcar, questionando se ela está com algum problema. Convidar o compulsivo a realizar tarefas domésticas, dar uma volta, enfim, fazer a pessoa se distrair, fará a irresistível vontade de comer doces diminuir.

O vício em açúcar é difícil de ser superado. Sua presença está em todo lugar. Porém, é preciso força de vontade para enfrentá-lo. Todos têm momentos bons e ruins, mas, não podemos sucumbir diante deles. Devorar um bolo, um pote de sorvete ou uma lata de leite condensado, inicialmente traz prazer, mas, depois vem uma sensação ruim, de impotência perante a vida, que leva a aumentar a ingestão de açúcar. Esse ciclo vicioso além de não resolver seus problemas, faz seu peso aumentar, o que aumenta o sentimento de fracasso. As consequências da compulsão, problemas de saúde como hipertensão e diabetes tornam a vida de um viciado em açúcar ainda mais complicada.

Os doces são escravizadores. Seduzem as pessoas emocionalmente instáveis. Contudo, você precisa ser mais forte do que seus conflitos emocionais. Você não nasceu comendo uma barra de chocolates, portanto, pode muito bem reduzir o consumo. Não estamos falando que nunca mais pode comer um docinho, mas, seja forte e abra mão das sobremesas por três dias.

É preciso viver a vida em sua plenitude, isso significa que precisamos conviver também com as coisas ruins.


  • Texto escrito por Sumaia Santana da Equipe Eu Sem Fronteiras

Sobre o autor

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